Mãe Só Há Duas

06.08.2016
por João Moris


Como continuar sendo você mesmo quando você perde sua identidade? Este parece ser o eixo principal do novo filme de Anna Muylaert, o provocante e instigante Mãe Só Há Uma

O filme é calcado na figura do adolescente de 17 anos, Pierre (Naomi Nero em excelente atuação), jovem de sexualidade fluida que descobre que foi raptado ao nascer e criado como filho da mulher que o sequestrou. 

Inspirado no famoso caso do roubo do menino Pedrinho ocorrido em uma maternidade de Goiás, o filme habilmente usa esta história para falar de gênero e da juventude atual, sua sexualidade e suas experimentações e como isto afeta as relações familiares. Em essência, este é um filme sobre jovens para adultos. 

A diretora transgride os padrões vigentes ao contrapor os valores de pais da classe média aos valores de jovens que buscam sua identidade e seu lugar num mundo cada vez mais incerto. Assim, Pierre transita entre o masculino e o feminino como um jovem sem sexualidade definida, que gosta de meninos, meninas e afins, que usa cinta-liga para transar com mulheres, que tem um caso com homem, que gosta de pintar as unhas, usar batom e rímel. E de secretamente se admirar no espelho. 

A diretora conta a história sob o ponto de vista de Pierre, de como ele se sente ao saber que foi raptado, uma situação que desaba sobre sua cabeça com toda a complexidade. Existe uma clara intenção da diretora de nos aproximar do universo deste jovem e, por extensão, do universo de uma parcela da juventude atual, expondo o abismo existente entre o mundo da família e o mundo interno e externo de seus filhos adolescentes. 

Os closes e os planos fixos sobre o rosto e principalmente sobre o olhar de Pierre e das pessoas que o cercam acentuam o tom realista do filme. Há momentos em que podemos “sentir” a pele de Pierre com os movimentos generosos da câmera sobre seu corpo. Mas, a diretora imprime certo distanciamento na narrativa, a história é contada de maneira fragmentada com muitas elipses, o que leva imediatamente a um estranhamento. Para algumas pessoas com quem conversei, este tipo de narrativa não dá o envolvimento emocional ou a empatia necessária aos personagens do filme. Para outras, o enredo traz muitas complexidades que não são abarcadas e o filme deixa muitas lacunas e pontas abertas.


Para mim, esse estranhamento é justamente o que me agrada no filme. Nada é definitivo ou binário, assim como a sexualidade do rapaz. A diretora tem o mérito de tirar o foco dos personagens ao redor de Pierre, para se concentrar nos sentimentos do jovem e na reação da sua família biológica, que é conservadora e entra em choque com o comportamento diferente do filho. Gosto da maneira como os personagens no filme são construídos e descontruídos, embora os pais biológicos de Pierre sejam às vezes retratados de maneira um tanto caricatural e exagerada, principalmente a mãe (vivida pela atriz Dani Nefussi em papel duplo da mãe sequestradora e da mãe biológica). 

Outra grande provocação da diretora Anna Muylaert é o título Mãe Só Há Uma, que desagradou a algumas pessoas, mas é uma inversão interessante, pois o filme, na verdade, fala de duas mães. Em debates, a diretora afirma que falar da mãe é como falar da sociedade, pois mãe é tudo. Cita Freud ao dizer que em geral temos duas mães: a da infância e a da adolescência, quando as mães geralmente mudam de atitude e se tornam “outra” para dar conta da passagem dos filhos para a vida adulta. A diretora diz que, consciente ou inconscientemente, as mães têm um papel fundamental em seus filmes. Foi assim em Durval Discos (2002), Chamada a Cobrar (2012) e Que Horas Ela Volta (2015).

Outro jovem que tem um protagonismo importante no filme, é o irmão biológico de Pierre, Joca (em uma atuação muito sensível de Daniel Botelho), que a partir da entrada de Pierre na família fica praticamente invisível aos olhos dos pais e sofre calado. Joca é o primeiro da família biológica que consegue se aproximar de Pierre, ainda que tenha sido criado de uma forma diametralmente oposta à do irmão. 

A diretora contrapõe os mundos em que ambos os adolescentes transitam de forma muito eficiente. O filme mostra que, de certa forma, Joca tem mais dificuldade em lidar com o mundo heteronormativo em que vive do que Pierre, com suas experimentações de gênero. Há cenas que mostram Pierre acariciando as coxas de uma menina dentro da sala de aula, fazendo ménage à trois com duas garotas numa festa e dando um amasso no seu companheiro de banda de rock, enquanto que Joca faz judô, experimenta fracassos amorosos e tenta sem sucesso conquistar a nova garota da escola por pressão de seus colegas de classe. 

Apesar das diferenças entre os irmãos, a aproximação entre Pierre e Joca emociona, ilumina e revela possibilidades nos laços familiares, que se deslocam da verticalidade da relação materna/paterna em direção à horizontalidade fraterna. 

Um dos primeiros filmes brasileiros de ficção a discutir a questão de gênero, Mãe Só Há Uma é um filme obrigatório e importante que nos leva a rever nossos conceitos e valores em relação ao diferente, à sexualidade e à sociedade que vivemos e queremos. O filme é irreverente e transgressor, sem nunca descambar para o sensacionalismo ou o grosseiro. Também cumpre muito bem o seu papel de incomodar, o que é fundamental para um Brasil que hoje retrocede a passos largos ao nebuloso momento político, social e cultural vivenciado em anos recentes e obscuros do nosso país.

2 comentários:

  1. Excelente texto, João! Gosto muito quando você diz que "Nada é definitivo ou binário", as possibilidades múltiplas me parecem fascinantes no filme. E penso em meu trabalho como educador: experimentar teorias, textos, atividades, dinâmicas. Enfim, ser livre e democrático. Reitero: crítica muito boa e que me faz gostar ainda mais do filme.

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    1. Obrigado, Marquinho, por suas sempre gentis palavras. Nada na vida é binário ou definitivo e custa a gente aprender isto. Os pais e professores que o digam!! Bjs,

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