Filmes para Crianças Pequenas

24.02.2015
Elaboração: Profª Drª Cláudia Mogadouro

O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

Qual a idade para uma criança começar a ver filmes? Com que idade elas podem aproveitar os filmes do cinema ou da TV e vídeo? 

Hoje em dia as crianças nascidas nas áreas urbanas têm contato com as telas desde bem pequenas, quer seja nos computadores pessoais, telefones móveis ou tablets. Existem televisores ligados nas casas, restaurantes, consultórios médicos, metrô, ônibus e táxis. A cultura audiovisual é forte em nossa sociedade e a criança, antes de saber falar, dá conta de acompanhar jogos eletrônicos e narrativas fílmicas. A criança que chega à escola, até mesmo aquelas da educação infantil, já traz um repertório audiovisual significativo.

Esse excesso de telas na vida das crianças pequenas é um fenômeno relativamente novo e não estão concluídos estudos sobre seus efeitos. Em relação ao desenvolvimento cognitivo das crianças, há quem defenda um precoce contato com games e há quem enxergue nisso um problema gravíssimo para o seu desenvolvimento. Em geral, as pesquisas feitas sobre TV e criança abordam os aspectos psicológicos e se baseiam em levantamentos quantitativos, pensando o tempo de exposição e o tipo de programa que ela assiste. Em geral, tais pesquisas têm como preocupação central o impacto que o conteúdo de alguns programas pode ter sobre as crianças. Há poucas investigações de caráter qualitativo, isto é, que consideram a mediação que envolve a criança: o ambiente, os adultos e outras crianças que possivelmente estão com ela e se essa experiência se desdobra em outras. 

Não trataremos aqui da questão da violência presente em alguns desenhos, apontados como indevidos por psicólogos, educadores ou pelo Ministério da Justiça. É verdade que há programas impróprios, mas este tema será abordado em outro artigo. Independente dos conteúdos, há pesquisas que mostram que crianças brasileiras ficam mais tempo à frente da televisão do que nas escolas. 

Não é demais lembrar que é muito saudável, para a maioria das crianças, ter contato com a natureza, correr em espaços livres, brincar de roda, jogar bola, pular corda, rolar na grama, se sujar e se aventurar em novas descobertas. Exibir filmes para crianças pode trazer experiências muito criativas e enriquecedoras, desde que não sejam usados excessivamente, no sentido de “acalmar” as crianças (em alguns casos extremos, podemos dizer até “anestesiar”). Concentradas, elas dão menos trabalho, especialmente se estiverem assistindo ao seu desenho predileto. Cuidado, apenas para que os filmes - por melhores que sejam - não substituam as atividades motoras necessárias ao desenvolvimento das crianças. 

Justamente porque os filmes ocupam parte do universo infantil, é importante a reflexão sobre a formação cultural que eles podem promover, em qualquer faixa etária. Entretenimento também educa, mas a lógica do mercado cultural não é necessariamente a mesma dos educadores. A indústria cultural é sustentada por patrocinadores que querem vender seus produtos, por isso raramente se arrisca a alguma experimentação estética ou temática, porque elas podem causar estranhamento ao seu consumidor. Mudar o canal da TV ou sair do cinema no meio do filme pode ser algo muito grave dentro dessa lógica. Ao contrário, a aderência da criança à narrativa e aos personagens pode desencadear o consumo de brinquedos, material escolar, mochilas, roupas, calçados, toalhas e toda sorte de produtos com a marca do desenho. Ainda nesta lógica, o excesso é parte da estratégia. A cada ano a criança é bombardeada pelos novos lançamentos de desenhos e lhe são oferecidos novos produtos, divulgados em todas as mídias. Poucos meses depois do lançamento nos cinemas, vem o lançamento em DVD e essa indústria se retroalimenta. A criança quer ver infinitamente o mesmo desenho, o que, em geral, dá sossego aos adultos. 

Mas por que experimentações e estranhamentos seriam importantes para as crianças? 

Todas as pessoas gostam das experiências que lhe são familiares, que lhe trazem conforto e façam alguma conexão com situações de afetividade. Os adultos também são assim, não necessariamente vendo o mesmo filme, mas aderindo sempre aos mesmos gêneros e formatos, que lhes dão conforto, divertem e emocionam. Se nos deixarmos levar pela lógica do mercado, a indústria cultural não passará de indústria do entretenimento. E sabemos que os filmes podem representar muito mais do que isso. 

A infância é um momento chave para o contato com experiências estéticas diversas. A criança pequena ainda não foi “domesticada” pela lógica hegemônica do mercado e o contato com todo tipo de expressão artística vai depender muito da vontade dos adultos com os quais ela convive. Quem disse que uma criança não gosta de música clássica? Ou de reggae, jazz ou música popular brasileira? Se ela ouve diversos tipos de música desde pequena, ela certamente crescerá muito aberta para as experiências musicais que a vida vai lhe apresentar e seu repertório cultural pode ser muito mais vasto.

O mesmo vale para os filmes. Quem disse que as crianças só gostam da Disney? Por que narrativas e personagens devem estar ligados a produtos infantis? Conhecer produções de diversos países, que expressem outras culturas, com narrativas desafiadoras, estimulam a criatividade das crianças. Por que sempre finais felizes, ou finais absolutamente explicadinhos? Quem disse que as crianças não gostam de ficar pensando outras possibilidades de finais para cada história? Por que não apresentar filmes brasileiros a elas? 

