Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Ecos da discussão de 10.04.2011
por Cláudia Mogadouro


O filme Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami rendeu muita discussão. A pedidos, tentamos reunir aqui os principais comentários da nossa reunião do dia 10 de abril. Se já é difícil escrever os ecos da discussão, sobre esse filme acho ainda mais difícil, mas podem ter certeza que a reunião foi ótima! 

A reunião começou dividida entre as pessoas que amaram e aquelas que tanto amaram que foram ver duas vezes (essas ajudaram muito na reconstrução dos detalhes). 

Logo surgiu a polêmica acerca do relacionamento entre os protagonistas: parte do grupo achou que eles eram casados e o início do filme mostra um fingimento; outros acharam que não: a segunda parte do filme é que seria um jogo. Levantamos muitos detalhes do filme para tentar entender qual seria a história original e qual seria o “espelho”. Muitos foram os trechos citados que “comprovariam” a tese de que eles tinham sim sido casados. Por exemplo, o questionamento do filho sobre o seu sobrenome. Sobrenome tem a ver com paternidade. Por que ela não assumiu diante do escritor o sobrenome do filho? O filho seria fruto desse relacionamento anterior entre eles? Em outro momento, Elle cita: “o filho é a cópia fiel do pai”. Esse comentário surge num momento em que James defendia a “liberdade de viver” do menino. Seria Elle a moça que seguia o filho e que inspirou James a escrever o livro? Mais ao final do filme, ele diz a ela: “você não rezava antes”. Outra dica: como ela poderia saber que James tem o hábito de fazer a barba dia sim, dia não? Elle fala sobre isso para a mulher do café, depois ele confirma esse comentário. 

Mas aí entra a “defesa” dos que acham que eles não se conheciam anteriormente e que o jogo se inicia no café, quando ela aceita fingir que é casada com ele. Quantos homens não fazem a barba dia sim dia não? O casamento “inventado” para a dona do café trazia relatos comuns a todos os casais. O filme diz sobre o particular e o geral, o individual e o universal. A personagem de Binoche chama-se Elle – ela em francês – o que pode significar todas as mulheres. O que é a cópia e o que é o original? Até que ponto a nossa vida não é uma cópia de todas as outras vidas? Lembramos o filme do Eduardo Coutinho Jogo de Cena, que também trabalha com a ficção e a realidade, com o particular e o geral. Pensamos na nossa herança cultural. Quando nascemos não entramos em um mundo “zerado”. Entramos em uma cultura construída na linguagem, nos comportamentos, nas expressões artísticas. É a partir da nossa herança cultural (tema da especialidade do protagonista) que construímos as nossas histórias “originais” e “particulares”. Pensando por esse lado, o roteiro da narrativa que eles inventam pode ser a de inúmeros casais. 

Chegamos à conclusão de que as duas leituras são possíveis, do começo ao fim, e que o filme é construído de maneira a permitir esse jogo. 

Para Ronilson, os casais são todos os mesmos: os protagonistas, o casal no dia do casamento, o casal que comenta a escultura, os velhinhos que saem da igreja, até mesmo o casal representado na escultura. Lemos um comentário de Kiarostami que legitima a percepção de Ronilson: “minha intenção não era discutir a cópia e o original, tudo era um pretexto para discutir a relação do casal. Nietzsche dizia: “saiba que a importância de uma obra está no seu olhar. E isso não acontece só na arte. O seu objeto de amor também depende do olhar que você lhe lança”. 

O grupo priorizou o olhar do filme para os relacionamentos, mas também discutimos a questão da autenticidade da obra de arte (citamos Walter Benjamin e seu texto sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte). O ponto de partida do filme é um ensaio sobre a cópia e o original. Rianete citou Platão, que afirma que a arte é uma imitação em terceiro grau, já que imita a realidade, que imita a ideia das coisas. Valorizamos muito como o cineasta faz essa discussão tão profunda a partir da estética e da imagem. Foi muito comentada a cena da estátua e a tão discutida cabeça recostada da moça, porque nunca se vê a tal cabeça, a não ser através de vários espelhos (aliás, há muitos espelhos em todo o filme). As duas cenas em que eles se olham no espelho seria uma opção metalinguística, uma vez que o próprio público é o espelho. 

Mas a reunião acabou com uma grande pergunta: quantas vezes o sino tocou ao final? Ronilson contou oito vezes (alguém contou quando foi rever o filme?). Qual a importância do número de badaladas? James tinha que pegar o trem às 9 horas. Se o sino tocou oito vezes, ele ainda poderia se decidir por ficar com ela (e continuar o jogo?) ou não. Se tocou nove vezes, ele já havia decidido ficar. 

Achamos o filme magnífico. Sentimos que ele pode e deve ser visto inúmeras vezes. Por exemplo, é possível assistir ao filme prestando atenção APENAS aos momentos em que são faladas as línguas francesa, inglesa e italiana? Só esse aspecto daria outra reunião do grupo e muitos outros textos. Quem gostaria de escrever mais sobre o tanto que nos escapa?

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