A Legitimação da Violência

20.10.2015
por Rianete Lopes Botelho

O palco da luta entre Deus e o Diabo é o coração humano. Dostoiévski, em Irmãos Karamazov

“O Homem Irracional”, de Woody Allen, é mais um filme sobre a dor do existir humano, tema tão caro a seu diretor. 

Abe (Joaquin Phoenix) é um personagem atormentado pela falta de interesse na vida, parecendo seco por dentro. É como se ele não tivesse nada a ver com o mundo e muito menos com a humanidade. 

A primeira parte do filme define exaustivamente essa apatia, essa indiferença do personagem. Apesar do título, ele é um homem cuja única porta de comunicação com os outros é a via intelectual. Acredito que ele mantinha (precariamente) sua sanidade mental graças a esse fio de ligação que ainda conseguia estabelecer com o mundo. 

Abe é um respeitado professor de Filosofia, com livros publicados e bem aceitos pela comunidade acadêmica. É convidado a dar um curso em uma universidade, despertando grande expectativa devido a seu renome, a seu saber. Fica estranho perceber tanta vibração despertada por uma fonte tão sem vitalidade, parecendo uma máquina que produz e transmite saber. 

O personagem é assediado por uma professora e por uma aluna brilhante, que o encanta. Inicialmente se esquiva das duas, não só por sua impotência sexual, como pela dificuldade de se ligar afetivamente a alguém. Com a aluna ele consegue manter alguns encontros amigáveis, descompromissados, por conta da admiração mútua entre os dois. A aluna se envolve, se apaixona, se declara, apesar de saber do desinteresse e da constante melancolia do professor. Num dos seus encontros, num restaurante, ouvem uma conversa na mesa ao lado, onde uma mulher chora enquanto relata que no seu processo de divórcio o juiz irá tirar-lhe a guarda de seu filho. A partir daí fica clara a mudança da personalidade sombria de Abe, que começa a sair da letargia em que estava imerso. Ele passa a pensar e a agir irracionalmente sem atentar para os dados reais ou para as consequências nefastas da atitude que decidiu tomar. 

Ele sequer conhecia as pessoas envolvidas no caso, desconhecia o processo judicial e as circunstâncias que o envolviam. Tampouco sua ajuda fora solicitada. Objetivamente, pois, não dá para compreender como um professor de Filosofia, supostamente racional, passe a ter um comportamento sem qualquer base lógica. Mas ele não está sendo movido por dados objetivos. Parece ter sido fisgado pelo que considerou uma oportunidade de enfrentar seus fantasmas internos, fontes de seu sofrimento. Viu a chance de punir antigos ofensores, tentando se livrar do horror e da raiva que carrega. O que Abe não sabia é que não são apenas os males que os outros nos fazem os responsáveis por nossas desgraças, mas, sim, importa mais a interpretação que damos a essas ofensas. Mais do que um fato, importa a interpretação do fato por quem o viveu. Se não houve elaboração adequada, a vítima poderá acreditar que tem o direito de executar atos maldosos contra outras pessoas, na tentativa inútil de se livrar da dor. Como a razão não entra nessa decisão, é claro que não é uma atitude compreensível para quem a observa, enquanto seu autor a vê como plenamente justificável, sofismando seus argumentos. Abe não se dá conta de que a justiça que alega fazer em prol de uma mãe ameaçada, na verdade diz respeito a ele mesmo. 

Abe também não se dá conta de que projetou no juiz seus próprios impulsos destrutivos, com os quais tem dificuldade de lidar. Ao perceber um componente destrutivo em alguém, partiu para acusá-lo e até agredi-lo por não suportar se ver retratado no outro. 

Na verdade ele quer mostrar pra si mesmo que é capaz de dominar o reprovável que carrega, não permitindo que suas mazelas fiquem expostas. Mas o fato de não concordar com certas atitudes de alguém, não lhe dá o direito de agredi-lo e muito menos exterminá-lo. Quanto mais agressiva é a reação contra um suposto transgressor, maior a identificação com ele. Alguém já disse que os monstros se reconhecem. 

Quando não se suporta ver algo em alguém a ponto de se achar no direito de agredi-lo ou até matá-lo, fica claro que o insuportável não é o que o outro mostra, mas o que se quer esconder de si mesmo. O outro é o espelho. 

Abe julgou, condenou e sentenciou o juiz sem questionar a legitimidade de sua decisão. Como ouvira o nome do juiz no restaurante, descobriu seu endereço e passou a observar seus hábitos, para melhor planejar e executar sua missão que considerava justiceira. 

É visível o contraste entre o Abe do início do filme e o Abe a partir da conversa ouvida no restaurante. Passou a ser um homem entusiasmado, vibrante e capaz de exercer sua sexualidade satisfatoriamente. Parece que o personagem usava grande parte de sua energia libidinal para conter seus impulsos destrutivos. Apesar de demonstrar agora interesse e vivacidade no que faz, chama a atenção a frieza com que ele executa seu plano contra o juiz. Parece que ele se sentia desafiado intelectualmente a resolver um problema com perfeição. Por considerar a supremacia da razão – conforme advogavam os iluministas e sobretudo Kant – Abe se empenhou em sua tarefa, calculando cuidadosamente todos os passos para garantir o sucesso do seu plano. O que ele não sabia, era que o grande regente do universo é o Inconsciente, que, quanto mais recalcado, mais poder tem e sempre encontra saídas tortas para se manifestar. Abe também não considerava o acaso como algo sobre o qual não se tem controle. E o professor de Filosofia não levou em conta que Kant introduziu a questão do acaso na busca da verdade. Para Woody Allen, o acaso parece ser um tema interessante, pois este não é o primeiro filme onde ele é fator fundamental para o desfecho do roteiro, mostrando como o imponderável pode interferir no rumo de nossas vidas. 

Só focando a supremacia da razão, Abe deixou de considerar as questões éticas. Por isso, ele não entendeu a indignação de sua aluna quando descobre o que havia acontecido. Ele achava que podia contar com a cumplicidade dela, sem se dar conta de que decidir sobre a vida ou a morte de uma pessoa é uma manifestação de barbárie. Mas o personagem parece alheio a qualquer consideração moral, ignorando a Lei e criando as suas próprias leis para justificar seus atos. A blindagem inicial de Abe parecia mesmo uma forma de impedir a saída de seus monstros. 

É no final da execução de seu plano que entra o acaso, interferindo e alterando a perfeição de um projeto tão bem elaborado, destruindo a prepotência narcísica de Abe. A imprevisibilidade permeia nossas vidas, por mais que se busquem garantias nos búzios, nas cartas, na astrologia, nos oráculos e em tantas outras formas que o homem tenta para conhecer e controlar seu futuro. É mais uma ferida narcísica no sonho onipotente do homem. Seria mais fácil viver se aceitássemos nossas limitações, mas, como Ícaro, sonhamos mais do que somos capazes de realizar. Talvez por isso tenhamos criado tantos deuses, portadores das qualidades que gostaríamos de ter. Talvez fosse mais simples aceitar que viver é estar exposto a prazeres e dores, é ter que tomar decisões e arcar com o ônus de nossas escolhas, é sofrer perdas constantes (mais do que ganhos): perda de sonhos, de amores, de pessoas queridas, de esperança e a perda paulatina da própria vida, que vai se esvaindo enquanto o tempo passa e nos aproxima da morte. Talvez fosse melhor não tentar fugir das dores de viver... Mas quem disse que isso é fácil?

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