O Cinema Brasileiro pós-retomada - Os Anos 2000

28.07.2016
por João Moris

Etty Fraser em Durval Discos, de Anna Muylaert (2002)

Com o desmantelamento da Embrafilme e a morte anunciada do cinema nacional no início dos anos 1990 durante o governo Collor, os filmes brasileiros e seus diversos públicos praticamente desapareceram. Durante a chamada retomada do cinema brasileiro, a partir da segunda metade daquela década, as produções nacionais que surgiram passaram a retratar mais a fundo o Brasil, que se encontrava em franca expansão neoliberal e tecnológica, com o advento da internet.

Filmes independentes que marcaram a retomada, como Carlota Joaquina (1995) de Carla Camurati, Lamarca (1995) de Sérgio Rezende, Sábado (1995) e Boleiros (1998) de Ugo Giorgetti, Terra Estrangeira (1996) e Central do Brasil (1998) de Walter Salles, Um Céu de Estrelas (1996) de Tata Amaral, Os Matadores (1997) e Ação Entre Amigos (1998) de Beto Brant, Dois Córregos (1999) de Carlos Reinchenbach, além do documentário Santo Forte (1999) de Eduardo Coutinho, refletiam a urgência de tratar de temas que eram prementes e calavam fundo no país pós-redemocratização, tais como os bastidores da ditadura, o exílio, a violência urbana e o resgate da nossa própria história, sempre omitida ou mal contada. Apesar da importância desses diretores e do sucesso de seus filmes entre uma parcela do público, eles estavam longe de ter o grande alcance desfrutado pelo cinema nacional em décadas anteriores, principalmente entre os anos 1950 e 1970.

Blockbusters Brasileiros 

A partir dos anos 2000, o Brasil passa a produzir seus blockbusters com a ascensão da Globo Filmes, que estrategicamente transportou para o cinema a estética televisiva das novelas e minisséries da Rede Globo, trazendo aos cinemas um público ávido por ver seus ídolos da TV na tela grande. Filmes como O Auto da Compadecida (2000) e Lisbela e o Prisioneiro (2003), ambos dirigidos por Guel Arraes, ou Os Normais (2003) de José Alvarenga Junior e Sexo, Amor e Traição (2004) de Jorge Fernando, tiveram grande sucesso comercial e foram os embriões de várias comédias “globais” de apelo fácil e pouca criatividade que viriam nos anos seguintes e se estendem até os dias atuais. Este gênero de filme, respaldado pela TV Globo e pela Lei Rouanet, tem o potencial de arrastar milhões de espectadores aos cinemas, números que poucos filmes brasileiros conseguem alcançar atualmente.

Outra vertente popular do cinema brasileiro a partir do início deste século é o chamado favela movie, que mistura ação policial, guerra ao tráfico e violência, em produções caprichadas que tendem a espetacularizar a miséria e o cotidiano das favelas, usando narrativa realista e tratamento estilizado da forma. Cidade de Deus (2002) dirigido por Fernando Meirelles, fundador da prestigiada produtora O2 Filmes, inaugurou este gênero, que caiu no gosto do público. Outros dois filmes polêmicos dentro deste gênero, dirigidos por José Padilha e de grande sucesso no Brasil, foram Tropa de Elite (2007) e sua continuação Tropa de Elite 2 (2010), a maior bilheteria do cinema nacional até hoje, com 11 milhões de espectadores, desbancando o recorde de 10.3 milhões de espectadores que assistiram à versão cinematográfica do livro de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigida por Bruno Barreto.

Um filme brasileiro importante lançado no começo do século, de grande sucesso comercial e que foge da estética do blockbuster e do favela movie, foi Carandiru (2003), dirigido pelo veterano Hector Babenco, falecido recentemente. O filme narra a dura realidade dos presídios do país, que culminou com o massacre de 111 presos pela polícia de São Paulo na Casa de Detenção do Carandiru em 1992. O filme teve a façanha de levar quase 5 milhões de espectadores aos cinemas na época do seu lançamento!

Gero Camilo, Rodrigo Santoro e Luiz Carlos Vasconcelos em Carandiru, de Héctor Babenco (2003)

Guinada 

Na busca pela renovação da linguagem e na esteira das novas tecnologias, o cinema brasileiro felizmente vem trilhando vários caminhos alternativos, ampliando o leque de gêneros e tentando trazer outros tipos de público aos cinemas, de gosto mais apurado e ansioso por novas experiências. 

A verdadeira guinada do cinema nacional na primeira década dos anos 2000 se deu com filmes de diretores autorais, que buscaram novos discursos e narrativas dentro da linguagem cinematográfica. As obras destes diretores refletem a perplexidade, o desconforto, o estranhamento e a insegurança que permeiam o Brasil contemporâneo e algumas tocam fundo nas nossas feridas sociais. 

