Volta ao mundo em 15 dias - Festivais Internacionais de Cinema do RJ e de SP

12.10.2015
por João Moris

Exibição do filme Riocorrente no Vão livre do MASP - 2014 – Foto de Mário Miranda Filho – Agência Foto

Como frequentador assíduo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desde o seu início em 1977, devo a este festival muito da minha iniciação cinematográfica e do meu entusiasmo por filmes de outras partes do mundo, muito além dos filmes tradicionais hollywoodianos e europeus ocidentais. Acompanhei, ao longo dos anos, as várias mudanças pelas quais passou a Mostra de SP, hoje quase quarentona. 

Este ano, tive o privilégio de participar pela primeira vez do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (FestRio), que geralmente termina uma ou duas semanas antes da Mostra de SP começar, na segunda quinzena de outubro todos os anos. 

Tomo a liberdade de traçar algumas comparações entre ambos os festivais, ainda que essas comparações sejam genéricas e sem nenhum intuito de denegrir a imagem de um ou outro festival. 

Primeiramente, devo ressaltar que, apesar da quantidade avassaladora de filmes que os grandes festivais de cinema como os do RJ e SP exibem, é muito bem-vinda a iniciativa de oferecer ao grande público produções de vários países durante 15 dias. Este é o grande mérito destes festivais: o de mostrar culturas diversas, vidas ordinárias e a complexidade das sociedades em que essas culturas e vidas estão inseridas no planeta. 

Neste sentido, estes festivais internacionais de cinema satisfazem plenamente o meu desejo de conhecer lugares diferentes do mundo e saber como vivem, o que pensam e o que move as pessoas que habitam esses lugares, ainda que inevitavelmente esta “viagem” seja pelas lentes do diretor do filme. De qualquer forma, para mim, é super gratificante assistir a uma produção de um país fora do eixo geopolítico do mundo, que mostra, por exemplo, pessoas nos confins do Quirguistão, numa aldeia no interior do Vietnã ou num subúrbio de Tallinn, capital da Estônia.

Rivalidade RJ-SP 

Na comparação entre os festivais do Rio de Janeiro e São Paulo, a lastimar a velha rivalidade entre ambas as cidades, que também parece contaminar esses eventos cinematográficos. Lamentavelmente, os filmes que o FestRio exibe não passam na Mostra de SP e vice-versa, salvo os filmes nacionais, que geralmente estreiam em ambos os festivais. Quem sai perdendo com esta fogueira das vaidades de não exibir filmes estrangeiros que passam no RJ ou em SP é o público, que fica privado de ver obras fantásticas que dificilmente serão lançadas em circuito comercial. 

Assim sendo, se considerarmos que o festival do RJ tem em média 250 filmes e o de SP aproximadamente 350, num único mês são oferecidos quase 600 filmes ao público de ambas as cidades. Sem dúvida, um grande cardápio para cinéfilo nenhum botar defeito, mas questiono o critério pelo qual muitos destes filmes são escolhidos, dada a qualidade duvidosa e discutível de alguns. 

Com frequência, a impressão que me dá é que as curadorias desses festivais programam certos filmes apenas para fazer número ou passar uma imagem de prestígio. Não seria mais sensato ambos os festivais se unirem e escolherem uma maioria de filmes prestigiados nos grandes festivais internacionais (Berlim, Cannes, Veneza, Toronto, Locarno, Sundance, Tribeca, Rotterdam, Nova York) e que são reconhecidamente bons para brindarem os espectadores dos festivais do RJ e SP, deixando apenas uma parte da programação como elemento surpresa para os cinéfilos “desbravarem”? Não seria interessante optar por mais qualidade e menos quantidade para atrair cada vez mais público e aumentar a visibilidade e reputação destes festivais?

Sessões “muvuca” 

Um dos fatores que afasta o público dos festivais internacionais de cinema do RJ e de SP é a falsa ideia de que os ingressos se esgotam logo e que, se a pessoa não comprar com antecedência, corre o risco de voltar para casa sem assistir ao filme. Nos últimos anos, sinto que há cada vez menos filmes que têm sala lotada. Geralmente, apenas os filmes vencedores dos festivais internacionais, ou filmes muito badalados ou polêmicos ou, ainda, de diretores famosos geram bastante público nos festivais. 

