Merry Chritmas, Carol.

06.04.2016
por Marcos Eça


Quase dois meses e meio após a estreia do filme Carol (Reino Unido/ Estados Unidos, 2015, 118min) nos cinemas brasileiros, decido escrever essa crítica sobre ele. Tal fato se deu porque após ter visto esse longa fiquei fascinado pela linguagem cinematográfica de Todd Haynes (Encino/ Los Angeles, 1961), diretor do filme. Ao longo desse tempo consegui ver quase toda sua obra em DVD. Às vezes, nos questionamos sobre os bons diretores de cinema da atualidade e frequentemente ouve-se que os diretores dos anos 50, 60, 70 eram melhores, mas – apesar de eu admirar a obra da maioria desses diretores – para mim Todd Haynes pode ser comparado a eles por ser um dos mais interessantes estetas da atualidade. Em seus filmes os temas abordados são atuais - apesar de frequentemente dirigir seu olhar para o passado, especialmente para os anos 50 - e a forma cuidadosa de tratá-los configura sua maestria. Talvez Longe do Paraíso (Far from heaven, 2002) e Não estou lá (I´m not there, 2007) sejam seus filmes mais conhecidos no Brasil além de Carol, é claro. Mas ele também dirigiu Veneno (Poison, 1991), Mal do Século (Safe, 1995), Velvet Goldmine (1998) e o seriado Mildred Pierce (2001), dentre outros. O longa Carol é baseado no livro semi autobiográfico O preço do sal da escritora Patricia Highsmith. Na época de seu lançamento, 1952, ela teve de usar o pseudônimo Claire Morgan uma vez que narra o encontro amoroso entre duas mulheres. Vale dizer que Highsmith é autora também do livro Pacto Sinistro, adaptado por Hitchcook e escreveu a série O Talentoso Ripley que pudemos ver nas telas dos cinemas.

O filme Carol foi exibido inicialmente no Festival de Cannes de 2015, onde Rooney Mara recebeu o prêmio de melhor atriz. 
Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) são apresentadas conversando em um restaurante. A cena é sofisticada e elegante porque ambas são requintadas e donas de si. Carol ao se despedir pousa sua mão sobre um dos ombros de Therese, demonstrando de forma contida seu afeto. Gestos de afetividade como esse serão expressos por elas em várias cenas do longa, isto é, o amor se dará de forma abafada por viverem em uma sociedade norte-americana conservadora. Esta é uma época constante nos filmes de Haynes, basta recordarmos Longe do Paraíso, onde uma mulher descobre que seu marido é gay, mas, ao se aproximar afetivamente de seu jardineiro negro, é hostilizada. A meu ver, Haynes talvez se volte para o passado para entender o momento presente da sociedade norte-americana e do mundo conservador no qual vivemos.


Voltando a Carol, aberto o filme com essa cena do restaurante, Therese encontra-se em um automóvel e por meio do vidro molhado/ embaçado, volta no tempo, regressa para as vésperas do Natal, quando conheceu Carol. Importante dizer que nos filmes de Haynes não há pressa. Therese trabalha em uma loja de departamentos na sessão de brinquedos. E tem um namorado que foi o responsável por ter-lhe conseguido esse emprego, apesar disso ele tem um papel fraco em sua vida. Carol chega a essa seção para comprar uma boneca para sua filha de 5 anos, até que ambas cruzam seus olhares de forma intensa. O trabalho de interpretação de Cate Blanchett é excelente dado que sua gesticulação e olhares são precisos sem serem mecânicos, ela consegue lidar com as emoções de forma apurada e certeira. Blanchett já trabalhara com Haynes em Não estou lá, interpretando Bob Dylan, em uma biografia nada linear e cheia de dobraduras, onde outros atores também interpretam momentos e acontecimentos diversos da vida desse músico. Tanto Blanchett quanto Mara estão incríveis em seus papeis. Todd Haynes parece escolher excelentes atores e consegue dirigi-los de forma primorosa em seus filmes, como realizou em obras anteriores com Julianne Moore, Kate Winslet, Ewan McGregor, Christian Bale e Heath Ledger. 

