Os Filmes da Minha Vida

29.06.2015
por João Roberto Moris


Devia ter uns 5 anos quando fui ao cinema pela primeira vez. Era o ano de 1962 e meus pais levaram a mim e meus quatro irmãos mais velhos para assistir ao desenho do Walt Disney, A Guerra dos Dálmatas, no Cine Tangará, em Santo André onde morávamos. Mal sabiam meus saudosos pais –cuja formação escolar era diminuta, mas donos de uma amorosidade enorme – que a simples experiência de levar a família ao cinema como entretenimento teria um profundo impacto em minha vida. Assim, minhas melhores lembranças de infância em família são aquelas em que íamos ao cinema juntos. Durante a década de 60, foi uma sucessão de filmes vistos em cinemas do ABC, da cidade de São Paulo e de Itanhaém, no litoral, onde passávamos as férias: A Pantera Cor de Rosa, Deu a Louca no Mundo, A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Calhambeque Mágico, Um Convidado Bem Trapalhão, Ao Mestre com Carinho, O Candelabro Italiano, O Planeta dos Macacos, Doutor Zhivago, Romeu e Julieta do Zefirelli, A Dança dos Vampiros, sem falar nos filmes do Jerry Lewis e do 007, entre outros.

Com todas essas incursões familiares ao cinema na infância, tornei-me um “cinéfilo precoce”. Devorava a programação de cinema do Estadão, que meu pai assinava, e aos 11 anos já pedia à minha mãe para me trazer aos cinemas de São Paulo. Vínhamos de trem de Santo André e lembro-me bem daquele dia em 1969 quando fomos assistir a 2001, Uma Odisseia no Espaço no Cine Majestic (hoje Espaço Itaú Augusta), que tinha uma imensa tela curvada. Este filme do Stanley Kubrick, rodado em bitola de 70mm, teve tamanho impacto sobre mim, que logo se tornou o “filme da minha vida” e o revi no cinema ao menos seis vezes em diversas ocasiões, inclusive na tela gigantesca em Cinerama do Cine Comodoro, na Av. São João, que era o paraíso de muitos cinéfilos da época pela qualidade do som e da projeção. É claro que nada entendi do filme na primeira vez (o monolito continua sendo um mistério que não desejo esclarecer), mas nunca me esqueci daquela magnífica cena em que o macaco lança o osso para o alto,e este se transforma em nave girando no espaço sideral ao som de “Danúbio Azul”. Magia pura! Quando começaram a passar as sessões da tarde durante a semana no Cine Tangará em Santo André (um cinema requintado para os padrões da época, com mais de 2.000 lugares), eu tinha uns 13 anos e tornei-me um ávido frequentador de matinês diárias. Ia quase sempre sozinho. Deste então, não saí mais do cinema, que virou meu refúgio e minha válvula de escape, na alegria e na tristeza, faça chuva ou faça sol. Até hoje, costumo ir ao cinema umas 3 ou 4 vezes por semana e talvez não por acaso moro perto da Av. Paulista,região onde estão localizados quase 30 cinemas num raio de 1km da minha casa. Foi na década de 70 que descobri muitos filmes que me marcaram para sempre. Mas, fiquei totalmente impactado por outro filme do Stanley Kubrick, A Laranja Mecânica, que é de 1971, mas só foi liberado pela censura brasileira em 1978 com as famosas (e ridículas) bolinhas pretas – heranças da ditadura, então moribunda – que hilariamente pulavam na tela e buscavam desesperadamente tapar as partes pudendas dos personagens. A cena inicial de Alex com seus droogiesno Korova Milk Bar tomando leite com ópio nunca mais me saiu da cabeça. Revi recentemente o filme no Cine Sesc em cópia digital restaurada e ele é tão bem feito e tão visionário, que continua mais atual do que nunca 44 anos após o seu lançamento. Ainda mais em nossos tempos ultraviolentos.