Os organizadores, por sua vez, não facilitam muito a venda de ingressos para espectadores “normais” que queiram assistir aos filmes dos festivais e decidam ir à bilheteria no dia dos filmes. Eles dão prioridade aos cinéfilos que compram pacotes ou à compra com antecedência pelo site ingresso.com (pagando a infame taxa de conveniência). Além do mais, como o fluxo de pessoas é muito grande na bilheteria e na entrada/saída dos cinemas, geralmente de espaço acanhado, isto acaba desestimulando muita gente de comparecer ou assistir ao filme do festival, por achar que vai estar muito cheio. Mas, como as sessões com “muvuca” parecem trazer prestígio ao festival, os organizadores não estão muito interessados em organizar o fluxo de pessoas, as filas nos caixas e nas entradas das salas... 

Quanto às compras de passaporte ou pacotes, que geralmente são de 20 ou 40 ingressos ou de número ilimitado, os organizadores da Mostra em SP podiam fazer todo o processo online, como no FestRio. Todos os anos formam-se filas no Conjunto Nacional na Av. Paulista para a retirada de senhas para a compra dos pacotes. Depois da retirada da senha, a pessoa tem que passar por outra fila para tirar fotografia e fazer crachá. Isto é ridículo. Será que ainda tem algum fiscal na porta do cinema que confere as fotos nesses crachás em dias de filme? 

Achei o processo todo da compra de pacotes no Rio de Janeiro bem mais simples. Comprei o pacote de 20 ingressos pelo ingresso.com (sem taxa, diga-se de passagem) e imprimi meu crachá pelo site. Eu tinha o direito de escolher qualquer filme online até o horário de início da sessão (sujeito à lotação da sala). O sistema gerava um ingresso com código para aquela sessão para ser impresso. Como eu não tinha impressora em casa, eu retirava o meu ingresso na bilheteria apenas fornecendo o número do código. Simples assim. Ninguém me pedia para ver identidade ou crachá, que nem foto tinha. Achei interessante este “voto de confiança” da organização, pois mesmo se eu desse o meu ingresso para alguém assistir no meu lugar, qual o problema? Os ingressos do pacote já estavam vendidos, não estavam?

Já em São Paulo, todo o processo é bem mais burocrático. Só posso trocar os ingressos do pacote na Central da Mostra até um dia de antecedência da exibição do filme. Se eu não comprar com antecedência e decidir ir ao cinema no dia do filme, eu preciso retirar o ingresso na bilheteria e estou sujeito à fila e à disponibilidade. Ora, por que não disponibilizar os ingressos do pacote online? Por que não fazer como no Rio de Janeiro, que disponibiliza 80% dos ingressos online e 20% na bilheteria, evitando assim filas? É certo que nem sempre o sistema do ingresso.com funciona direito e também ouvi algumas reclamações no RJ...

Público pra que te quero

É muito curioso observar o público que frequenta os festivais de cinema no RJ e SP. Além das figuras exóticas e excêntricas que sempre aparecem nessas ocasiões e que dão um toque diferente e colorido aos festivais, a impressão que me dá é que muitas destas pessoas não frequentam cinema com assiduidade e, se frequentam, onde elas se “escondem” no restante do ano? Nos festivais, tem, também, os cinéfilos que conseguem assistir a cinco ou seis filmes por dia (!!). Em algumas sessões, há muita expectativa e ansiedade com relação ao filme e dá para perceber isto no ar. Não é difícil ver gente brigando nas bilheterias, furando fila, almoçando/jantando no cinema, chegando esbaforido, saindo do cinema correndo para outras sessões, reclamando dos filmes, das legendas, da organização... mas, o mais gostoso desses festivais é como as pessoas se socializam e fazem do cinema um ponto de encontro. Este convívio e troca entre as pessoas são muito estimulantes!

