Os limites da ambição de Que Horas ela Volta?

17.09.2015
por Humberto Pereira da Silva (*)


O cinema brasileiro nos dez anos recentes vive um momento de grande diversidade. O resultado dessa diversificação é expresso por meio de realizações com amplo leque que vai de ousadas e controversas experiências de linguagem (frequentemente com bilheterias mirradas) até comédias populares realizadas pelo selo da Globo, sem pretensões além de sucesso de bilheteria e de diversão descartável (frequentemente desdenhadas por grande segmento da crítica).

Como sintoma dessa variedade na produção atual, destaco a discussão alimentada por Eduardo Escorel e Jean-Claude Bernardet, entre outros, a respeito da relevância ou irrelevância de nosso cinema da perspectiva do público; ou, mais precisamente, da resposta nas bilheterias. Filmes ousados, com preocupação de adensamento da linguagem e de conteúdo temático, seriam irrelevantes, pois afugentariam o público.

No jogo relevância/irrelevância, é importante considerar também certo sentimento – de segmento de público e crítica – da necessidade de tomar o cinema como elemento de afirmação e, portanto, de exigência de obras que projetem uma imagem positiva de nosso cinema; uma espécie de reserva cultural da qual nos orgulharíamos. Quer dizer: de obras que escapem ao comezinho, às necessidades de produção em quantidade e diversidade apenas para cumprir o expediente – a cota necessária para mover a indústria.

Sob essa perspectiva, há um anseio de que surjam filmes dotados de certo perfil, foco temático, maneira de se voltar para nossa realidade atual, tanto quanto de nossas históricas contradições sociais. E que, dessa forma, instiguem debates, provoquem mal-estar quando nos olharmos no espelho; mas que, paradoxalmente, cativem o segmento de público refratário à etiqueta “cinema brasileiro”, e se ofereçam como objeto de culto e reflexão para além de entretenimento passageiro nas horas de ócio.

Que Horas ela Volta?, de Anna Muylaert, ao lado de O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça, e Casa Grande (2014), de Fellipe Barbosa, se insere nesse contexto atual de discussão sobre relevância e irrelevância; tanto quanto no âmbito da necessidade de vermos filmes nacionais que afirmem positivamente nossa filmografia aqui, e para além de nossas fronteiras.

Assim como os filmes citados, o de Anna Muylaert passou pelo crivo da crítica internacional em festivais importantes, onde também foi laureado com premiações, bem recebido lá fora, seu lançamento aqui foi antecipado por uma fortuna crítica que o torna emblemático, pois, é ao mesmo tempo visto com selo de qualidade fílmica testada e como determinada representação do país no momento. É que Que Horas ela Volta?, como O Som ao Redor e Casa Grande, além do reconhecimento da qualidade fílmica, desperta atenção, atiça debates porque tem como foco nossa realidade social. Ou seja, mostra a permanência de uma mentalidade que lida de modo atabalhoado com movimentos subterrâneos que põem em xeque o convívio entre classes. Apaziguadas pela atávica cordialidade de que nos falava Sergio Buarque de Holanda em seu Raízes do Brasil, hoje vivemos um momento de mobilidade e aproximação tensa entre classes.

O que para mim esses filmes trazem de efetivamente positivo é que, por meio do cinema, são abordadas de forma corajosa e ambiciosa práticas arraigadas ao longo do tempo, assim como determinados hábitos que desvelam um mundo no qual as aparências geram sinais distintos dos de antigamente. Num mundo de selfies, de redes sociais, de comunicação em tempo real, valores e práticas arcaicas são confrontadas. Em decorrência se revelam distorções, permanências tensas, desconfortáveis, sujeitas a fraturas. 

O grande mérito de Que Horas ela Volta? consiste em exibir esse “novo mundo”, em tomar como foco narrativo essas novas formas de convívio social em uma sociedade em mutação. Por conseguinte, Anna Muylaert insere seu filme nesse veio recente que afirma positivamente nossa filmografia. Do ponto de vista de sua concepção e ambição, portanto, Que Horas ela Volta? vai além das necessidades de produção para cumprir expediente.