As animações brasileiras estão fazendo muito sucesso no exterior e essa notícia pouco chega aos educadores por aqui, porque a maioria das salas de cinema exibem os filmes nacionais apenas por uma semana, não dando tempo deles se tornarem conhecidos do público. Um exemplo de produção brasileira com uma infinidade de prêmios no exterior é O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que apresenta uma história universal, com traços muito elementares (fáceis até de serem reproduzidos em uma folha de papel).

O Menino e o Mundo, animação para todas as idades

Neste site, encontram-se dois planos de aula sobre a animação O Menino e o Mundo, um para crianças pequenas e outro para os maiores.

Outra animação brasileira voltada para crianças pequenas é As aventuras do avião vermelho – baseada no clássico infantil de Érico Veríssimo (plano de aula sobre esse filme neste site). É uma produção gaúcha, dirigida por Frederico Pinto e José Maia, com vozes de Milton Gonçalves, Lázaro Ramos, Pedro Yan e Wandi Doratiotto. O filme cativa crianças de várias idades, inclusive as de 3 ou 4 anos, valorizando a literatura brasileira e o gênero de aventuras.

As Aventuras do Avião Vermelho, adaptação do livro infantil de Érico Veríssimo

Há animações brasileiras mais antigas que também agradam aos pequenos, como O Grilo Feliz de Rafael e Walbercy Ribas (depois eles também fizeram O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes).

                                     O Grilo Feliz, o grilo cantador de Walbercy Ribas

Maurício de Souza é muito conhecido das crianças. Uma de suas melhores animações é Turma da Mônica - uma Aventura no Tempo (plano de aula neste site), que apresenta seus personagens Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e Franjinha em tempos diferentes da História. Tudo começa com uma acidentada experiência de Franjinha, que pretende juntar os quatro elementos da Terra – fogo, ar, água e terra – para fazer uma viagem no tempo.


A Turma da Mônica em Uma Aventura no Tempo

Algumas sugestões de filmes de animação estrangeiros que apresentam diversidade estética e narrativa: as do japonês Hayao Miyazaki e do francês Michel Ocelot, ambos mundialmente reconhecidos. Entre os belíssimos desenhos de Miyazaki estão, por exemplo, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Ponyo - Uma Amizade que veio do Mar. Ocelot é muito conhecido por seu personagem Kiriku, que é africano, além de trazer lendas do mundo inteiro. Alguns de seus filmes: Kiriku e a Feiticeira, Kiriku e os Animais Selvagens, As Aventuras de Azur e Asmar, Contos da Noite e o recente Kiriku - Os Homens e as Mulheres.

A Viagem de Chihiro
 
Kiriku e a Feiticeira

Filmes que não são de animação também podem ser mostrados às crianças pequenas, como a série da indiazinha Tainá. O primeiro chamou-se Tainá - uma Aventura na Amazônia. Três anos depois foi lançado Tainá - a Aventura Continua. Em 2013, foi lançado Tainá - a Origem, cujo plano de aula também se encontra neste site.

Em Tainá 3, a origem da indiazinha

Os curta metragens são ótimas opções para crianças pequenas, pois solicitam menos tempo de concentração. É interessante a experiência com curtas do cinema mudo, como os de Charles Chaplin, por exemplo, que agradam às crianças de todas as idades, o que faz com que elas percebam que existem filmes em P&B e que não têm falas. A música instrumental também as encanta. 

Os longa metragens podem ser apreciados parcialmente. Se uma criança assiste a um trecho de um longa e se desconcentra ou dorme, isso não quer dizer que a experiência não foi válida. Os adultos também alternam os canais com o controle remoto e estabelecem uma outra relação com os trechos de filmes e programas que assistem. Assistir a um trecho de filme diferente do que está acostumada ajuda a criança a se familiarizar com outras propostas estéticas. Quando ela for maior, sentirá prazer em assistir ao filme integralmente e compreendê-lo de outra forma. 

Os longa metragens nas salas de cinema propõem outra imersão. Crianças desde os dois ou três anos podem ir ao cinema como primeira experiência. É possível ensinar às crianças dessa idade que o cinema é um ambiente público, portanto, o comportamento não é o mesmo do ambiente doméstico. Ela não deve falar alto; se ela não prestar atenção, perderá parte do filme, pois ele não “volta” e as emoções parecem mais fortes, em função do escuro e da tela grande. E não é nenhum pecado sair antes do filme acabar. Ela pode ir embora, desde que saia discretamente. Cuidar para não atrapalhar os outros é também um aprendizado que se faz desde cedo. Na volta do cinema, sempre é bom conversar com a criança sobre o que ela gostou e o que não gostou. 

Professores de educação infantil devem ter o cuidado de não se deixar levar pela comodidade de exibir às crianças “o que elas gostam”, reforçando esse círculo vicioso que é o interesse mercadológico. Desenhos cantantes que se repetem infinitamente já estão presentes na vida das crianças. Não se trata de proibi-los, mas um educador pode e deve propor outras atividades e filmes que sejam mais desafiadores e criativos. Além do aprendizado da diversidade cultural e estética, a concentração de acompanhar uma narrativa audiovisual é uma conquista importante, que se faz aos poucos, e certamente trará muitos ganhos para o desenvolvimento cognitivo infantil.

''Artigo escrito e publicado no Portal NET Educação: www.neteducacao.com.br"

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