Foto de Mário Miranda Filho – Agência Foto

Tive a sensação no RJ que o público vai bem menos ao festival do que em SP, talvez porque a Mostra de SP seja maior e a maioria dos cinemas está concentrada numa única região (a Paulista), o que favorece o fluxo de pessoas. No RJ, as salas estão espalhadas pelo centro e zona sul da cidade e é preciso pegar condução para ir de um cinema a outro. Poucas salas que fui no RJ estavam realmente cheias e só não consegui ingresso para um filme que estava bem badalado e deixei para comprar na última hora (“Truman” da Argentina com o Ricardo Darín, quem mais?). De resto, a qualquer hora da tarde ou da noite era possível conseguir ingressos. O público no RJ parece ser menos diversificado, embora não seja difícil encontrar cinéfilos por toda a parte discutindo os (5? 6?) filmes que viram ou verão durante o dia. 

E a qualidade? 

Os filmes que passam no FestRio me parecem mais badalados e comerciais dos que os de São Paulo. Será porque o FestRIo é em parte patrocinado pela Globo Filmes? O RJ faz questão de divulgar nas resenhas que o filme exibido é premiado em algum grande festival ou candidato ao Oscar de filme estrangeiro, o que de certa forma é um selo de qualidade. Neste sentido, fui contemplado na escolha dos 15 filmes a que assisti no FestRio: ao menos 8 eram muito bons e os recomendaria a amigos. A Mostra de SP está mais aberta à experimentação, inclusive porque traz mais filmes e tem um público maior. O aspecto positivo desta “experimentação” é a possibilidade de garimpar ou descobrir joias raras. O lado negativo é a gente se deparar com verdadeiros lixos, indignos de um festival internacional de cinema. Já aconteceu muitas vezes isto comigo. Sou dado a certas experimentações, mas depois de ver tanta “bomba” e ter muitas decepções na Mostra de SP, hoje estou mais propenso a experimentar menos e a ir a filmes que sejam mais conhecidos ou que tiveram algum tipo de recomendação.

Menos forma e mais conteúdo 

Outro aspecto em que o festival do RJ parece ser mais solto e menos burocrático é que eles não parecem estar muito preocupados e nem gastam muito dinheiro com material promocional, tal como cartaz produzido por diretores famosos, vinhetas longas, crachás plastificados, pôsteres etc como acontece em SP. O FestRio parece estar mais preocupado com o conteúdo e os filmes. Tanto é que a programação do FestRio já estava disponível uma semana antes da abertura do festival e, além de estar disponível online, ela também vinha em uma revista impressa, distribuída gratuitamente, com ficha técnica e sinopse dos filmes, os horários e cinemas, bem fácil de ler e seguir. Por que é tão difícil para a Mostra de SP produzir uma revista gratuita assim, em vez de delegar à Folha de SP imprimir aquele guia minúsculo e incompleto? 

A Mostra de SP traz mais retrospectivas e um leque de filmes maior, mas como disse acima, há muitos filmes de qualidade duvidosa neste espectro. Finalmente, neste ano, a Mostra de SP divulgou sua programação com antecedência e o site está muito bem organizado, tanto em português quanto em inglês, constando da ficha técnica dos filmes, diretores e as salas e os horários bem descritos. Palmas para a organização da Mostra de SP, que quase 40 anos depois, disponibiliza ao público a sua programação uma semana antes do início do festival! Nos últimos 39 anos, por alguma razão, a programação era guardada a sete chaves até o início ou então disponibilizada em xerox na Central da Mostra, até que o catálogo fosse distribuído (geralmente no dia seguinte após o início). 

Também sinto que o FestRio passa os filmes mais vezes (ao menos quatro vezes) do que a Mostra de SP, que frequentemente exibe o filme apenas 3 vezes e alguns em horários e salas não muito convenientes. E no RJ eles repetem o filme no mesmo dia nas sessões vespertina e noturna, dando a oportunidade para todos os públicos verem os filmes naquele dia. É difícil entender o critério de exibição dos filmes na Mostra de SP, porque alguns passam três vezes, enquanto outros passam cinco. 

Da mesma forma não entendo porque a Mostra de SP continua insistindo no sistema de votação do púbico, para que um júri formado por cineastas brasileiros e estrangeiros possa assisti-los e votar na segunda semana. A ideia desta votação é que os primeiros filmes de diretores novatos possam ser escolhidos. Mas, muitos destes filmes não são assistidos por uma parcela significativa de público para dar votos em número suficiente para a ponderação das notas, o que gera inconsistência no resultado da votação. E nem todos os filmes de diretores novatos são votados a tempo para serem selecionados pelo júri. 

