Você sabe quem foi Mazzaropi?

25.11.2015
Elaboração: Profª Drª Cláudia Mogadouro



Amácio Mazzaropi (1912-1981) foi um dos maiores mitos do cinema brasileiro. Sua popularidade é imensa até hoje, mesmo tendo falecido há mais de 30 anos. Apesar de boa parte da crítica especializada “torcer o nariz” para seu cinema, é inegável que sua trajetória e sua obra revelam muito da cultura brasileira. Na história do cinema brasileiro, Mazzaropi é um capítulo importantíssimo, até porque, além de ter feito muito sucesso de bilheteria, ele ajudou a construir nossa tão modesta indústria cinematográfica. 

Mazzaropi, filho de um italiano com uma portuguesa, nasceu na cidade de São Paulo, mas foi bem pequeno para Taubaté, no interior de São Paulo. Gostava muito de circo e desde cedo manifestou vontade de atuar em circo e teatro, contra a vontade de seu pai. Aos 14 anos, fugiu de casa para acompanhar um espetáculo ambulante. Suas maiores influências foram Genésio Arruda – ator, músico e produtor considerado um dos pioneiros da representação caipira – e Cornélio Pires – produtor e principal difusor da música caipira. 

Em 1940, criou sua própria companhia que funcionava em um barracão ambulante, chamado de “Pavilhão Mazzaropi”. Em meados dos anos 1940, estreou no teatro e seu sucesso o levou a ter um programa na rádio Tupi, em 1945. Neste programa, ele entrevistava caipiras da grande cidade e alcançou grande popularidade. Assim que a televisão surgiu no Brasil, em 1950, ele foi convidado a fazer o programa “Rancho Alegre”. Seu humor e carisma conquistavam o público de imediato. E foi o sucesso da TV, especialmente como ator cômico, que inspirou Abílio Pereira de Almeida, diretor da Companhia Vera Cruz, a convidá-lo para interpretar um papel no filme Sai da Frente, em 1952..

A Companhia Vera Cruz foi uma importante produtora de cinema, que buscava a excelência na qualidade técnica, tendo como modelo o cinema europeu. Bancada por grandes empresários, a companhia importou técnicos e diretores europeus, realizando 22 filmes, em apenas 5 anos de existência. Mas, apesar de ter significado um impulso importante na indústria cinematográfica brasileira, a Vera Cruz não conseguiu se sustentar e foi à falência em 1954. 

Em 1953, a Vera Cruz, já em crise, criou linhas diferentes em sua produção, sendo uma delas a comédia, com a presença de Mazzaropi. Ele representava papeis cômicos, mas não era ainda o personagem caipira que ficou famoso tempos depois. Na Vera Cruz, ele atuou nos filmes Sai da Frente (1952), Nadando em Dinheiro (1952) e Candinho (1954). Com a experiência acumulada de atuações em circo, teatro, rádio e televisão, Mazzaropi, aos 40 anos, entendeu que o cinema era o seu melhor meio de expressão, onde ele poderia se valer de todo o seu talento e dialogar com milhões de pessoas.

Depois do fechamento da Vera Cruz, Mazzaropi participou de mais cinco filmes em diversas produtoras, sendo talvez O Gato da Madame (1956) o mais famoso dessa fase. Em 1958, ele vendeu tudo o que tinha e montou a Produções Amácio Mazzaropi (PAM), quando passa a produzir e distribuir todos os seus filmes. O primeiro filme dessa fase é Chofer de Praça. No ano seguinte ele adaptou Monteiro Lobato e filma Jeca Tatu e, logo depois, As Aventuras de Pedro Malazartes.

Mazzaropi confunde-se com o personagem Jeca Tatu e seu imaginário do caipira. Mas vai além da ideia pejorativa da preguiça e inutilidade do caipira, defendida por Monteiro Lobato no seu livro Urupês (1918). O Jeca de Mazzaropi, que aparece em diversos filmes, era caricato, mas era mais irreverente e engraçado do que original de Lobato. O fenômeno de massas que ele se tornou só pode ser explicado pela identificação das classes populares com sua representação do caipira. 

Mazzaropi compreendeu como ninguém todo o processo de produção/distribuição e exibição do cinema. Sua empresa – a PAM – investiu na infraestrutura da indústria cinematográfica brasileira, adquiriu todos os equipamentos necessários, construindo um estúdio em sua fazenda, na cidade de Taubaté. Ele montou uma distribuidora com negociações com as salas exibidoras, sendo responsável por 20% da arrecadação dos filmes nacionais entre os anos 1970 e 1975. Sua marca costumava ser de 3 milhões de espectadores por filme. Ele ficou conhecido em todo o Brasil, mas seu maior sucesso era em São Paulo – capital e interior – Minas Gerais e Paraná. 

