Birdman, de Alejandro Gonzáles Iñarritu

Ecos da Discussão de 22.03.2015
por Maria Emília (Mila) com revisão de Cláudia


Grande parte das pessoas presentes na reunião gostou muito do filme Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância). Rian, por exemplo, disse ter gostado do filme mais do que esperava, por ser muito dinâmico e intenso - um metafilme. Elisa destacou a contradição e o cruzamento da linguagem do teatro e do cinema. Para ela, a conotação emocional do som da bateria foi fantástica; para algumas pessoas, a bateria foi irritante. Houve concordância sobre a densidade do enredo a partir da história do personagem Riggan Thomson,tornado celebridade nos idos anos 90, ao encarnar em três filmes consecutivos o super-herói Birdman - sucesso retumbante nas bilheterias do cinema comercial. Sua negativa em protagonizar o quarto episódio da saga do herói o relega ao ostracismo do mundo artístico de Hollywood. Desvalorizado como ator, Riggan é, na trama, um homem de meia idade, insatisfeito com sua vida, com o rumo que sua carreira tomou e com os papéis de marido e pai que desempenhou ao longo da existência, conforme afirmou Cristina Costa. Ela comentou que é comum que, ao longo da vida, não lidemos bem com alguns dos nossos personagens. Como se isso não bastasse, o personagem Birdman ficou colado no ator Riggan, preservando-lhe a persecutória fama de ator de um papel só, disse Cláudia Onaga. Para romper com o sucesso de um único personagem, Riggan busca a aura do teatro na Broadway com o propósito de se resgatar como ator e levar sua carreira à redenção: move-se, sobretudo, pelo desejo de ser reconhecido como grande artista; ele quer ser amado e busca o reconhecimento, como apontaram Jandyra, Lili e Regiane.

Com parcos recursos financeiros, aloca o teatro na Broadway, escolhe o produtor, torna-se diretor e articula o cenário, atuando também como ator da peça que adapta a partir do conto de Raymond Carver, “Do que nós falamos quando falamos de amor...”. No decorrer da montagem e ensaios da peça, o personagem Birdman, identificado pelo grupo como alter-ego de Riggan, surge inúmeras vezes como voz. Provocando e desmerecendo os esforços do ator para com a peça teatral, seu alter-ego pondera sobre a incerteza da empreitada e tenta aconselhá-lo a ficar com o confortável sucesso já conquistado com o papel do super-herói. No desenvolvimento da trama, o vai-e-vem de Birdman permeia os conflitos que vão se mostrando entre Riggan e o mundo ao seu redor: do elenco passando por sua atual namorada à produção, à mídia crítica e jornalística e finalmente aos seus fãs. No plano pessoal, Birdman leva Riggan a se confrontar, ainda, com a sua vida vivida e suas relações com a ex-mulher e a filha viciada em drogas, revelando assim o passado com o qual ele deve – ou precisa - prestar contas. Cristina Costa disse que concomitante a esses três tempos da trama, três espaços precisam ser destacados: a cidade de Nova Iorque, a Broadway e os bastidores da Broadway – entendendo bastidor como aquilo que não vemos. Mais do que tratar de superheróis, o filme trata daquilo que a gente não vê no super-herói, ou seja, do personagem com o qual não se lida bem e que assombra até a morte, como espécie nem tão rara assim de pivô dos conflitos existenciais.

Com isso, o grupo concordou que o desejo de uma pessoa ser (re)conhecida, amada e aceita faz parte da condição humana. Condição esta que se experimenta de maneira finita, contraditória e imperfeita. Na incompletude, a fama não é o bastante; o reconhecimento torna-se o estado de graça que se almeja alcançar. Nesse sentido, conversamos sobre Birdman ser um impecável filme que trata do glamour em torno da profissão de ator, em torno da magia que envolve o teatro e o cinema. Rian e Flávio relembraram Crepúsculo dos Deuses, Pedalando com Molière e Acima das Nuvens para registrar a recorrência do tema em questões envolvendo passado de sucesso, ego de ator/atriz decadente, discutidos anteriormente pelo grupo.

Voltando a Birdman, Alexandre localizou a trama do filme no contexto da modernidade líquida, no qual a função narrativa perde ou lança mão de todos os seus elementos constitutivos, gerando vazios e circunstâncias favoráveis ao sucesso instantâneo ofertado pela sociedade midiática, que cultua o espetáculo. Nesta sociedade, o homem pós-moderno só olha para si, a ganância pelo lucro impera e a autenticidade se perde. O filme mostra, ainda, que o teatro também tem lá suas pegadinhas de reality show, conforme complementou Cristina Costa, referindo-se à proposta de Mike Shiner (Edward Norton) sobre fazer sexo “de verdade” diante do público. Shiner fora convidado ao elenco da peça como jogada de marketing para atrair público.

Outro ponto bastante explorado pelo grupo foi sobre o desfecho da trama, quanto aos ensaios da peça e, em particular, sobre a tentativa de suicídio e suposta morte de Riggan por tiro na apresentação teste ao público. As opiniões não foram unânimes. Para Jandyra, o suicídio não se concretizou e Riggan se atirou pela janela no quarto do hospital. Ele morreu? – Não se sabe, mas ele venceu seu próprio desafio. Rubens, recorrendo à ideia de superação em Nietzsche, disse que se ele se mata, não se supera. Se ele voa, é porque se superou. Ângela lembrou que Riggan falou por diversas vezes sobre se matar. Ela acredita que ele tentou, mas que, na verdade, perseguia morrer de forma histriônica - no caso, se suicidando diante do público. Renata Melo disse crer que Riggan se matou, sim. Hirao concordou e localizou a última cena do filme na cabeça do Riggan já morto, realizando o desejado vôo do reconhecimento. Flávio apresentou seu contraponto, dizendo que, para ele, a cena existiu. Riggan voou, incorporando o passado do qual tentava fugir. Para Flávio, superar não significa jogar fora a vida vivida, de modo que o super-herói Birdman passou a fazer parte da história dele, engordando o seu repertório.

Acerca das menções e contextos percebidos no filme, Hirao comentou que Raymond Carver, autor da peça encenada no filme, era alcóolatra. Gordon Lish, escritor, fazia a edição de sua obra. Carver morreu em 1988, de câncer do pulmão, aos 50 anos. A frase que aparece no começo do filme é a frase da lápide do Carver: “Quando as palavras começam a sumir, fica o AMOR”. A analogia da trajetória de Carver com o personagem Riggan, sobre cair no ostracismo, ficar pobre e ser alcoólatra também é inevitável.

Sobre as meta-referências, Hirao nos deu, como exemplo, o corredor no teatro com carpete igualzinho ao corredor do hotel em O Iluminado, de Kubrick, cujo título original “The Shining” remete ao nome do ator da peça no filme, Mike Shiner. Segundo Hirao, os superheróis sempre têm a ver com os contextos histórico-sociais. O Super- Homem surge no período pós-depressão da década de 30; o Homem-Aranha, já dos anos 60, é pobre e costura sua roupa –é uma espécie de hippie.No filme, Riggan levita quando está sozinho e tem superpoderes que só ele enxerga.Na cena em que ele voa de capa de chuva, há um cartaz do Super-Homem ao fundo. Quando ele corre na rua, vê-se um cartaz da peça O Fantasma da Ópera. A cena em que Riggan tira a atadura também é uma referência a essa peça.

Nota: O texto aqui apresentado é um super resumo da longa reunião que contou com a presença de 30 pessoas. Em breve, você poderá encontrar aqui no site a versão completa dos ecos da discussão sobre o filme Birdman. Aguarde!

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