Como cinéfilo, tenho a sorte de acompanhar a Mostra Internacional de Cinema desde a sua primeira edição em 1977. Apesar de São Paulo sempre ter sido um centro de filmes cults e passar muitas obras de diretores famosos ou “malditos” na cidade, devo ao falecido Leon Cakoff o meu gosto por filmes alternativos. Fora dizer que, nos primórdios da Mostra, o Cakoff trazia muitos filmes que eram proibidos e aos 20 anos eu queria ver TUDO o que era proibido. O festival satisfazia plenamente o meu apetite pelo diferente. Um dos filmes que mais me marcaram na década de 80, trazido pela Mostra, foi Koyaanisqatsi,que assisti no mesmo Cine Majestic em 1983. Este documentário, suprassumo do pós-moderno dirigido pelo americano Godfrey Reggio, foi um sucesso retumbante na Mostra daquele ano. O boca a boca correu solto e assisti ao filmeao menos três vezes. As imagens assombrosas de um mundo cada vez mais acelerado e em descompasso com a Natureza eram entremeadas pela música envolvente e minimalista de Philip Glass.


Em 1995, os organizadores da Mostra brindariam o público com outra obra-prima que me pegou totalmente de surpresa. O Carteiro e o Poeta, dirigido pelo inglês Michael Radford, conta a história da amizade do poeta chileno Pablo Neruda, vivido pelo grande ator francês Philip Noiret, com um humilde carteiro (o fantástico ator italiano MassimoTroisi, que morreria logo após finalizar o filme) que deseja aprender a fazer poesia. Desta mescla de nacionalidades,nasceu um filme pleno de emoção, sensibilidade e poemas, sem nunca descambar para o piegas. Como não se emocionar com Il Postino? E, traçando um paralelo com um filme brasileiro que também é poesia pura, não poderia deixar de citar Central do Brasil, com a nossa estrela maior Fernanda Montenegro, como um dos grandes filmes da minha vida. Dirigido por Walter Salles Jr. e lançado em 1998, o filme me arrebatou completamente. Chorei muito naquela cena final em que a personagem vivida por Fernanda (Dora) olha a foto dela com o menino que ela se afeiçoara (Josué) e que acabara de deixar com os irmãos, após viajarem mais de 3.000 km juntos pelo Brasil afora em busca do pai dele.


Um dos meus estilos favoritos de filme é o romântico. Mas, não curto filmes xaroposos, com casais certinhos, experimentando algumas desventuras para no final viverem felizes para sempre, com todas as pontas bem amarradinhas. Gosto de filmes românticos tipo heavy, às avessas, que trazem dilemas humanos e gente de carne e osso buscando saídas para seu sofrimento e miséria emocional, talvez com uma pitada de redenção no final e levando a algum tipo de transformação. Em retrospectiva, foram muitos os filmes românticos lançados nos últimos 15 anos que se encaixam nesta minha definição e dos quais gostomuito: Amor à Flor da Pele, 21 Gramas, Amor em 5 Tempos, Paraíso, Um Beijo Roubado, Fale Com Ela, Fatal, Vicky, Christina & Barcelona, As Canções de Amor e mais recentemente o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Mas o filme romântico que mais me emocionou nos anos 2000 foi A Vida Secreta das Palavras de 2005. Feito pela catalã Isabel Coixet, o filme conta uma história de amor maravilhosa, cheia de dor e beleza. Para um amante das palavras como eu, uma experiência inesquecível. 

Assim sendo, cinema para mim é magia. Quando assisto a um filme, o que me importa é o quanto esta mágica é acionada em mim, seja pelo enredo, pela fotografia, pelos sons ou pelo trabalho dos atores. Mas, entre todos os aspectos que envolvem um filme, diria que o diretor assume um papel essencial na minha experiência de espectador, visto que o diretor é o maestro, o sábio, o alquimista que mistura todos esses ingredientes e os transforma em... magia! E a criatividade, os valores, o universo interno e a visão do diretor, como artista, fazem toda a diferença na minha emoção. Já assisti a muitos filmes, que tinham um fiapo de história, e me tocaram profundamente graças à habilidade do diretor em contar essa história. Por outro lado, vários filmes a que assisto e que partem de ótimas histórias me decepcionam muito ou se perdem pelo caminho, pelo simples fato de o diretor não saber (ou não conseguir) transformar a sua obra numa experiência cinematográfica sublime.

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