Neorrealismo Italiano: o movimento que transformou o cinema mundial

29.06.2016
por Profª Drª Cláudia Mogadouro

O movimento cinematográfico do imediato pós-segunda guerra na Itália transformou o cinema mundial, com a representação das pessoas simples, com tramas dramáticas sobre as desigualdades sociais e a miséria acentuada com a 2ª Guerra Mundial.

As duas grandes guerras mundiais marcaram o Século XX em muitos aspectos. A devastação pela qual passou a Europa interferiu muito também na História do Cinema, uma vez que nos períodos de guerra, poucos países europeus produziram filmes ou mantiveram salas de cinema funcionando. A Itália e a Alemanha, por exemplo, produziam, no período da segunda guerra, essencialmente filmes de exaltação ao nazi-fascismo. As guerras tornaram-se verdadeiros divisores de águas no desenvolvimento da linguagem cinematográfica e nas propostas temáticas. Os movimentos cinematográficos na Europa, que sempre dialogaram principalmente com o cinema estadunidense, estão relacionados com os períodos das guerras:

  • Antes da primeira grande guerra (1914-18), o cinema francês era o hegemônico no mundo. Um filme que mostra bem essa turbulência causada pela guerra é A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese;
  • O período entre guerras (anos 1920-30) é caracterizado pela pesquisa estética, ligada às vanguardas artísticas e o reconhecimento do cinema como arte; 
  • No período pós 2ª guerra, em alguns países, o cinema é visto como instrumento civilizatório do reerguimento da identidade cultural europeia. Surgem novas propostas de se fazer cinema, muito diferentes do que se fazia em Hollywood, iniciando o Cinema Moderno;

Este artigo aborda rapidamente o que foi um dos movimentos mais significativos da história do cinema e que se tornou conhecido mundialmente no imediato pós-guerra: o Neorrealismo Italiano. É bom registrar que também houve o Neorrealismo literário, que incluía nomes como Ítalo Calvino, Alberto Moravia e Cesare Pavese. Os artistas neorrealistas destacaram-se na resistência contra o fascismo no período da guerra e eram adeptos do “verismo” (de vero, verdadeiro) do século XIX, que também fazia uma crítica social do seu tempo.

Sua origem está nos documentaristas italianos da época de Benito Mussolini. O ditador esteve no poder de outubro de 1922 a julho de 1943. Entre 1943 e 1945, a Itália foi ocupada pelos nazistas entre 1943 e 1945, até eles serem derrotados e expulsos. A resistência italiana foi formada por várias forças que se uniram contra a ocupação nazista: católicos, socialistas, comunistas, anarquistas, monarquistas e liberais. 

Como era o cinema na Itália até essa época? Havia muitas produções de temática bíblica, filmes de exaltação da ideologia fascista ou melodramas onde se sobressaíam as divas. Estes eram chamados de “cinema de telefone branco”, porque feitos em estúdios que representavam residências chiques, com personagens fora da realidade italiana. Havia uma evidente tentativa de se copiar Hollywood. Os documentaristas é que tinham alguma liberdade de experimentação temática e artística, principalmente em curtas metragens, o que chamava pouca atenção. 

Curiosamente o filho do Duce, Vittorio Mussollini , gostava muito de cinema e tinha interesse em desenvolver um cinema italiano mais autêntico. Em 1938, ele criou a Revista Cinema, que abrigava vários intelectuais de esquerda, considerados bons documentaristas, como Giuseppe De Santis, Mario Alicata, Giovanni Puccini, Roberto Rossellini e Vitorio De Sica. Juntou-se a eles Lucchino Visconti, depois de ter sido assistente de direção de Jean Renoir, na França. 

Os documentários desse grupo se diferenciavam por mostrar gente do povo simples, trabalhadores das minas e da terra, o povo desempregado das regiões periféricas urbanas. Essa proposta foi levada para os filmes de ficção, com intuito de denunciar a miséria das classes populares, que se acentuou ainda mais depois da guerra. Eram produções com poucos recursos financeiros, não havia estrutura de produção e nem de distribuição dos filmes. 

Os temas mais recorrentes desse movimento são: a guerra de libertação contra a ocupação nazista; o desemprego e o subemprego urbano; o abandono dos jovens e idosos; a condição da mulher; os problemas sociais do campo; a indagação psicológica e a relação do homem com a religião. Este último tema é particularmente forte na Itália, um país muito católico e com forte presença da Igreja nos processos de censura. 

Algumas das características estéticas específicas do movimento são: os enquadramentos em planos de conjunto e planos médios, sem muitos closes (a câmera não conduz o espectador, só registra as cenas); recusa de efeitos visuais (não usam reflexos, deformações, imagens inclinadas); filmagem em cenários reais, as câmeras ganham as ruas; há muitas improvisações em relação ao roteiro; é muito comum a utilização de não-atores; simplicidade dos diálogos e valorização dos dialetos; orçamentos de baixo custo.

Filmes e cineastas mais significativos do Neorrealismo Italiano

Em 1943, portanto, ainda durante a guerra, foram realizados os filmes precursores desse movimento. São eles: O Coração Manda, de Alessandro Blasetti, A Culpa É dos Pais, de Vittorio De Sica e – o mais impactante de todos – Obsessão, de Luchino Visconti. Este é uma adaptação do romance de James I. Cain “O Destino Bate à sua Porta” (que teve depois duas adaptações no cinema dos EUA). O filme exigiu longa pesquisa de integração dos personagens com a paisagem, o que fugia dos estereótipos das histórias dramáticas. A trama é a seguinte: uma mulher e seu amante planejam o assassinato do marido para resgatar o dinheiro do seguro. O filme foi considerado uma afronta aos valores cristãos da família. Os fascistas detestaram e a Igreja censurou.


