Cinema Brasileiro em 2015

14.01.2016
por João Moris


Foram lançados mais de 120 filmes brasileiros em 2015, um ano muito rico para o cinema nacional. Vi filmes de excelente qualidade, que nada ficam a dever para o cinema de qualquer lugar do mundo. É óbvio que, no meio de tantos filmes, existem aqueles que são comerciais demais, comédias “globais” batidas e de qualidade duvidosa. 

Mas, o maior problema do nosso cinema continua sendo a distribuição e exibição dos filmes, tema bastante explorado no nosso Grupo Cinema Paradiso e nas redes sociais. Assim, nunca é demais continuar batendo na mesma tecla. É inconcebível que uma obra de arte de entretenimento de massa, como um filme, que leva anos e muito suor e dinheiro para ser planejado, escrito, produzido, filmado e materializado seja tão aviltado na hora da exibição e visto por tão poucas pessoas! Creio que precisamos assistir a mais filmes brasileiros e exigir que os cinemas os exibam por mais tempo e em vários horários… 

Dito isto, em 2015 houve diversos diretores que nos presentearam com verdadeiras joias. Para mim, o filme brasileiro que mais merece destaque é o pernambucano A História da Eternidade, que deveria figurar no olimpo dos grandes filmes do cinema nacional. Argumento, roteiro, fotografia, trilha sonora, iluminação, atuação, direção, tudo impecável! Obrigado, Camilo Cavalcante, por esta obra tão inspiradora. Fizemos uma discussão muito gostosa e cheia de insights sobre este filme no nosso Grupo, além de fazermos um “abaixo assinado” para que o filme permanecesse em cartaz por mais tempo no Espaço Itaú. Por justa causa. Quantos brasileiros devem ter ouvido falar ou visto um filme tão importante como este para a nossa cinematografia? Pouco mais de 1000 ou 2000 pessoas, talvez? Uma lástima! O filme, aliás, está disponível no youtube em versão integral.


Outro grande filme do ano foi o aguardado documentário Chico, Artista Brasileiro, que faz jus ao talento e personalidade do nosso querido e amado Chico Buarque. Além de nos deleitar com as histórias e músicas do artista, o diretor Miguel Faria Jr. conseguiu habilmente vencer o desafio de filmar a obra e vida do Chico, sem cair na pieguice, na mesmice, no babaovismo e no perigo de se curvar demais diante da grandeza do artista e o filme se tornar “chapa branca”. 

A respeito disto, o cinema brasileiro continua a produzir bons documentários, mas sinto que muitos diretores repetem a fórmula de enaltecer demais os protagonistas do documentário, quando se trata de cinebiografia, ou cair no maniqueísmo, quando se trata de filme-denúncia, o que acaba por enfraquecer o filme, empanar o seu brilho ou cansar o espectador.

O documentário O Sal da Terra, sobre a vida e obra do prestigiado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, ilustra bem isto. Na parte em que o filme foi dirigido por Wim Wenders, houve um maior distanciamento em relação ao fotógrafo, com cenas envolventes e marcantes. Na parte em que o filme foi dirigido pelo filho do Sebastião, Juliano Ribeiro Salgado, o filme ficou piegas e até enfadonho, na minha opinião. 

Outro documentário que senti um certo exagero no elogio e enaltecimento da protagonista foi Cassia Eller. Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, o filme é bom, com boas imagens de arquivo, mas peca pela edição. Não há uma crítica ou contraponto à figura da artista, que era extremamente polêmica. O filme me pareceu um típico caso de paixão do criador pela criatura. Confesso que quase duas horas depois, estava cansado do documentário e senti que estava assistindo a vários videoclipes da Cássia Eller. 

Por outro lado, um grande documentário de 2015 foi o surpreendente Iván, de Guto Pasko, sobre um imigrante ucraniano de 91 anos, que mora em Curitiba e volta à Ucrânia 67 anos depois de ter chegado ao Brasil. O filme tinha tudo para descambar para o sentimentalismo barato, mas foi feito com tamanha competência e amorosidade, que chorei do começo ao fim, deslavadamente, como não fazia desde a cena final de Cinema Paradiso

Outro documentário destaque do ano foi Últimas Conversas, do grande e saudoso Eduardo Coutinho, que sabia fazer documentários como ninguém. A direção segura de Walter Salles também nos deu Jia Zhang-ke – Um Homem de Fenyang, o improvável e amoroso filme sobre a vida e obra de um diretor chinês conhecido no Brasil apenas pelo circuito cult. 

