O homem além de si mesmo

01.07.2015
por Rianete Lopes Botelho

O mito da Fênix é representado por um maravilhoso pássaro, com a capacidade infinita de renascer das próprias cinzas. A fogueira de sua morte se transforma no lugar de sua ressurreição, ou seja, ele se perpetua através do próprio renascimento. Como acontece com outros mitos, este permanece vivo, por expressar aspectos recônditos e essenciais da alma humana. O fascínio da Fênix reside principalmente na sua imortalidade, que é uma fantasia comum a todos os homens, em qualquer época e qualquer lugar. 

Foi o belo documentário O Sal da Terra, de Win Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, que me lembrou o mito da Fênix. O documentário é sobre Sebastião Salgado, fotógrafo brasileiro conhecido e admirado mundialmente. Mostra a trajetória de um homem militante de causas em defesa dos direitos humanos e de melhores condições de vida para todos. Ele se notabilizou pela qualidade artística de sua fotografia e por ser uma pessoa capaz de investir energia no mundo, e não apenas em si mesmo.


Na sua juventude, Sebastião Salgado exerceu a militância através do engajamento político-partidário, na luta contra a ditadura militar no Brasil, até se defrontar com o dilema: ser preso (e talvez morto) ou sair do país. Decidiu se exilar na França. Foi a primeira morte da Fênix-Salgado. 

Na França, trabalhou alguns anos como economista (a sua formação acadêmica). Ele poderia ter permanecido nessa carreira, mas quando descobriu a fotografia seu sonho de melhorar o mundo ressurgiu das cinzas. Aos poucos foi tomando corpo, se emplumando, se colorindo, e o calor do sonho o impulsionou a uma nova militância: mostrar ao mundo, através de uma fotografia primorosa, pessoas e grupos humanos em situação de desamparo, de miséria, de fome, procurando fugir de regiões em conflito em busca de condições de dignidade e de proteção às suas vidas. Por muito tempo, Sebastião Salgado deu voz a quem não era ouvido, graças à excelente qualidade de seu trabalho fotográfica, consumido no mundo inteiro. Mesmo pessoas não politizadas se aproximavam desse universo através da beleza da fotografia. A expansão de sua denúncia foi significativa, chamando a atenção para o horror a que aquelas pessoas estavam expostas, pessoas cujos semblantes e olhos eram gritos mudos. São tocantes essas fotos de uma beleza trágica. E foi comovido por uma dessas fotos que Win Wenders procurou conhecer o fotógrafo. 

Apesar de tantos anos mergulhado na dor do mundo, Sebastião Salgado não se acostumou com o poder destrutivo do homem contra seus semelhantes. Para ele, o mal não se banalizou, pois sua capacidade de indignação permaneceu. E ele adoeceu no corpo e na alma. Reconheceu não mais suportar conviver com tanta descrença na humanidade. Desistiu da luta pela segunda vez, novamente diante do dilema: ou abandonava a arena, ou sucumbiria. E a Fênix morreu de novo. 

Parece incoerente que um homem de bem, como Sebastião Salgado, negue a existência do bem declarando a desesperança no ser humano. Mas acredito, na verdade, que essa desesperança é consequência da tentativa de ir além dos seus própios limites humanos. Era preciso parar, porque o sonho é sempre muito maior do que o sonhador. Quem de nós nunca se sentiu descrente da humanidade e da vida, diante de uma grande decepção? Ou até mesmo diante de uma desilusão consigo mesmo, ao descobrir ter algo reprovável? É natural que então tudo pareça desvitalizado e desinteressante. E assim ele se consumiu em cinzas novamente. 

Foi assim que Sebastião Salgado voltou à fazenda de sua família no Brasil, onde fora criado. A fazenda também estava consumida em cinzas: seca e improdutiva. O trecho de floresta nativa havia desaparecido, e as nascentes estavam secas. Passado algum tempo, a militância de Sebastião Salgado voltou a renascer, com a importante ajuda de sua mulher, Lélia, que sempre o estimulou. Dessa vez, a arena de luta foi a restauração do trecho da mata atlântica devastada. Plantou milhares de mudas que se transformaram em floresta, trazendo de volta as nascentes, os pássaros e outros animais. Renascendo de novo das cinzas, Sebastião Salgado criou uma fundação com o objetivo de restaurar as florestas como fonte de vida para a humanidade.


O Sal da Terra não é um filme sobre a bondade ou a maldade humanas, ou sobre as razões que levam o homem a explorar ou a destruir seus semelhantes. É um documentário sobre a luta de um homem, em várias frentes, movido por um enorme impulso de vida. Provavelmente, o personagem tem suas teorias, como militante político e como economista, sobre o que está por trás das denúncias que faz. Todavia, não lhe cabe teorizar sobre sua obra, mas apresentá-la para instigar seus espectadores a procurarem respostas, refletindo sobre o que vêem. Lembramos que o documentário não é uma biografia de Sebastião Salgado, mas do fotógrafo e militante de causas humanitárias. 

Convém ressaltar que não apenas pessoas importantes ou famosas podem vivenciar figuras mitológicas. Qualquer ser humano, mesmo não se dando conta, repete simbolicamente mitos, pela simples razão de que eles provêm do abismo da alma humana. No caso do mito da Fênix, muitos episódios de morte e renascimento são experienciados por todos, considerando-se que a vida é feita de perdas e de novas aquisições. Experimentamos durante a vida muitas mortes psíquicas seguidas de renascimentos. É bem verdade que nem sempre ressurgimos inteiros. Há casos de pessoas que se suicidam ou enlouquecem depois de passarem por uma grande perda ou experiência traumática. Mas, em geral, conseguimos nos refazer após um período de luto. O renascimento se revela quando voltamos a sorrir, a ter fé na vida, a fazer planos. Assim amadurecemos e nossa onipotência original vai diminuindo. Por isso, paradoxalmente, as perdas também são uma forma de ganhos. Os mitos atualizam a tragédia da existência humana, com todas as suas complexidades e angústias, uma vez que os mitos são criações não dos deuses, mas dos sonhos do próprio homem.

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