Leviatã, de Andrey Zvyagintsev

Ecos da Discussão de 13.02.2015
por Cláudia Mogadouro com revisão de João Moris


Começamos nossa reunião de 1º de fevereiro exibindo o curtametragem russo Second Wind, de Sergei Tsyss, que nos foi sugerido por Marcos Eça (Marquinhos). O curta foi muito bom e intrigante!
De início, falamos sobre os vários significados de Leviatã. O termo refere-se ao monstro das águas citado no Livro de Jó e também o título da obra do filósofo Thomas Hobbes (1651), que entende a necessidade de um estado forte para regular a civilização. Para ele, sem esse estado acima de todos, predominaria a selvageria. É de Hobbes a frase: “o homem é o lobo do homem”. Em vários momentos, o grupo se referiu a possíveis “leviatãs” abordados no filme, além do autoritário estado russo. Como símbolo, poderia ser a retroescavadeira demolidora da casa (que mais parecia um dinossauro), o desejo de Lylia, a burocracia, o neoliberalismo, o consumo compulsivo da vodca ou o monstro interior que nos habita. Como disse Alexandre, o leviatã é o estado é que deveria proteger as pessoas, mas, ao contrário, ele se torna o opressor.

Nem todos gostaram do filme, como Jandyra, que não mudou de ideia após a nossa discussão. Ela viu muito atraso na consciência política do povo russo, apesar da tecnologia avançada, além de achar inglória a morte de Lylia. Referiu-se do constante estado de embriaguez dos personagens, possivelmente representando alienação e passividade. O consumo da vodca gerou polêmica entre as pessoas do grupo, visto por muitos como necessário (por conta do frio) e como parte da cultura, assim como o vinho na França. A partir disto, discutimos um pouco da história política russa.

João falou o quanto é desafiador assistir a um filme distante culturalmente do Brasil. Estas diferenças criam um certo estranhamento nas atitudes, reações e diálogos entre os personagens, que às vezes nos é difícil captar. É um jeito de desafiarmos nossos pressupostos. Para ele, o diretor quis mostrar uma profunda crise de valores, que leva ao individualismo e também que inevitavelmente gera violência. Ainda assim, o filme apresenta um raio de esperança, de humanidade. Sobre a repercussão do filme na Rússia, onde o governo e as elites se ofenderam com a representação negativa do país, João ressaltou que é um perigo generalizar e achar que o que o filme mostra é representativo da Rússia como um todo. Para João, o filme é um recorte do diretor e que essa visão, além de restrita, pode ser muito parcial.

O mesmo raio de esperança foi visto por Mila, especialmente na cena em que o casal Pascha e Ângela está conversando com o garoto Roma, quando este se vê sozinho. Pascha sai da casa para fumar e chora. Paradoxalmente, essa lágrima de desesperança nos traz esperança na humanidade.

Foi possível perceber a complexidade na construção dos personagens para o grupo, com várias reações de simpatia ou antipatia, com exceção, é claro, do prefeito e do bispo que são evidentemente vilões. Eu e Renata, por exemplo, ficamos muito comovidas com a angústia que o menino Roma estava vivendo. Mila, ao contrário, não viu a criança em situação de abandono. Muitos viram o advogado Dima como ingênuo, mas alguns acharam que ele sabia jogar o jogo dos corruptos, usando as mesmas armas: o blefe e a chantagem. Lembramos que Dima vem de Moscou e pode não ter ideia da concentração de poder em uma pequena cidade, o que corrobora com a ideia já citada de que há muitas “Rússias” no filme. Possivelmente, o conceito de cidadania russa está mais ligado à capital do país. Alguns viram Kolya como alguém muito acomodado e não muito atento à carência de Lylia. Outros o viram como vítima do poder instituído e se surpreenderam com sua condescendência à traição da esposa.

O grupo conversou bastante sobre as relações de amizade no filme: Dima é amigo de Kolya e, no entanto, o trai com a esposa. No caso de Ângela e Pascha, amigos próximos de Kolya, o casal não encontra tempo para testemunhar no processo contra ele. Teria o casal denunciado Kolya como possível assassino? Ou foi a polícia que buscou elementos para incriminá-lo? Célia comentou que Ângela se projeta na história de Lylia. Stênio viu na possível denúncia uma forma de solidariedade feminina. Hirao comentou que essas questões em aberto é que dão riqueza ao filme: houve denúncia? houve assassinato ou suicídio? O grupo se dividiu quanto ao suposto suicídio de Lylia. De qualquer forma, Robledo nos mostrou que a morte da personagem é que dá liga ao filme, relacionando o drama individual ao contexto político.

Falamos também da hipocrisia mostrada no filme por parte da igreja ortodoxa russa (“nojenta”, “sórdida”...), o que, segundo notícias, gerou muito desconforto no país, além de acusações ao cineasta. Mas, lembramos que o filme mostra outro lado da igreja também, na figura do padre humilde que cita o trecho sobre o Leviatã e distribui pão aos pobres. Tivemos muitos esclarecimentos sobre a igreja ortodoxa, porque Lucy é de família armênia e frequentou essa igreja quando criança.

O grupo também abordou a qualidade da fotografia, a relação com a literatura russa e algumas cenas mais impressionantes, como a da demolição da casa com todos os móveis dentro, representando a demolição da história da família.

Por fim, foi unanimidade que o filme é fortemente político, apesar de desmentidos do diretor (certamente para fazer média com o governo russo, que financiou parte do filme). Se alguém tiver dúvidas, é só rever a cena do tiro ao alvo em todos os líderes políticos.

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