Um documentário que surpreendeu muita gente foi Tudo por Amor ao Cinema, de Aurélio Michiles, que retrata a vida de Cosme Alvez Netto, uma das mais importantes figuras do cinema brasileiro, que eu nunca havia ouvido falar, responsável pela conservação e recuperação de diversas obras do nosso cinema. Um filme muito interessante. 

Destaco, ainda, os documentários sobre três figuras famosas no Brasil, cada um na sua área: Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, de Nelson Hoineff, sobre o cantor Cauby Peixoto, Sabotage, Maestro do Canão, de Ivan 13P, sobre o rapper Sabotage, assassinado em 2002, e Hermogenes, Professor e Poeta do Yoga, de Barbara Tavares, sobre o querido mestre de yoga brasileiro, morto em 2015. São todos bons documentários, mas poderiam ser melhores se houvesse um distanciamento mais crítico dos diretores em relação aos protagonistas.

           

Gostaria de destacar, também, o importante documentário sobre a atualíssima questão de gênero e identidade sexual no Brasil, De Gravata e Unha Vermelha, de Miriam Chnaiderman, já disponível no youtube e que vale muito a pena ver. E o feliz Território de Brincar, em que os diretores Renata Meirelles e David Reeks percorrem várias comunidades do interior do Brasil revelando o país pelos olhos das crianças daqueles locais e suas brincadeiras. 

No campo da ficção, além do excelente A História da Eternidade, em 2015 houve grandes filmes que me deram muito prazer: o paulista Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, o filme brasileiro mais comentado do ano e que dispensa comentários, e o seu irmão carioca Casa Grande, que também aborda a questão do nosso fosso social de forma brilhante.

Outros quatro belos filmes nacionais que se destacam pela delicadeza e sutileza com que os temas são tratados: Ausência, de Chico Teixeira, Beira-Mar, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho, e Real Beleza, de Jorge Furtado. Creio que estes filmes apontam para um bom caminho na relação forma e conteúdo, com criatividade e qualidade. 

Recomendo, também, mais quatro filmes nacionais de 2015 vigorosos e feitos com muita garra: A Estrada 47, de Vicente Ferraz, um filme empolgante e muito bem feito sobre a atuação dos pracinhas na II Guerra Mundial; A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra, refilmagem do conto de Guimarães Rosa e tardiamente lançado nos nossos cinemas; o lírico Sangue Azul, do pernambucano Lírio Ferreira, todo rodado em Fernando de Noronha, e outro filme pernambucano, Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, um filme sexy e colorido. Também não posso deixar de citar o lançamento do polêmico Chatô, o Rei do Brasil, de Guilherme Fontes, que apesar de irregular é um filme importante para a história do país.

Em 2015, houve o lançamento de vários filmes badalados ou muito comentados, que não me agradaram ou ficaram aquém da minha expectativa. Entre eles, cito: Califórnia, de Marina Person, que apesar de sensível deixa a desejar; Entre Abelhas, de Ian SBF, um tour de force de Fabio Porchat que não deu certo; o difícil e estranho Branco Sai, Preto Fica, do brasiliense Adirley Queirós; Depois da Chuva, filme sem vida sobre o fim da ditadura no Brasil, dos diretores baianos Cláudio Marques e Marília Hughes; o superestimado e soporífero Periscópio, de Kiko Goifman; o instigante, mas fraco, Metanoia, sobre um viciado em crack, do diretor paulista Miguel Nagle; o cultuado e esteticamente rigoroso Obra, de Gregório Graziosi; o intrigante, mas mal dirigido, Oração do Amor Selvagem, do catarinense Chico Faganello; e o filme chapa branca do ano, que parece ter sido feito sob encomenda, Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado. 

Cabe ressaltar a bela iniciativa do CineSESC em divulgar o cinema nacional realizando anualmente, em dezembro, a Retrospectiva do Cinema Brasileiro com os melhores filmes do ano. Em 2015, a mostra contou com 54 títulos, que foram reprisados duas vezes durante o mês. Uma ótima oportunidade de assistir aos nossos filmes na telona. Os cinéfilos agradecem.

