Big Jato: um caso de poesia

30.06.2016
por Marcos Eça

“...a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.”

A Incapacidade de ser verdadeiro de Carlos Drummond de Andrade


“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino 

que carregava água na peneira.”

O menino que carregava água na peneira de Manoel de Barros


Big Jato (2015, 93 min) é o mais recente longa-metragem do diretor pernambucano Cláudio Assis, adaptado do romance homônimo autobiográfico do jornalista Xico Sá. Este longa é menos provocativo do que seus filmes anteriores: Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011). A meu ver, o fato de Cláudio Assis estar mais ameno neste filme aponta para certa “serenidade” que alguns diretores alcançam ao avançarem em sua carreira. Digo isto porque me lembro dos primeiros filmes de Pedro Almodóvar, especialmente Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980) em que há um provocar, um deboche, um escárnio, que eram necessários em um primeiro momento para o diretor espanhol, mas ao longo de sua obra foi suavizando-se e tornando-se cada vez mais poesia. Talvez por esta razão, a poesia é um elemento que brota diversas vezes em Big Jato.

Big Jato é o nome de um caminhão pipa utilizado para limpar as fossas das moradias sem saneamento básico da Chapada do Araripe (região entre Piauí, Ceará e Pernambuco). Há uma certa comicidade neste fato, às vezes trágica, que permeia o filme em vários momentos ao falar dos dejetos orgânicos dos seres humanos. 

Para mim há três (um?) protagonistas no filme: Xico (Rafael Nicácio), Francisco (Matheus Nachtergaele) e Nelson (também protagonizado por Matheus Nachtergaele em um belíssimo trabalho de interpretação, tanto como pai quanto como tio de Xico) que se distanciam e se complementam como as pessoas em suas contradições diárias. Ao mesmo tempo, os três personagens são um, por meio de Xico, o jovem pré-adolescente que começa a descobrir o mundo e que seria a simbiose de Francisco e Nelson. Este garoto circula pelos espaços físicos e etários do povoado (fictício) onde mora, chamado Peixe da Pedra. Ao longo do filme, o jovem aproxima-se dos dilemas da vida adulta de várias maneiras: acompanha seu pai nos trabalhos do limpa fossa Big Jato, ouve as queixas de sua mãe (a excelente Marcélia Cartaxo), relaciona-se com seus dois irmãos e sua irmã, apaixona-se pela primeira vez por uma jovem vinda da capital Recife e recita versos de Camões para ela via um programa de rádio local, além de iniciar sua vida sexual em um prostíbulo da cidade, levado por seu pai. Nesta trajetória, seu desejo de escrever poesia e de ser poeta. Como no rito de passagem do filme Ponto Zero (José Pedro Goulart, 2015), as diversas vivências de Xico são trazidas para refletirmos sobre a juventude, suas inquietações, o machismo prevalecente, preconceitos, iniciações, descobertas, desejos, desilusões...

O pai de Xico é um homem carinhoso, bronco, machista e autoritário, especialmente quando bebe, momento em que se torna bastante agressivo. O contraponto desse pai é seu tio Nelson: libertário, progressista, amante da arte, do ócio e locutor de uma rádio de Peixe da Pedra. Nelson é fascinado pela banda Os Betos que, segundo ele, foram plagiados pelos Beatles (fato que teria sido encoberto pela imprensa mundial). Piadas como esta tornam o filme leve e reflexivo – cujo hit mais famoso é "Let It Lie", fazendo parte do imaginário poético de Xico. Esse tio é quem lhe presenteia uma máquina de escrever para que realize o sonho de ser poeta. O contraponto entre o pai e o tio, para mim, é complementar e algo recorrente no filme.


Além do pai e do tio, Xico se relaciona com seu irmão George, que exige que pronunciem seu nome à moda dos Beatles, porém Xico o pronuncia como o falamos em bom tupiniquês. Ambos os irmãos são meio gato e rato, como em muitos relacionamentos de irmãos mais jovens, especialmente porque George é totalmente ligado aos números, bradando que "matemática dá dinheiro, poesia só calo na tua imaginação". Os dois ao serem tão opostos, acabam sendo também complementares. Há ainda o outro irmão, David, que, por ser delicado, segundo a visão de seu pai, acaba ouvindo diversos comentários homofóbicos. A sensibilidade de David é algo que também complementa a forma de ver a vida de Xico. Ainda há sua mãe, uma mulher que vende perfumes (outra oposição, pois seu marido limpa fossas, enquanto ela vende o que produz cheiros agradáveis) para aumentar a renda familiar e a família poder sobreviver quando os serviços de fossas começam a diminuir devido ao surgimento das redes de esgotos. Neste momento, o patriarca da família fica praticamente sem trabalho e entra numa espécie de estado catatônico. 

No povoado de Peixe da Pedra circula, ainda, um homem conhecido como o Príncipe (Jards Macalé) que é tido como louco, pirotécnico, filósofo e poeta. É ele que introduz os elementos filosóficos e amorosos na vida de Xico, durante as longas conversas travadas entre ambos. Dialogando com essa poesia, vemos no filme paisagens grandiosas da região do agreste e uma palheta de cores da natureza, remetendo-nos à literatura realista fantástica em que sonho e realidade se misturam no mesmo espaço. Estas imagens oníricas e poéticas me fazem lembrar dos escritos do poeta Manoel de Barros descrevendo a simplicidade e a sofisticação do cotidiano.

Big Jato foi premiado no Festival de Brasília em 2015 como melhor filme, ator (Matheus Nachtergaele), atriz (Marcélia Cartaxo), roteiro (Anna Carolina Francisco e Hilton Lacerda) e trilha sonora (DJ Dolores). Cláudio Assis afirmou que "...o cinema está careta. A gente tem que tentar. Ou reage ou rasteja. A arte é feita para provocar, pensar, contribuir para uma mudança." Essa fala me permite afirmar que em Big Jato o ato de criar, imaginar, libertar-se, tornar-se poeta e poetizar em nossa sociedade contemporânea e tão paradoxal é fundamental. No filme, as relações antagônicas e complementares, como a de Francisco (pai) com Xico (filho/sobrinho) com Nelson (tio), a de Xico (irmão) com George (irmão), a de Francisco (marido) com a esposa, a da fossa (o que fede) com os perfumes (o que produz bom odor) são antagonismos complementares que fazem parte de nossa vida cotidiana, assim como a poesia. Desde que assim o desejemos, é claro.

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