A Perspectiva Indígena no Cinema

13.04.2016
Elaboração: Profª Drª Cláudia Mogadouro

Alguns filmes fogem do estereótipo tão batido da excentricidade
e da idealização da cultura indígena.


Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

(Oswald de Andrade)

Oswald de Andrade faz uma brincadeira poética imaginando o que seria do Brasil se tivesse prevalecido a perspectiva do índio. Assim como acontece com outras representações, os brasileiros internalizaram a imagem estereotipada do indígena, mostrada na literatura e no cinema na perspectiva do homem branco civilizado. 

O western ou faroeste é um gênero do cinema norte-americano – até hoje bem popular – que reforçou o imaginário dos índios como vilões e os cowboys como os heróis. Mas não apenas os estadunidenses olham para os nativos da América de forma equivocada. O filme britânico A Missão (Roland Joffé, 1986) foi muito premiado no mundo todo e apresenta indiscutíveis qualidades plásticas, além de trilha sonora maravilhosa. Mas é um filme que valoriza a aculturação promovida pelos jesuítas, que são os heróis da história. Para o filme, os jesuítas tiveram o mérito de ensinar aos índios primitivos a alta cultura europeia. O filme obviamente critica o massacre promovido pelos bandeirantes, a mando dos europeus, porém ao final do filme, a indiazinha sobrevivente salva um violino. Por que não um tambor? 

No cinema brasileiro, os indígenas sempre foram representados de forma preconceituosa: como bárbaros ou como ingênuos, até mesmo no tempo do cinema mudo. As mulheres indígenas são mostradas com uma sensualidade deslocada de sua cultura, de forma moralista. Os cinejornais são um exemplo disso, valorizando todas as ações “civilizatórias” dos militares que marcaram presença nas terras indígenas e dos religiosos que os vestiram e os catequizaram. Não é difícil entender o porquê dessa visão. Em que momento histórico esses filmes foram produzidos e quem os produzia? É interessante contextualizar historicamente as linguagens artísticas, porque elas expressam o debate de um certo período. Parte do movimento literário romântico do Século XIX é chamada de indianista, pois coloca o índio como símbolo, como ancestral comum do povo brasileiro. 

Trata-se de um período de busca de uma identidade brasileira que vai culminar com a ideia de progresso, na perspectiva positivista. Já no século XX, outro movimento literário – o modernismo – inverte essa perspectiva. A Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade representam um dos pontos altos do movimento que vai buscar uma “língua literária não catequizada”. O romance Macunaíma de Mário de Andrade (escrito no final da década de 1920 e relido nos anos 1960 pelo cinema novo) é outra obra fundamental do movimento modernista, que transgride a visão idílica do romantismo.

Sílvio Back, cineasta pesquisador, realizou uma ótima colagem de dezenas de filmes com a imagem do índio que resultou no documentário Yndio do Brasil (1995). O filme está disponível na internet e em DVD e ele, por si só, já suscita muitos debates sobre como o cinema ajudou a cristalizar o preconceito com a cultura indígena no Brasil. 

Nos anos 1970 dois filmes que envolvem a temática indígena merecem ser conhecidos (e não são, como alguns pensam, pornochanchadas): Como era Gostoso meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos (1971) e Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna (1976). 

Como era Gostoso meu Francês se baseia na história de Hans Staden (só que neste filme o estrangeiro é francês), tem diálogos em tupi, escritos por Humberto Mauro. O filme que é bastante irreverente faz um diálogo irônico com os cinejornais e com o cinema mudo, apresentando cartelas de informações sobre a colonização portuguesa (professores de História: excelente oportunidade para uma visão crítica da historiografia). Ana Maria Magalhães se destaca como a protagonista indígena, papel que lhe rendeu diversos prêmios. A história de Hans Staden também foi filmada anos depois (1999) por Luiz Alberto Pereira, obra também quase toda falada em tupi, mas sem a mesma ironia.

Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é uma coprodução Brasil/Alemanha, que discute a exploração e prostituição dos indígenas. O filme foi filmado em 1976, mas a censura só o liberou no Brasil em 1981. Hoje é considerado um marco do cinema brasileiro, porque é um misto de documentário e ficção, tendência que fez escola no Brasil. Neste caso, a representação de Iracema, o mesmo nome da romântica personagem de José de Alencar, é de uma jovem (menor de idade) que cai na prostituição. Como tantos outras, a obra mostra a crueza da invasão dos ditos civilizados nas terras indígenas. No caso, a Transamazônica é a concretização desta invasão. 

