ONDE VOCÊ VAI VER SEU FILME HOJE?

29.05.2017
por João Moris

A Netflix e a internet ganham cada vez mais espaço como alternativas às salas de cinema. Mas, isto significa o fim do cinema tradicional? 

O recente protesto do diretor espanhol Pedro Almodóvar contra a presença de dois filmes produzidos pela Netflix no Festival de Cannes deste ano, que provavelmente não serão exibidos nos cinemas e serão lançados diretamente em telas de TV, computadores e celulares, leva a uma reflexão a respeito das novas formas de exibição de filmes para além dos espaços de cinema e o que isso representa.

Desde que o polêmico cineasta vanguardista britânico, Peter Greenaway, decretou nos anos 90 o fim das salas de cinema, em função da multiplicidade dos canais de TV a cabo e das novas tecnologias digitais que então despontavam, a experiência de ver filmes nunca mais foi a mesma e está em profunda transformação.

Há mais de 20 anos, o controverso cineasta britânico Peter Greenaway profetizava o fim das salas de cinema tradicionais.

Tecnologia inevitável 

O cinema é uma arte movida à tecnologia e era inevitável que os novos formatos de exibição de filmes competissem cada vez mais com as salas de cinema. Assim, os filmes em fitas VHS dos anos 70 deram lugar aos DVDs nos anos 80 e, com o avanço da internet e dos meios audiovisuais digitais a partir dos anos 90, os filmes foram ganhando cada vez mais espaço nas casas dos espectadores. 

Os home theaters trouxeram melhorias tecnológicas substanciais à experiência de assistir filmes em casa, como som dolby, DTS e surround, além de formatos em alta definição, como Bluray e HD DVD. Mais recentemente, a chamada Smart TV (integrando a internet a televisores e equipamentos digitais ou set-top boxes) permite que os brasileiros vejam filmes antes mesmo do seu lançamento comercial nos cinemas, ou concomitantemente, em telas de plasma agora disponíveis em até 150 polegadas.

Hoje, os filmes podem ser assistidos ou baixados online a partir de sites (como o youtube) e vários programas e aplicativos (pagos ou gratuitos, com ou sem legendas). Os filmes também podem ser comprados por assinatura via streaming (distribuição de dados de multimídia em uma rede por meio de pacotes) ou on demand (sob demanda com tecnologia de banda larga) individualmente ou mediante uma mensalidade/anuidade.

Cada vez mais pessoas assistem filmes em home theaters de última geração no conforto de suas casas.

O poder da Netflix 

A Netflix é uma provedora de filmes, documentários e séries de TV criada em 1997 nos Estados Unidos. A empresa surgiu como um serviço de entrega de DVDs pelo correio e hoje é a maior empresa do mundo de filmes transmitidos via streaming com quase 100 milhões de assinantes globalmente e presente em quase todos os países. 

Com tamanha onipresença e penetração, a Netflix tornou-se uma poderosa produtora e distribuidora de conteúdos audiovisuais, dona de um vasto catálogo de filmes disponíveis a assinantes particulares. Tem um viés visivelmente comercial, predominantemente voltado ao cinema hollywoodiano. Sem entrar no mérito qualitativo, filmes mais artísticos, independentes, experimentais ou de diretores mundiais renomados não são comuns no catálogo da empresa. Ao mesmo tempo, as muitas séries e documentários da Netflix são caprichados e têm uma legião de fãs pelo mundo afora. 

Com a entrada da Netflix em 2015 no mercado de produção de longa-metragens, agora incluídos na competição de festivais importantes como Cannes e Veneza, é fácil entender a preocupação de Pedro Almodóvar em relação ao futuro do cinema como o grande espaço público que favorece a construção de imaginários. Almodóvar disse na abertura do Festival de Cannes deste ano: “Respeito os filmes vistos em streaming, mas enquanto eu estiver vivo, vou defender a capacidade de hipnose que uma tela grande tem sobre o espectador, algo que as novas gerações não conhecem...”.

Assistir filmes em streaming e sob demanda por provedores como a Netflix será o futuro do cinema?

E as salas de cinema?

Assim como Almodóvar, muitos cineastas da geração pré-digital se opõem à iminente banalização e pasteurização de filmes produzidos/distribuídos por provedoras como a Netflix e exibidos para que o público os consuma em particular. 

Para esses cineastas, a sala de cinema é um espaço vital como ativação da obra cinematográfica e a tela grande é um símbolo coletivo da magia e do encanto de ver um filme. Para mim, que passei grande parte da vida “no escurinho do cinema”, a celeuma causada por Almodóvar faz todo o sentido e deve ser problematizada. 