Ao contrário de todos os outros cineastas nacionais, Mazzaropi tinha poder para escolher a data e a sala em que seus filmes estreavam (quase sempre no feriado do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro). As pessoas já esperavam sua estreia anual, lotando as salas, com público muito superior aos grandes sucessos de Hollywood. 

Desde que montou sua produtora e seu estúdio, Mazzaropi realizou 24 filmes, praticamente um por ano, todos com sucesso incrível. Mas a crítica de cinema não compreendia sua popularidade, pois seus filmes eram muito simples, baratos, com roteiro muito elementar. Sua popularidade era apoiada no seu humor ingênuo e autêntico da cultura caipira.


Na atualidade, muitos dos seus filmes são exibidos na TV com grande sucesso, até mesmo por pessoas que nem eram nascidas quando ele morreu.

Mais alguns dos títulos produzidos por ele: Zé do Periquito (1960), Tristeza do Jeca (1961), Casinha Pequenina (1963), O Puritano da Rua Augusta (1965), O Corintiano (1966), O Jeca e a Freira (1968), Um Caipira em Bariloche (1973), O Jeca Macumbeiro (1974) e muitos outros.

Dois filmes sobre Mazzaropi precisam ser destacados neste artigo. O primeiro é uma ficção chamada Tapete Vermelho (2006), dirigida por Luiz Alberto Pereira. Nesta trama, o protagonista Quinzinho, interpretado por Matheus Nachtergaele, tem uma promessa a cumprir: levar seu filho à cidade para ver um filme do Mazzaropi. 

Em 2012, ano do centenário de Mazzaropi, Celso Sabadin escreveu e dirigiu um excelente documentário, mostrando a importância de sua obra, com depoimentos muito ricos e controversos. As contradições sobre sua personalidade mostram a honestidade do documentário, sem nunca desmerecer sua importância no cinema e na cultura brasileira. A trilha sonora é de Renato Teixeira e Grupo Paranga. Trata-se de um documentário imprescindível para quem quer compreender melhor a cultura caipira e esse fenômeno que foi Mazzaropi.

Termino este artigo com as informações que finalizam o documentário de Celso Sabadin: 
“Entre 1952 e 1980, Amácio Mazzaropi escreveu 21 filmes, dirigiu 13, produziu 24, e atuou em todos os seus 32 longas. Estima-se que tenha vendido mais de 200 milhões de ingressos de cinema, numa época em que o Brasil tinha em torno de 70 milhões de habitantes“. 
Creio que esses dados já dizem tudo.

Referências:

RAMOS, Fernão Pessoa e MIRANDA, Luiz Felipe (organizadores) Enciclopédia do Cinema Brasileiro, 3ª edição, ampliada e atualizada. São Paulo: SENAC e SESC, 2012.

MAZZAROPI, documentário escrito e dirigido por Celso Sabadin, 2013. Produção Reza Brava Filmes. Co-produção Canal Brasil. Em associação com Planeta Tela e Felistoque Filmes.

TAPETE VERMELHO, dirigido por Luiz Alberto Pereira, 2006. Produção: Ivan Teixeira e Vicente Miceli. Co-produção: LAPFILME Prod. Cinematográficas Ltda.

"Artigo escrito e publicado no Portal NET Educação: www.neteducacao.com.br"


3 comentários:

  1. Aprendi com minha família, as delícias das caipirices e mineirices, apesar de morarem há decadas aqui em Sampa, não esquecem suas origens. E os domingos dedicados a reunião dessa grande família, em torno da vó Zezé, após saborearem o almoço...fica sempre mais divertido,quando Mazzaropi é exibido.Mesmo os mais novos,que talvez não se identifiquem tanto com o estilo, ficam achando graça, das gargalhadas dos mais velhos, que costumam ria à beça, mesmo em cenas vistas repetidas e repetidas vezes. "Mazza" é sempre um show a parte!

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    1. Que bom, Denize. Realmente, o humor do Mazzaropi não perdeu o frescor. Até pessoas bem jovens dão risada com ele. Grande artista!

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  2. Olá, Claudia
    Achei ótimo o teu artigo.
    Mesmo os que nasceram bem depois da morte da Mazzaropi, mas á ouvi ou leu sobre ele, poderão entender a trajetória de um grande artista bem popular e sem estrangeirismos.
    Vi muitos filmes dele na minha infância e me divertia muito. Valeu a pena ler o teu artigo para lembrar de Mazzaropi.
    Abraços!

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