Aliás, até hoje não entendo para que votar nos melhores filmes, se durante o ano quase a totalidade dos filmes mais votados não é lançada em circuito comercial e, se é, esses filmes não têm visibilidade alguma na hora do lançamento. Alguém se lembra dos filmes que ganharam a Mostra de SP em 2014? Eles foram lançados em circuito comercial? Houve alguma chamada ou divulgação a respeito deles? Geralmente, não há visibilidade para eles, o que denota que não há integração entre esses festivais e as distribuidoras. A própria distribuidora da Mostra de SP não compra os filmes vencedores do seu festival para serem exibidos no Brasil. Sem falar nos filmes brasileiros, que são muitas vezes lançados com estardalhaço e badalação nos festivais e, no lançamento comercial, são relegados a uma sala minúscula em um único horário. 

Então, a quem interessa que tal filme ganhou o festival? A quem e para que serve este sistema arcaico de votação? Por que não renovar esse sistema? No RJ, apenas os filmes nacionais e os de temática LGBT tem votação do júri e do público. Acho este sistema mais sensato.

Estas são minhas considerações para contribuir na melhoria da organização dos festivais do RJ e SP e estimular as pessoas a assistir e deleitar-se com algumas grandes produções do cinema mundial. Ao que tudo indica, a safra de filmes deste ano está “apetitosa” no FestRio e na Mostra de SP. Então boas escolhas e bons filmes para nós!

8 comentários:

  1. bom saber João, estou agora repensando se vou tentar entrar numa sala, num horário de ultima hora que eu tiver disponivel esta semana....talvez não vale a pena ficar na sessão muvuca!! então organizadores: FACILITEM! queria muito poder ir de ultima hora....

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    1. João Moris, seu artigo só me deixa com MAIS vontade de ver muitos filmes na Mostra de SP. Concordo com você em relação às dificuldades para aquisição dos ingressos. Soube que essa mostra (aliás, acho que isso acontece todo ano) teve MUITA dificuldade com os patrocinadores. Esses problemas se refletem, por exemplo, na divulgação da programação na última hora... Mas sempre há muita coisa pra melhorar, especialmente essa questão da rivalidade com o FestRio que é injustificável. Belo artigo!

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    2. Pode ir sem medo, Uça, tem muitos cinemas aqui na região da Paulista e muitos horários e dá, sim, para comprar de última hora. Só que se assim for, você não terá muita oportunidade de escolher o filme. Caso queira escolher o filme com antecedência, o melhor a fazer é comprar no ingresso.com. Irá pagar taxa de conveniência, mas pelo menos o ingresso é garantido. Bjs,

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    3. Pode ir sem medo, Uça, tem muitos cinemas aqui na região da Paulista e muitos horários e dá, sim, para comprar de última hora. Só que se assim for, você não terá muita oportunidade de escolher o filme. Caso queira escolher o filme com antecedência, o melhor a fazer é comprar no ingresso.com. Irá pagar taxa de conveniência, mas pelo menos o ingresso é garantido. Bjs,

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    5. Obrigado, cara(o) colega de grupo, só espero que esta dificuldade com os patrocinadores não se reflita na qualidade dos filmes. Pois, afinal o que a gente quer ver é filme bom! Bjs,

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  2. Uça, pode ir sem medo que dá, sim, para compra de última hora, principalmente nos cinemas da Paulista, que estão com vários horários. Se assim for, será o filme que estiver disponível. Se desejar escolher um filme com antecedência, o melhor a fazer é comprar no ingresso.com (sujeito à taxa de conveniência) ou garantir o ingresso através de um amigo ou um irmão (eu). Bjs,

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  3. Essa reclamação é antiga! O sistema não busca atender as pessoas, pois se assim fosse implementariam melhorias ano após ano. Isso parece que não ocorre, considerando que Você é um "heavy user". Esqueceu de mencionar que as pessoas também participam de grupos cinéfilos e baixam e/ou trocam filmes do mundo todo e de tudo. É uma realidade! Essas mostras terão que se reinventar para atender a demanda. E mais foco no público!

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