Retornando ao momento na sessão de brinquedos, Carol esquece (intencionalmente?) suas luvas sobre o balcão de vendas de Therese. Esta consegue devolvê-las e acaba sendo convidada para almoçar com Carol. No início desse encontro, há certa timidez de Therese, que muitas vezes dirige seu olhar para baixo; ainda não temos aquela mulher da cena de abertura do filme. Já Carol é segura, esbanja sua elegância e fuma nos mais diversos momentos do filme como um ato de libertação, lembrando que ela deve ter uns 15 anos a mais que Therese. 

A passagem de Therese de garota a mulher é mostrada de forma muito bela no filme. Essa transição se dá paulatina, sensível e contidamente. Importante esclarecer que não se trata de um filme onde há uma jovem inocente e uma mulher linda e rica que a seduz. Há um amadurecimento de Therese, mas há ademais uma troca total entre as duas. E isto faz o filme ser sensível e belo. Na realidade, Carol permite que Therese descubra o amor como também passe a ter um olhar crítico em relação ao que está a seu redor, especialmente porque essa jovem deseja ser uma fotógrafa profissional. 

De fato, Carol era uma mulher de vanguarda que estava se divorciando de seu marido, um homem rico e bem-sucedido. Apesar da aparente segurança, o processo da separação está muito tenso, pois seu marido pretende impedir que Carol fique com a guarda da filha. Mais tarde ele a ameaça de nem sequer poder ver a filha, por falta de estrutura moral. Para ele, sua esposa era sua propriedade, o que representa a visão tradicionalmente machista de mundo. Esse homem parece ser manipulado por sua mãe que joga o jogo das aparências. Digo isso porque, nas cenas em que a (ex)-sogra de Carol aparece, ela se mostra controladora em relação ao que está acontecendo. Apesar dessa situação complicada, Carol, no julgamento onde decidem o futuro de sua filha, mostra-se madura e pensa no bem-estar de todos os envolvidos na situação, especialmente no bem-estar da menina.

Em Carol, como em seus filmes anteriores, encontramos questões referentes ao preconceito, à sexualidade, à opressão, à liberdade e às descobertas. Alguns criticam o fato do filme ser linear dado que narra o romance das duas personagens sem muitos ires e vires, porém não vejo problema nessa questão, uma vez que tudo é tão bem realizado, que há outros elementos que se sobrepõem a essa linearidade. Por exemplo, posso mencionar alguns aspectos técnicos que indicam um trabalho de esteta de Haynes. O primeiro deles é o figurino impecável dado que a atmosfera chique dos anos 50 é representada por casacos de pele, chapéus, carros, champanhe e cigarro, nos proporcionando um prazer visual inenarrável (não me deslumbro ao dizer isso, apenas valorizo a estética do filme). Além disso, há um perfeccionismo na ambientação. Haynes atribui isto a muito trabalho de pesquisa de uma equipe competente. Concordo com ele, mas sabemos que seu olhar é fundamental em todas as escolhas que ele e sua equipe realizam. O filme foi rodado em película de 16mm o que tem um duplo aspecto: nos remete aos anos 50 por meio de um granulado visto na tela, como também traz a paixão pela fotografia de Therese. Outro grande destaque é a trilha sonora de Carter Burwell onde o piano nos agracia durante as quase duas horas de filme. 

Enfim, o mundo construído por Haynes tem muitas sutilezas, onde um simples olhar ou toque são significativos. Carol é um filme que aborda as dificuldades do amor entre duas mulheres como também a afirmação de suas identidades e de sua independência. Na realidade, ao ver esse longa-metragem nos damos conta de como as sociedades humanas são hipócritas e mesquinhas quando se trata do amor de pessoas do mesmo sexo. Questão ainda atual para os dias de hoje, onde quer que estejamos.

P.S.: o longa-metragem poderá ser visto em DVD, que se encontra em pré-venda, ou online nos mais diversos sites: http://www.filmplayhd.com/carol-hd/

2 comentários:

  1. Ótima reflexão Marcos. Li o livro, depois vi o filme. O diretor realmente conseguiu trazer à tela a profundidade do livro. A música nos transporta...as imagens fascinam.

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    1. Obrigado pelo elogio. Também adoro a trilha e a fotografia é incrível. Olha onde o Todd Haynes foi buscar inspiração: http://www.newstatesman.com/culture/art-design/2015/11/behind-carol-photographers-who-influenced-todd-haynes-award-winning-film

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