O Cinema e a Reflexão Sobre Ditadura Militar

30.03.2016
por Profª Drª Cláudia Mogadouro

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger

A história política recente do Brasil tem a marca dos 21 anos de ditadura militar que vigorou entre 1964 e 1985. Faz, portanto, 28 anos que o regime militar terminou, o que não é muito tempo, se pensarmos na perspectiva histórica. Porém, nossos estudantes já nasceram fora desse período e pouco se fala sobre o assunto nas escolas. Certamente, por ser uma história recente, é bem difícil conseguir o distanciamento necessário, além do quê, ainda sentimos claramente as consequências das ações do Estado nesse período, especialmente no que tange à desestruturação do sistema escolar.

Parte da geração de brasileiros hoje com mais de 40 anos tem lembranças dessa fase, ainda que as memórias variem muito, por conta do contexto que viveram e da idade que tinham. Quem cursava a universidade na virada dos anos 1960 para os 1970, talvez se lembre da presença de “infiltrados” na sala de aula, policiais disfarçados de estudantes. Os que viviam fora dos grandes centros urbanos, o mesmo período pode significar uma infância singela, alheia aos principais fatos políticos, até porque a imprensa era censurada. A festa da copa do mundo de 1970, quando o Brasil foi tricampeão mundial, está na memória de muitos brasileiros, parte deles têm também na memória o uso político desta vitória pelo então presidente General Médici.

O clima geral era de que ninguém sabia ao certo o que acontecia, mas havia estranhamentos: às vezes um jornal apresentava uma receita de bolo no lugar da manchete habitual (era uma resposta irônica dos editores, quando as notícias eram censuradas). Canções eram censuradas ou deixavam de ser
tocadas repentinamente nas rádios. O samba “Apesar de Você”, de Chico Buarque, foi proibido depois que já era um grande sucesso. Nem todos compreendiam o que quis dizer a letra: “dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era 2 subtraída em tenebrosas transações...” como diz outra canção de Chico Buarque.

Muitos foram os estudantes, trabalhadores, intelectuais, artistas que sofreram alguma intimidação. Alguns optaram pelas armas, passando a integrar grupos que decidiram enfrentar o regime “à bala”. Foram mortos, “desapareceram” sem deixar rastros ou presos e torturados. A trajetória da atual Presidenta da República, Sra. Dilma Roussef, ilustra bem as transformações pelas quais o Brasil passou em um curto espaço de tempo.

Antes mesmo da ditadura terminar, o cinema já se manifestava para tratar do assunto. No início, a partir de documentários. Sílvio Tendler foi um dos primeiros cineastas que se aventurou a falar do período pós-64. Ele realizou Os Anos JK, uma trajetória política (1980) e Jango (1984), um dos documentários que mais levou público aos cinemas, mostrando o período pré-64. Em 2006, Tendler nos brindou com um excelente documentário sobre a globalização Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global visto do lado de cá. A partir do pensamento do grande geógrafo Milton Santos, intelectual exilado nos anos 1960, discute a realidade brasileira atual.

Outros ótimos documentários sobre o período da ditadura: Tempo de Resistência (2003, de André Ristum), Vlado – 30 anos depois (2005, de João Batista de Andrade), Hércules 56 (2006, de Sílvio Da-Rin), Condor (2007, de Roberto Mader), Diário de uma Busca (2010, de Flávia Castro), Uma Longa Viagem (2011, de Lúcia Murat) e o recente e muito aclamado O dia que durou 21 anos, (2013, de Camilo Tavares).

Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi

Há vários filmes de ficção que buscam reconstituir fatos ou personagens ligados à resistência política na época da ditadura. É o caso de Lamarca (1994, Sérgio Rezende), O que é isso, companheiro? (1997, de Bruno Barreto), Cabra Cega (2005, Toni Venturi), Zuzu Angel (2006, Sérgio Rezende), Batismo de Sangue (2006, de Helvécio Raton), entre outros. Vários desses filmes receberam críticas negativas, porque a reconstituição não correspondia à memória de alguns especialistas ou 4 espectadores. É natural que isso aconteça, porque a memória é muito subjetiva, é uma combinação de lembranças com reconstruções particulares. Além disso, alguns desses filmes ratificam a idealização de alguns personagens, como se eles não fossem de “carne e osso”. É frequente a noção de que filmes
históricos devem “mostrar fielmente” os fatos, como se isso fosse possível. Contar uma história no cinema é sempre uma aventura ficcional, mesmo que seja um documentário. É inevitável que o diretor, assim como toda a equipe de produção, dê a sua própria interpretação dos fatos. A arte é sempre subjetiva! Mas isso não invalida que se promova a reflexão a partir dos filmes ou da literatura.