O filme Iracema – Uma Transa Amazônica, embora seja uma obra que faz a crítica pela sátira, traz uma discussão muito importante que é a hibridização das culturas. A imagem do indígena é cultuada como se a etnia permanecesse por séculos com os mesmos hábitos e parados no tempo. A civilização indígena foi totalmente aviltada pelos europeus. Além de massacrados, os sobreviventes foram escravizados e forçosamente integrados à civilização branca, capitalista e urbana. A eles não sobrou outra alternativa a não ser se render à vida urbana. Então, por que há espanto quando se vê um índio com um computador, com uma filmadora ou com um celular? Eles não deixam de ser indígenas porque não estão nus ou pintados ou porque portam um celular.

A minissérie A Invenção do Brasil, dirigida por Guel Arraes, com roteiro do próprio e de Jorge Furtado, foi apresentada pela rede globo no ano de 2000, por ocasião dos 500 anos da chegada de Cabral. Depois, foi transformada em filme com o nome Caramuru - A Invenção do Brasil (2001). Os protagonistas Diogo Álvares Correia (Caramuru) e Paraguaçu são interpretados respectivamente por Selton Mello e Camila Pitanga, que mantém uma relação apimentada pela presença da irmã de Paraguaçu, Moema, interpretada por Deborah Secco. O humor é um caminho muito interessante para se rever criticamente a historiografia tradicional. No caso desta obra, o encontro de culturas é mostrado de forma totalmente inverossímil, com linguagem e trilha sonora contemporâneas. É ótimo, porque fica evidente a paródia. E nem por isso deixa de provocar bons debates para o processo educativo. Por exemplo, a poligamia é mostrada como um dado da cultura indígena. Os educadores podem fazer uma discussão do quanto a moral é uma construção cultural.

Longe do humor, dois filmes realizados pelo cineasta e antropólogo Luiz Bolognesi tratam com muito cuidado e profundidade a questão indígena. Em Terra Vermelha (2008), cuja direção é do cineasta ítalo-chileno Marco Bechis (o roteiro é de Bolognesi, Bechis e Lara Fremder), estão presentes os conflitos de terra vividos pelos índios Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. O filme é uma ficção, baseada em fatos reais, com força talvez maior que de um documentário. Também é abordado o fenômeno do suicídio entre os indígenas Guarani Kaiowá. Em 2014, o líder Guarani Kaiowá Ambrósio Vilhalva, que interpreta o protagonista Nádio, foi assassinado. Luiz Bolognesi deu uma entrevista indignado com o silêncio da mídia no que tange as questões indígenas, acusando a mídia de ser cúmplice da exterminação indígena, por omissão. A entrevista muito esclarecedora está no link: 

O outro filme é a animação, voltada para jovens e adultos, Uma História de Amor e Fúria (2013), escrita e dirigida por Luiz Bolognesi. Este filme aborda alguns episódios da história do Brasil, sempre na perspectiva dos vencidos e a estrutura da história é baseada numa mitologia indígena. O personagem central, o índio Abeguar, atravessa todos os episódios, assumindo outros personagens que lutam o tempo inteiro contra Anhangá, o espírito do mal. O plano de aula desta animação está aqui

Para as crianças, há alguns filmes, como a série Tainá, que mostram uma visão um tanto ingênua sobre a cultura indígena, o que não impede dele ser exibido seguido de um debate. A mediação pode problematizar essa visão redutora que se tem sobre o tema e, sem precisar caracterizar os índios como heróis, mostrar o quanto os indígenas viviam (e, se puderem, ainda vivem) em absoluta integração com a natureza. Plano de aula para o filme Tainá 3 – A Origem.

Um filme brasileiro recente que, infelizmente, predomina a perspectiva do branco e não do índio é Xingu, de Cao Hamburger. O filme conta a história dos Irmãos Villas-Bôas que viveram por muitos anos entre os índios e lutaram pela criação do Parque Nacional do Xingu. Talvez por querer resumir uma longa história, o filme peca por não se aprofundar no entrecruzamento das culturas que foi tão rico nesta experiência. Mas ainda assim ele pode ser usado pelos educadores, pois traz a história dos três indigenistas e a mediação pode ajudar a desenvolver uma leitura crítica do audiovisual. 

Um excelente documentário para se compreender essa comunhão com a natureza e a herança que tivemos dessa cultura é o episódio Matriz Tupi, da obra O Povo Brasileiro, de Isa Grispum Ferraz, baseada na obra homônima de Darcy Ribeiro. Também há o plano de aula para este episódio.

