Quase somos confidentes de Saul

15.02.2016
por Marcos Eça


Já estamos todos mortos 
(fala de um dos personagens)

Há diversos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial abordando o tema do Holocausto. Mas alguns são memoráveis para cada um de nós (certamente cada pessoa tem sua lista), enquanto outros parecem apenas cumprir seu papel, não nos tocando profundamente. A meu ver, Filho de Saul (Saul Fia, Hungria, 2015) encontra-se na primeira categoria. É um filme do húngaro estreante em longas-metragens László Nemes (ele foi assistente de direção do aclamado Béla Tarr em O homem de Londres, 2007). Anteriormente, realizou três curtas metragens: With a Little Patience (2007, disponível no youtube), The Counterpart (2008) e The Gentleman Takes His Leave (2010).

O longa-metragem Filho de Saul ganhou prêmios nos mais diversos festivais pelo mundo. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e concorre ao Oscar nessa mesma categoria. A obra vem galgando uma bela carreira internacional. Dito isto, nesse texto apontarei alguns aspectos que me chamaram a atenção ao assistir a esse filme. 

O filme aparentemente é simples, porque retrata um período da vida de Saul Ausländer (Géza Röhrig, poeta e ator), um húngaro judeu no campo de concentração de Auschwitz no ano de 1944, quando ocorreu uma rebelião nesse local. Saul não estava na fila para ser executado naqueles dias, mas certamente isso aconteceria em breve, por ele ser um Sonderkommando, o que queria dizer que fora recrutado pelos alemães para fazer parte de um grupo que retirava os corpos dos judeus das câmaras de gás, levava-os para serem incinerados e jogava as cinzas restantes nos rios próximos da região para não deixar "rastros" do que acontecia em Auschwitz. 

Ao ver o filme, fica evidente "a linha de produção de extermínio de seres humanos, dos judeus" ocorrida nesse campo de concentração. O mesmo se percebe quando vemos judeus revistando as roupas dos judeus que haviam sido encaminhados para as câmaras de gás, a fim de encontrarem objetos valiosos que seriam vendidos pelos alemães. 

Apesar de evidenciarmos tudo isso, o diretor tem a cautela de não jogar sua câmera sobre as vítimas, para que vejamos uma representação do que se deu em Auschwitz de forma esfumaçada, longínqua – um exemplo disto é a câmera não focar os corpos que são arrastados de um lado para outro pelos espaços; na realidade vemos pelo que está ausente – dado que a câmera está colada em Saul, em seu rosto ou em suas costas. Seu olhar é nosso olhar. É ele quem importa, sua história talvez poderia representar a história dos mais diversos judeus assassinados. 

E tudo isso não se dá de forma piegas, nem melodramática. Há uma densidade dramática contida no longa de Nemes, porque apesar da dureza de tudo o que ocorre no campo de concentração, Saul não se desespera, não grita, não transborda. Ele abafa o peso da sua dor, uma dor que não é somente dos que estão próximos a ele, dos seres humanos que estão ali para serem exterminados, mas uma dor íntima porque no início do filme ele encontra o corpo de um jovem que tem laços sanguíneos com ele, ou melhor, vê o corpo de um jovem agonizando que ele reconhece como seu filho. Não sabemos ao certo se esse rapaz é de fato seu filho ou não, porém Saul o vê como tal, o que para mim legitima essa relação de parentesco. 

Saul talvez estivesse tentando resgatar ou reparar algo em relação à sua própria história e inclusive em relação às histórias dos judeus mortos nos campos de concentração por meio desse jovem. Enfim, após esse reconhecimento o filme traça sua saga de realizar o último desejo de Saul, um desejo que pode expressar o quão importante é manter a dignidade até o último momento de nossas vidas. Para tal, iniciam-se, então, trocas de favores em Auschwitz revelando as brechas existentes de corrupção em um lugar tão devastador como esse.

No filme Filho de Saul o recurso da proximidade da câmera nos torna praticamente confidentes desse homem. O filme é projetado em um formato quadrado o que proporciona uma sensação de enclausuramento para o expectador, que ainda ouve vozes vindas de diversos lugares reforçando essa sensação de incômodo. Aliado a tudo isso, há a dor abafada da perda de seu filho e há a vontade de concretizar seu último desejo, que talvez simbolize o desejo de todos os judeus mortos em Auschwitz. Nesse quadro, Saul sabe que morrerá prontamente, pois seria quase impossível escapar dessa situação em que se encontra. Essa angústia, esse sofrimento, esse incômodo talvez seja o que mais me agrade no filme. Um longa que, apesar de tratar de temas duros para nós enquanto civilização, vale a pena ser visto e revisto.

P.S.: Curta-metragem With a litte Patience, disponível em:

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