Há outros filmes de ficção que não se propõem a remontar um fato ou personagem. Nessas histórias, a ditadura militar é pano de fundo ou coadjuvante da história central, dando mais liberdade aos personagens e permitindo que a memória afetiva aflore. É o caso do excelente O Ano em que meus pais saíram de Férias (2006, Cao Hamburger), cuja narrativa foi construída a partir de memórias pessoais do diretor. O tema central é o garoto de 10 anos que vê seus pais sumirem, por perseguição
política, bem no momento ansiado da copa de 1970. A perspectiva da criança torna a trama mais divertida e mais leve, amenizando um pouco a abordagem de um tema tão difícil.

Um filme bastante instigante e que foi pouco visto no cinema (disponível em DVD) é Corpo (2007, de Rubens Rewald e Rossana Foglia). Um médico legista investiga se o corpo que chegou ao IML é de uma ex-militante de esquerda que teria sido morta sob tortura. O espectador fica o tempo todo na dúvida se o médico está delirando ou não. A questão que se coloca é: enterramos nossos mortos ou não? Prosseguimos na investigação, por mais dura que ela seja, ou fingimos que nada aconteceu?

Outro filme recente que trata com bom humor esse período é Cara ou Coroa (2012, de Ugo Giorgetti), passado na São Paulo de 1971. O filme evita o maniqueísmo mostrando pessoas comuns que de alguma forma se solidarizavam com a resistência política. E, mesmo reconhecendo que eram tempos duros, as lembranças são boas porque “era a época da nossa juventude e é sempre bom ser jovem”!

Uma opção muito criativa foi o longa de animação escrita e dirigida por Luiz Bolognesi Uma História de amor e Fúria (2013). Trata-se de uma História do Brasil contada pelos vencidos a partir de quatro episódios. Um deles se passa no Rio de Janeiro, em 1968, quando os protagonistas são militantes de uma organização armada, que assalta bancos para financiar a resistência. Em alguns minutos a animação discute o idealismo dos jovens nesse período, a tortura e a humilhação decorrente dela. Um filme forte, com linguagem muito familiar para os jovens estudantes.

Hoje, de Tata Amaral

Outra produção recentíssima e muito feliz é Hoje (2013, de Tata Amaral). Uma mulher (interpretada brilhantemente por Denise Fraga) compra um apartamento com o dinheiro que recebe da indenização do Estado pelo desaparecimento de seu marido, militante na época da ditadura. Na mudança, o fantasma do marido aparece e ela revive muitos sentimentos confusos, de amor e ódio daquela fase. O filme é fragmentado como é a nossa memória. Mesclam-se seu sentimento de culpa por ser uma sobrevivente com o desejo de virar a página.

Além de conhecer a história recente do Brasil, é fundamental que as escolas promovam reflexões sobre a importância de uma sociedade democrática, com ampla liberdade política, de forma
que não se permita que o autoritarismo de Estado volte a acontecer em nosso país. A própria instauração da Comissão da Verdade, para apurar os acontecimentos desses tempos e escrever melhor esta História pode ser um gancho interessante para educadores trazerem o assunto à tona nas escolas, pois o assunto voltou à mídia. O cinema tem muito a dizer sobre essa
fase nebulosa da História do Brasil.

"Artigo escrito e publicado no Portal NET Educação: www.neteducacao.com.br"


Um comentário:

  1. Na época dirigi NAVALHA NA CARNE, o 1º, com Glauce Rocha, Jece Valadão e Emiliano Querizo e o filme ficou preso na censura, tive que redublar algumas partes.
    O Plínio insistiu comigo para fazer ABAJUR LILÁS, que seria um filme sobre e mostrando a tortura. Não encontrei produtores. Uma pena.

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