Entre os diretores que se destacaram nos primeiros anos do século, alguns com filmes de grande qualidade e relevância para o cinema brasileiro pós-retomada, encontram-se: 

Alexandre Stockler – Cama de Gato (2002)
Anna Muylaert - Durval Discos (2002), É Proibido Fumar (2010)
Beto Brant - O Invasor (2002), Crime Delicado (2005)
Breno Silveira – 2 Filhos de Francisco (2005), Era Uma Vez... (2008)
Cao Hamburger – Castelo Rá Tim Bum, o Filme (2000), O Ano Que Meus Pais Sairam de Férias (2006)
Eliane Caffe – Narradores de Javé (2003), O Sol do Meio Dia (2010)
Heitor Dhalia – Nina (2004), O Cheiro do Ralo (2006)
Jorge Durán – Proibido Proibir (2006), Não Se Pode Viver Sem Amor (2010)
Jorge Furtado – Houve uma Vez Dois Verões (2002), O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou um Cara (2004)
Karim Ainouz - Madame Satã (2001), O Céu de Suely (2006)
Laís Bodansky – Bicho de Sete Cabeças (2001), Chega de Saudade (2007)
Lucia Murat - Quase Dois Irmãos (2004), Maré, Nossa História de Amor (2007)
Luiz Fernando Carvalho – Lavoura Arcaica (2001), A Pedra do Reino (2007 – minissérie)
Marcelo Masagão – 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2003), Otávio e as Letras (2007)
Marcos Jorge - Estômago (2007), Corpos Celestes (2010)
Monique Gardenberg – Benjamin (2003), Ó Pai, Ó (2007)
Philippe Barcinski – Palíndromo (2001 – curta), A Janela Aberta (2003 – curta), A Cidade dos Homens (2005 – minissérie), Não Por Acaso (2007)
Ricardo Elias – De Passagem (2003), Os 12 Trabalhos (2006)
Sandra Kogut – Um Passaporte Húngaro (2001), Mutum (2007)
Sandra Werneck – Cazuza, o Tempo Não Para (2004), Sonhos Roubados (2009)
Sérgio Bianchi – Cronicamente Inviável (2000), Quanto Vale ou é por Quilo (2005)
Sérgio Machado - Cidade Baixa (2005), Quincas Berro D’Água (2010)
Tata Amaral – Através da Janela (2000), Antônia (2006)
Toni Venturi – Cabra-Cega (2004), Estamos Juntos (2010)

Leonardo Medeiros e Débora Duboc em Cabra Cega, de Toni Venturi (2005)

Esses diretores hoje gozam de boa reputação entre o público que aprecia filmes menos comerciais e mais críticos ou reflexivos. Seus filmes levam em média de 20 a 30 mil espectadores aos cinemas, número considerado muito bom para a indústria nacional. 

No desenvolvimento do cinema brasileiro neste século, cabe destacar o trabalho surpreendente desenvolvido nos últimos anos pelos diretores do chamado Polo Pernambucano de Cinema: Kleber Mendonça, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes, Claudio Assis, Gabriel Mascaro, Hilton Lacerda, Camilo Cavalcante, entre outros. As obras destes cineastas, de estilo irreverente e marcante, vêm trazendo frescor e ousadia ao cinema nacional, contribuindo para a sua diversidade e potencial transformador. Irei abordar as obras destes cineastas em outro artigo, a ser publicado posteriormente. 

Cinema Documental 

É preciso citar, ainda, a multiplicidade de documentários brasileiros (curtas, médias e longas metragens) surgidos nos últimos anos, que se tornaram uma espécie de “selo de qualidade” para o cinema nacional. Um dos maiores gênios do cinema documental brasileiro contemporâneo (Eduardo Coutinho – 1933-2014) é fonte de inspiração para vários documentaristas que hoje nos brindam com filmes de excelente qualidade. 

É certo que o documentário nacional ainda está muito calcado no modo expositivo (de cunho mais jornalístico) ou biográfico, às vezes repetitivo na forma. Mas, a grande vitrine nacional de documentários, o festival É Tudo Verdade, que este ano comemorou sua 21ª edição, tem revelado talentos de todos os cantos do País e tem contribuído significativamente para dar o devido destaque ao documentário como um gênero audiovisual importante para aguçar o olhar crítico sobre a nossa sociedade e o Brasil. Além dos vários documentários de Eduardo Coutinho, que praticamente lançou um filme por ano desde 2000, nos últimos anos foram lançados alguns documentários brasileiros de grande repercussão, entre eles: Chico, Artista Brasileiro (2015), de Miguel Faria Jr, Homem Comum (2014), de Carlos Nader, Sem Pena (2014), de Eugênio Puppo, Mataram Meu Irmão (2013), de Cristiano Burlan, Raul, o Início, o Fim e o Meio (2012) de Walter Carvalho, Uma Noite em 67 (2010), de Renato Terra/Ricardo Calil, Loki, Arnaldo Batista (2009), de Paulo Henrique Fontenelle, Cidadão Boilesen (2009), de Chaim Litewski, O Aborto dos Outros (2009), de Carla Gallo, Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei (2008), de Claudio Manoel/Micael Langer, Caparaó (2006), de Flávio Frederico, Santiago (2006), de João Moreira Salles, Estamira (2005), de Marcos Prado, Aboio (2005), de Marília Rocha, O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), de Paulo Sacramento, À Margem da Imagem (2003), de Evaldo Mocarzel, Ônibus 174 (2002), de José Padilha, entre muitos outros. A maioria destes filmes está disponível gratuitamente na Internet.

Um comentário:

  1. Mais um belo e informativo voo panorâmico sobre o cinema nacional. Espero a sequência.

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