Os filmes já citados de Jorge Bodanzky, de Luiz Bolognesi e, ainda, o filme Serras da Desordem, de Andrea Tonacci (2006, disponível na internet) formam um conjunto de filmes muito críticos que fogem do estereótipo do índio “puro, ingênuo ou bárbaro”. São filmes que abordam a hibridização das culturas e o quanto os indígenas não pararam no tempo, não estão em 1500 e nem precisam do dia 19 de abril para se falar deles. Eles existem em grande quantidade na nossa sociedade e não estão apenas nas reservas indígenas, mas também nas cidades e no trabalho dos campos, o que não significa que eles perderam sua identidade indígena. A identidade cultural é construída de várias formas, não apenas na roupa, ou na falta dela. E se transforma o tempo todo. Ao mesmo tempo que esta visão “exótica” do índio ajuda a mantê-lo marginalizado na sociedade, há certo preconceito quando se vê um índio usando um telefone celular ou uma filmadora. Por quê? Várias tribos pelo Brasil afora têm usado a produção audiovisual como registro de sua cultura e como denúncia dos abusos que são cometidos contra sua etnia. Com o barateamento dos equipamentos audiovisuais, a produção audiovisual entre eles aumentou muito, sendo que já existem muitos cineastas indígenas consagrados. O site http://www.videonasaldeias.org.br/2009/ mostra essa produção. 

Recentemente chegou aos cinemas o filme do diretor colombiano Ciro Guerra – O Abraço da Serpente (2015). A produção colombiana/venezuelana e argentina foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de uma ficção ousada e muito profunda, com fotografia em P&B, baseada na visita de dois pesquisadores brancos na selva amazônica, em momentos históricos diferentes. Mas a perspectiva do filme é a do índio e, mesmo que situe historicamente os eventos, trata de todo o processo de colonização e exploração dos últimos séculos, em todo o continente americano. Filme que merece ser visto e revisto. 

"Artigo escrito e publicado no Portal NET Educação: www.neteducacao.com.br"


Um comentário:

  1. Caríssima Cláudia, tudo bem?

    Li o seu artigo. Parabéns!

    Lembrei-me da exposição sobre a Amazônia realizada no Sesc Itaquera, em que havia depoimentos de vários representantes de tribos indígenas, e um em especial me chamou a atenção: o índio comentou mais ou menos assim:

    "Quando o branco brasileiro veste uma camiseta com palavras estrangeiras, ninguém se importa; mas quando o índio veste uma roupa todos ficam escandalizados. O branco brasileiro não deixa de ser brasileiro por usar aquela camiseta, e o índio não deixa de ser índio por usar roupa."

    Em São Paulo nós temos a ideia de que índio é algo distante, "coisa da Amazônia", mas não é bem assim: existe uma pequena aldeia indígena na região Oeste, próxima ao Pico do Jaraguá. Além disso, descobri por acaso que há outra aldeia na região sul:

    Há alguns anos, estive com minha esposa no extremo sul da cidade de São Paulo, a dezenas e dezenas de quilômetros de distância da Praça da Sé, e é uma região praticamente desconhecida para quem mora nas áreas mais centrais: circulação através de balsa em certas áreas, praias de água doce na beira da represa, onde as pessoas tomam banho e fazem churrasco, extensas plantações de pinheiros para serem vendidos como "árvores de natal", uma depressão de cerca de 3,5 km de diâmetro, agora um bairro residencial, que é na verdade uma cratera feita pelo impacto de um grande meteoro que atingiu aquela região há cerca de 20 milhões de anos. Por fim, encontramos uma pequena aldeia indígena (com posto da Funai e tudo!?!). Infelizmente, não pudemos entrar na aldeia, mas a cultura indígena não está tão longe de nós quanto pensamos...

    Voltando ao artigo, também gostei bastante da seleção de filmes sobre o tema. Conhecia muitos deles, outros não. São boas sugestões para futuras sessões de cinema. Aliás, o Grupo já discutiu algum filme com essa temática?

    Por fim, só não consideraria, stritu sensu, uma "civilização indígena", pois a palavra civilização deriva do latim "civitas" (que significa cidade), e nossos agrupamentos indígenas não poderiam ser classificados como cidades. Prefiro entender a questão num contexto de "cultura indígena".

    É isso. Mais uma vez, parabéns pelo artigo!


    Bjs,


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