Ainda hoje, a maioria dos diretores, ao conceber e rodar um filme, pensa os planos, enquadramentos e sequências para serem exibidos em tela grande. A concepção de um filme não é a mesma quando pensada para exibição em telas pequenas. É óbvio que há uma nova geração de cineastas rodando filmes muito criativos a partir de celulares ou tablets, concebendo-os para serem exibidos em vários tipos de mídias. Esta diversidade é muito bem-vinda e deve ser encorajada. Mas entre um e outro, o processo de elaboração e produção do filme é muito diferente e isto importa muito na indústria cinematográfica e no resultado final de um filme.

Com as novas tecnologias de exibição de audiovisuais, as salas de cinema estão fadadas a desaparecer?

Alfabetização audiovisual 

É fato que os filmes de grande bilheteria hoje exibidos nos cinemas são predominantemente voltados ao público infanto-juvenil, mas aqui também cabe outra reflexão: como ampliar o repertório cinematográfico e a cultura audiovisual destes jovens? Se encararmos o fato de que toda uma geração de crianças e adolescentes está sendo “audiovisualmente” alfabetizada pela internet e pela Netflix, e se considerarmos que muitos destes jovens não se interessam ou não têm a paciência nem a escuta necessárias para assistir a filmes mais reflexivos, dramáticos ou lentos, surge outra pergunta: haverá espaço para estes filmes nos cinemas nos anos vindouros ou estão fadados a desaparecer das salas? Basta dar uma rápida olhada na programação dos cinemas das grandes e médias cidades do mundo para ver que as salas estão tomadas pelos mesmos blockbusters e pelas mesmas franquias cinematográficas em detrimento a outros tipos de filmes, que estão com distribuição e exibição cada vez mais limitadas e, em média, ficam pouco mais de uma semana em cartaz em salas restritas.

A hegemonia dos filmes blockbusters e das franquias longas criam distorções no mercado distribuidor e exibidor

Resistência 

Em um artigo publicado em 19 de maio último na Folha de S. Paulo (“Um filme que não passa nos cinemas ainda pode ser considerado cinema?” http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2017/05/um-filme-que-nao-passa-nos-cinemas-ainda-pode-ser-considerado-cinema.shtml), o jornalista Tony Goes argumenta que “a postura de Almodóvar e da organização do Festival de Cannes em escolher apenas filmes que tenham distribuição garantida nos cinemas é linda, mas fadada à extinção. O streaming é só mais uma maneira de consumir filmes, e quem ignorá-lo pode ficar a ver navios. Ou melhor, sem ver cinema.” 

Creio que em nenhum momento Almodóvar nega que as novas plataformas de mídias digitais e o streaming vieram para ficar, e é evidente que cada vez mais se incorporam ao cotidiano de todos nós. Mas trata-se aqui de legitimar a resistência à hegemonia e pirotecnia do cinema-espetáculo como meio e fim, e de defender alternativas ao cinema meramente comercial e hollywoodiano. Dito isto e sem juízo de valor, o porquê da inclusão de filmes da Netflix na seleção oficial de festivais tão prestigiados, como Cannes e Veneza, pode ser tema de outras reflexões. 

Meu agradecimento à jornalista Bete Santana pela revisão do artigo.


3 comentários:

  1. Na Australia temos um opcao de streaming legal que e SBSondemand.E o canal de tv mas como BBC or CH4 que tem filmes internacionais de qualidade .Tudos de graca pq e um tv aberta.Basta ter internet illimitada claro.
    Mas ainda vou ao cinema tb pq e uma experiencia completa.
    Alem de tela maior ,voce encontra suas amigos ,sair para comer algo ,conversar e nao esquecemos a caminhada que eleva a saude .A problema maior talvez e o preco normal que seria ate 25 $ por adulto.Porem ainda temos dias e horarios mas baratos .Considerando que a teatro aqui e 40 ate 300 $ ainda cinema e um opcao em conta .

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  2. Aqui no Australia temos a canal aberta SBS com a opcao ondemand.E como um BBC ou canal 4 de reino unido.
    Temos series e filmes internacionais de qualidade e variedade .Ainda melhor tudo de graca.Basta ter internet illimitada claro.Mas ainda vou ao cinema uma vez por mes ,pq e uma experiencia unica.Primeiro gente sair de csa fazer caminhada ,encontra amigos ,vemos gente .Saimos para beber e comer depois.Claro ainda as telas sao maiores do que o tv(meu pelo menos)VIVA CINEMA

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  3. Parabéns pela análise João, bjs Helena

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