As Mortes da Minha Amada

12.09.2016
por Rianete Botelho

Transforma-se o amador na cousa amada, 
Por virtude do muito imaginar; 
Não tenho logo mais que desejar, 
Pois em mim tenho a parte desejada. 
(Camões)

A separação de quem se ama é uma das experiências mais dolorosas que o ser humano pode experimentar. O investimento libidinal sobre aquele objeto é de tal ordem que perdê-lo é perder-se também. Por isso o ego do perdedor fica mutilado. 

Viver um grande amor é ter acesso a muita gratificação, mas também a muito sofrimento decorrente, sobretudo, do medo de perdê-lo. A ameaça da separação é uma sombra negra que paira sobre os amantes, como uma presença da morte à espreita. Este é um grande paradoxo do amor: junto à felicidade que ele traz vem a assustadora possibilidade da separação. Por essa razão, o ciúme costuma ser frequente também no amor, como manifestação do temor de perder a fonte de vida de quem ama. Além disso, o ser humano sabe que apesar das juras de amor eterno, tudo na vida é efêmero. Com o fim da relação, o processo de restauração do ego tende a ser longo e doloroso. A profundidade do vínculo determina a profundidade da ferida e o tempo para a sua cicatrização.

É dessa ferida tão frequente que o cineasta Aly Muritiba trata no seu filme Para Minha Amada Morta. Ele consegue transmitir a angústia da perda do objeto de amor sem mostrar cenas de desespero explícito, fazendo um filme sóbrio - certamente levando em conta que a experiência da perda amorosa é familiar a todos. 

O filme se inicia com um homem e um menino, seu filho, procurando cumprir, com dificuldade, as tarefas básicas de uma rotina doméstica. Percebe-se o vazio deixado pela viuvez e pela orfandade que os atingiram. Nos poucos diálogos não há nenhuma menção à morte ocorrida e às suas circunstâncias. Pai e filho demonstram tristeza e há um cuidado carinhoso entre os dois. Não se vê comportamentos de revolta, mas um clima depressivo os evolve. 

As cenas onde Fernando, o protagonista, manipula objetos pessoais da mulher morta, revelam sua natural dificuldade em lidar com aquela ausência, usando o artifício de tê-la ainda consigo através do toque em suas roupas, sapatos, etc. À noite, depois de por o filho na cama, Fernando revê gravações de sua vida familiar também como forma de ter contato com a sua mulher, parecendo agarrar-se àquelas lembranças para tentar sobreviver. De repente esse roteiro rememorativo se quebra, quando numa das gravações aparecem cenas sexuais de sua mulher com outro homem.

A descoberta acidental é a segunda morte do objeto de amor de Fernando. Ele, que estava sangrando, sem forças, recebe mais um golpe violento: o da morte da imagem que ele tinha da mulher amada e da relação dos dois. Diante da descoberta, Fernando certamente experimenta sentimentos de ciúmes, decepção e raiva em relação àquele objeto até então só merecedor de amor. Mas esses sentimentos hostis são apenas sugeridos pela presença de um revólver, junto ao qual Fernando vai dormir, insinuando uma possível tragédia. 

Aquela gravação reveladora é o ponto de passagem do até então clima depressivo do filme para uma atmosfera de tensão constante, fazendo-nos temer um desfecho violento em várias situações. Essa violência latente transparece até o fim do filme. 

Apesar da evidente mudança de atmosfera, Fernando continua o mesmo personagem introspectivo e contido. A diferença é que no início do filme ele é um homem abatido, com inapetência para a vida. Depois da abrupta segunda morte de sua amada, ele parece encontrar uma motivação para viver, impulsionado pela força do inesperado: encontrar o amante de sua mulher. O filme não esclarece as razões dessa busca, mas é possível supor que ele fosse movido pela curiosidade de conhecer aspectos da vida de Ana, sua mulher, que até então ignorava. O passado era dos dois e ele se sentia no direito de partilhá-lo integralmente. Ou talvez fosse o interesse de entender as razões das escolhas dela. Na verdade não sabemos o real motivo pelo qual Fernando se empenhou tanto no seu propósito - nada é verbalizado a respeito. Aliás, o filme é feito de muitos silêncios, certamente para enfatizar seu aspecto intimista. 

O personagem descobre a identidade de Salvador, seu rival, onde mora e o que faz. Passa a conviver com ele e sua família, ficando particularmente próximo de sua mulher e de sua filha adolescente, sugerindo uma possibilidade de sedução com o objetivo de vingança. É nesse convívio com Salvador que surgem situações, insinuando um desfecho trágico. Entretanto, tal desfecho não se consuma. A tensão surge como uma onda que vai se avolumando, mas logo se espraia, e uma nova onda vai se formando, e mais uma e mais uma, envolvendo o espectador. O turbilhão interno do personagem e suas fantasias não são nunca claramente enfatizados. 

O filme é o retrato de um homem atormentado pela perda real de sua amada e que tem esse luto interrompido por uma revelação que transformou a saudade e a tristeza em raiva e decepção. Essa transformação lhe tira o direito de sofrer a perda de alguém, que deixou de ser merecedora de suas lágrimas. Mas o que fazer com aquele amor antigo e essa raiva nova? O filme não responde. E, por acaso, existe resposta exata para uma situação subjetiva? Fernando não escolhe nem o perdão nem a vingança, embora não tenham lhe faltado fantasias destrutivas. As fantasias têm a dimensão que lhes damos: se forem escondidas (porque temidas) adquirirão tamanho gigantesco; que nos dominarão em vez de nós as dominarmos. Fernando parece ter consciência de suas fantasias como um recurso para a elaboração de sua raiva, sem, contudo, realizá-las. 

Penso que a maior dor num processo de perda amorosa, é a ferida narcísica que se abre quando constatamos que nosso amor não foi suficiente para atender ou preencher tudo o que a outra pessoa precisava. Onipotentemente, nos acreditávamos capazes de ser o bastante para o outro. Trata-se de uma decepção com nós mesmos, por não sermos tão completos e maravilhosos como supúnhamos. A dor dessa decepção se soma à dor da perda. E o luto se torna duplo. 

Penso que Fernando, ao final do filme, tenta comungar com Salvador a agonia advinda das intensas e cortantes descobertas sobre a amada morta. E ao fazê-lo, com uma simples fotografia, parece ver-se libertado do ônus de seu segundo luto, transferindo-o para o Rival – até há pouco tempo não-sabido.

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