Mas, justamente por sua ambição, há alguns pontos frágeis em Que Horas ela Volta? e que merecem ser realçados. Um primeiro ponto, que traz à baila a discussão sobre relevância e irrelevância, refere-se ao jogo com o mercado; em consequência, o sucesso de público: para tanto, Anna Muylaert concebeu Que Horas ela Volta? como narrativa cômica.

Com isso, creio, ela procura estabelecer certa cumplicidade com o público; e assim faz concessão à agradabilidade por meio de chistes, de esquetes para imprimir traços de comportamento e de caráter dos personagens. De sorte que ela pendula do drama para a comédia de costumes, mas sem a mordacidade e sarcasmo exigidos neste gênero. Se Anna Muylaert optou pelo tom cômico para chegar mais facilmente ao público, bem-sucedida na intenção, o filme para mim perde em valor artístico, à medida que não dá peso ao tom satírico e assume indisfarçável ar de sitcom, ou de comédia global.

Outro ponto que entendo fragilizar Que Horas ela Volta? diz respeito à caracterização psicológica dos personagens. Todos se movem como tábua rasa, como papel em branco que é preenchido ad hoc, conforme a ocasião. A empregada doméstica, a patroa, o patrão, o filho deles criado pela empregada, a filha da empregada que veio do nordeste a São Paulo para prestar vestibular, estão todos envoltos em relações vagas, imprecisas. 

Ora, a imprecisão e o acento caricatural nas situações vividas (os dois adolescentes de níveis sociais distintos, filho da patroa e da empregada que mal trocaram palavras, fumam baseado com naturalidade à beira da piscina) escamoteia a complexidade das relações sociais sugeridas. Anna Muylaert não propõe uma alegoria, uma parábola, e sim uma obra didática: nas suas palavras, para ser entendida pelas empregadas domésticas. Ou seja, Que Horas ela Volta? não é um filme alusivo, de elipses; então por que a filha da empregada quer ler e retira da biblioteca do patrão da mãe, sem antes nem depois, Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro?

Essas fragilidades são aqui apontadas com o intuito de realçar que Anna Muylaert teve nas mãos um material apropriado para realizar um filme mais adensado, mais provocante, tendo em vista o tema e as questões que decidiu tratar; mas ela ajustou suas ambições a conveniências. Talvez intimidada pela pressão de fazer bilheteria com um público que vê o cinema brasileiro de soslaio, ela cedeu à tentação de “facilitar”. 

Assim, ao ajustar a trama a conveniências de público, “Que Horas ela Volta?” se expõe como caso emblemático para a discussão sobre relevância e irrelevância. No contexto no qual vivemos, trata-se de um filme importante, que estimula debates, abre espaços para novas experiências sobre nossas contradições sociais. Mas também é um filme com fragilidades que, desconsideradas, conduzem à aceitação passiva, apaixonada, que termina por fomentar a impressão artificial de obra prima inconteste, acima das paixões.

(*)Humberto Pereira da Silva é professor de filosofia e semiótica na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Cinequanon e autor de “Ir ao cinema: um olhar sobre filmes” (Musa Editora)

Um comentário:

  1. Após ler sua crítica, vou assistir o filme novamente e "buscar" nos detalhes fragmentos da sua crítica. Uma forma diferenciada de assistir um filme, não com os olhos voltados para "os propósitos" de Anna Muylaert,para situações atuais que diferenciam e criam estigmas (ou a sociedade impõe certos estigmas). Confesso que quando assisti só vi os aspectos sociais e confesso que nem sempre uma doméstica seja "tão bem tratada assim", até porque trata-se se cidadãos e não cidadãos, um "status" imposto pelo Estado para uma minoria. Muito obrigado e parabens.

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