7 comentários:

  1. Olá, João Moris

    Teu artigo está ótimo
    Gostei muito. Nem assisti a todos os filmes, mas, a forma como você os descreve deixou-me com vontade de vê-los.
    Parabéns!
    Janete Palma

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    1. Olá Janete, tudo bem? Obrigado por sua mensagem. Que bom que meu artigo te deixou com vontade de ver os filmes. A intenção é esta. Só não sei se você terá a mesma opinião que a minha a respeito deles (rs). Bjs,

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  2. Gostei do levantamento que nos ajuda a conhecer a quantidade impressionante de filmes realizados em 2015.
    Mas discordo inteiramente do comentário sobre o filme Branco sai, Preto fia de Adirley Queiroz. O filme é criativo, esteticamente inovador . Consegue com um baixo orçamento criar e inovar, sobre um assunto polêmico misturando documental e ficcional. Marialva Monteiro - CINEDUC- Cinema e Educação.

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    1. Cara Ana, obrigado por seus comentários. A ideia deste espaço é mesmo servir de fórum para a gente trocar ideias e argumentar sobre os filmes. E como cada um de nós assiste e recebe um filme de forma diferente, não? No caso do "Branco Sai, Preto Fica", eu não consegui "embarcar" na proposta do diretor, embora reconheça o esforço dele em fazer algo inovador e criativo sobre um assunto polêmico e necessário. Como espectador, achei o filme muito cansativo e desinteressante. Gosto de novas linguagens no cinema, principalmente no brasileiro que ´na maioria das vezes tem uma estética "global" padronizada, mas em que pese o esforço de Adirley Queiroz em fazer um filme diferente com pouca grana, o filme não conseguiu me emocionar ou impactar em nada. De qualquer forma, tem o mérito de levantar polêmica e talvez fosse um bom filme para o nosso grupo de cinema discutir, visto que suscita tantas opiniões diferentes. Bjs,

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  3. Marialva, que bom ter comentários seus em nosso site. É sempre enriquecedor. Espero que o João Moris, autor do artigo, escreva sobre seu comentário. Eu não vou escrever "em defesa dele", porque ele não precisa. Mas quero apenas manifestar minha concordância com ele, quando diz, sobre o filme de Adirley Queirós, que é "difícil e estranho". Eu sei da importância política de Adirley. Fazer um filme com baixíssimo orçamento, denunciando a má distribuição de renda e tantas mazelas sociais no centro do poder já é, por si só, de grande importância política. Eu fui ver o filme na sala de cinema, com muita expectativa, pois sabia desse posicionamento político do cineasta (que se reflete nas escolhas estéticas, claro) e sabia que ele ganhara muitos prêmios no festival de Brasília. Mas detestei o filme. Pode ser que eu estivesse num mau dia? Claro, que pode ser isso. Mas não posso dizer que fui predisposta a não gostar, porque foi o contrário. Fiz um super esforço pra gostar. No final não aguentava mais. Eram 90 minutos que pareciam 900 minutos. Costumo ver longas com propostas estéticas diferentes e de baixo orçamento, mas neste caso achei que poderia ser um curta, que ele teria passado o recado de forma mais suportável. Convido você a escrever um artigo sobre esse filme, me ajudando a compreendê-lo mais e, consequentemente, valorizá-lo. Que tal? Beijos, Cláudia Mogadouro

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    1. Pois é, querida Cláudia, geralmente não temos a mesma opinião sobre os filmes, mas assino embaixo de tudo o que você escreveu na sua resposta sobre o filme, que, por acaso, assistimos juntos! Bjs,

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    2. Querida Claudia:
      Vou tentar escrever algo, pois acho que o filme tem uma enorme importância para o cinema brasileiro contemporâneo. O filme foi exibido no nosso projeto "Viajando com o Cinema" no auditório do Oi Futuro Ipanema/RJ para os professores e rendeu um ótimo debate. (não sei porque meu nome está como Ana Paranhos, que aliás, é o nome de minha filha) Beijos Marialva Monteiro

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