Clara Calamai e Gino Costa em Obsessão, de Luchino Visconti, 1943.

Participante da resistência italiana, Roberto Rosselini filmou a cidade de Roma, em 1945, dois meses após a desocupação nazista. Em seu filme Roma, Cidade Aberta, os destroços da guerra eram evidentes, além de registrar a presença ainda forte dos soldados alemães (que entram como figurantes na trama). A narrativa mostra a resistência ao nazi-fascismo, composta por militantes de esquerda, trabalhadores e por parte da Igreja Católica. Cenas de tortura promovida pela Gestapo, além de assassinatos são muito impactantes. O projeto do filme foi apresentado por um jovem roteirista da época, que depois se tornaria um dos maiores cineastas do mundo: Federico Fellini. Além deste, colaboraram no roteiro Sergio Amidei, Alberto Consiglio e o próprio Rossellini. O ator mais conhecido do filme é Aldo Fabrizi, que interpreta Don Pietro Pellegrini, o padre das cenas de humor e de intensa dramaticidade. Os atores Anna Magnani e Marcelo Pagliero tornaram-se conhecidos nesta obra. A cena em que Pina (Anna Magnani) corre atrás do carro da polícia e é assassinada na frente do filho tornou-se antológica. Esta cena e comentários do crítico de cinema A. O. Scott podem ser vistos no seguinte link:


Mas Roma, Cidade Aberta foi rejeitado pela crítica italiana. Os franceses, ao contrário, o consagraram como obra-prima no Festival de Cannes de 1946, dando-lhe o prêmio máximo e possibilitando sua circulação mundial. 

Roberto Rossellini (1906-1977) tornou-se um dos cineastas mais importantes da história do cinema, realizando uma vasta obra até o início dos anos 1970. Destacamos aqui outros dois filmes que, ao lado de Roma Cidade Aberta, compuseram a chamada Trilogia da Guerra: Paisá (1946), um conjunto de seis episódios, sobre situações da segunda guerra; e Alemanha Ano Zero (1948), uma triste e bela representação das ruínas da Alemanha no pós-guerra, que traz uma criança como protagonista.

Outro diretor fundamental do movimento neorrealista italiano é Vitorio De Sica (1901-1974), realizador de uma obra clássica no cinema. Além do já citado, A Culpa é dos Pais (1943), seus filmes mais importantes e conhecidos desse movimento são: Vítimas da Tormenta (1946), Ladrões de Bicicleta (1948), Milagre em Milão (1951) e Umberto D (1951). Este último trata do drama dos idosos no pós-guerra, cuja aposentadoria não é suficiente pra custear sua moradia. Seu único e maior bem é sua cachorrinha Flik. Há uma cena até engraçada, em que Umberto é internado em um hospital público e um dos doentes revela que insiste em ficar doente, para ter a alimentação e teto do hospital.


Carlo Battisti em Umberto D., de Vitorio De Sicca, 1951

Provavelmente o filme mais conhecido de De Sica é Ladrões de Bicicleta. O filme mostra a situação dos desempregados do pós-guerra e o drama de um pai de família que consegue um emprego de entregador, mas tem sua bicicleta roubada. Ele persegue o ladrão pelas ruas, ao lado de seu filho. Obra muito tocante, realizado com não-atores.


Enzo Staiola e Lamberto Maggiorani em Ladrões de Bicicleta, de Vitorio De Sica, 1948

O terceiro cineasta mais significativo do Neorrealismo Italiano foi Luchino Visconti, um cineasta de origem nobre (ele era o Conde de Lonato Pozzolo), mas assumidamente comunista. Chamado de “conde vermelho”, Visconti iniciou sua carreira com os filmes neorrealistas, como o já citado Obsessão (1943). Retratando a Itália do pós-guerra, realizou A Terra Treme (1948) e Belíssima (1951), este considerado o último filme bem característico do movimento. Depois, sempre aprimorando seu refinamento estético, ampliou as possibilidades temáticas de seus filmes, realizando grandes outras obras primas, já sem a marca do movimento do pós-guerra, como Noites Brancas (1957); Rocco e seus irmãos (1960); O Leopardo (1963); Os Deuses Malditos (1969); Morte em Veneza (1971); Ludwig (1973); Violência e Paixão (1974) e O Inocente (1976) .

A maioria dos movimentos artísticos tem curta duração. Os filmes apresentados neste artigo reúnem os principais elementos do Neorrealismo Italiano que ganharam muita importância na história do cinema e também tiveram algum sucesso de público. A partir da segunda metade dos anos 1950, as produções italianas assumem outras facetas, especialmente com comédias de boa qualidade. Mas essa ruptura com o cinema hollywoodiano deixou marcas até a atualidade, marcando o início do Cinema Moderno. Os cineastas italianos seguiram com forte influência dessa época, construindo uma notável cinematografia com Federico Fellini, Michelangelo Antonioni (que já estavam atuando nos anos 1940), Ettore Scola, Irmãos Tavianni, Marco Bellochio, só para citar alguns. 

Ainda é forte a herança desse movimento no cinema brasileiro, por exemplo nas obras de Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Eduardo Coutinho, Walter Salles e de muitos outros cineastas contemporâneos.

(*) Artigo escrito originalmente para o Portal Net Educação www.neteducacao.com.br

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