Porque o escuro do cinema ainda é importante

03.07.2017
Por Nilton Hernandes


Em artigo recente de João Moris neste site, ele afirma que “a Netflix e a internet ganham cada vez mais espaço como alternativas às salas de cinema” e questiona: “mas, isto significa o fim do cinema tradicional?”. Poderíamos ainda acrescentar: qual o impacto das novas tecnologias digitais e da internet no chamado cinema de arte, que tem a sala de cinema como espaço principal de apresentação? 

Primeiramente, é preciso definir o que significa a expressão “novas tecnologias” num meio marcado justamente por desenvolvimentos tecnológicos desde o nascimento. Grandes telas e maior definição, sons potentes estão trazendo parte do impacto das salas de cinema para as residências. Mais notável, entretanto, é que, somente nas últimas décadas, a experiência de ver um filme passou a ser cada vez mais individualizada e controlada pelo espectador. Isso significa que um único indivíduo tem hoje cada vez mais possibilidade de ver o filme que quiser, no momento que quiser, na mídia que quiser, no formato que quiser. Esse processo, que começou com as fitas VHS, há cerca de 40 anos, ainda não terminou. Em algum momento nos próximos anos, teremos, provavelmente, acesso on demand a todos os filmes já produzidos. E poderemos acessá-los de qualquer mídia.

Balbúrdia contemporânea

Essa customização absoluta é muito diferente da experiência de ir ao cinema. Sentar-se diante de uma grande tela é, antes de tudo, uma experiência coletiva, em que o “contágio” sensorial entre os espectadores é inevitável. Basta lembrar do efeito contagiante de algumas risadas, por exemplo. As novas tecnologias também exacerbam uma questão fundamental envolvendo produtos de qualquer meio de comunicação, que é a do crescente excesso de estímulos ao qual um ser humano está submetido. Essa imensa possibilidade de ver um filme em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer dispositivo, impõe um problema comum aos diretores e produtores. Cada filme precisa ter “armas” para chamar a atenção no meio de tantas ofertas. Ao mesmo tempo, é também mais um elemento a reforçar a balbúrdia, ao inflar o menu de opções ao ponto de não termos mais meios de decidir organizadamente o que escolher entre tantas possibilidades. 

O excesso de estímulos transforma cada produtor de um objeto de comunicação – não importa se um cineasta como Woody Allen ou uma noiva que coloca uma versão editada em vídeo de sua festa familiar no youtube – em alguém que sabe que precisa manejar a atenção de seu público-alvo para que exista desejo de consumo do produto. O filme ou o vídeo estão concorrendo com um quase infinito número de possibilidades à disposição do mesmo público-alvo. Sem estratégias para fisgar e manter a atenção, não haverá a interação pretendida. Nessa balbúrdia que é contemporaneidade, vale a pena pensar qual é o significado de uma sala de cinema e porque tantos cineastas declaram amor incondicional por esse espaço.

Atenção plena 

Do ponto de vista da necessidade de gerenciar a atenção do público-alvo, a sala de cinema, seu escurinho, é um local que faz cessar os estímulos externos. Trata-se, portanto, de um espaço que impõe a concentração de atenção ao filme. Filha das salas teatrais e de concerto, as salas de cinema sempre foram pensadas para proporcionar uma experiência imersiva, de suspensão de tempo e espaço externos. Quantas vezes não deixamos o cinema e nos surpreendemos pela chegada da noite, pelo fato de a temperatura estar mais fria ou ter chovido? É possível ainda pensar na ida a uma sala de cinema como um momento de realização de um ritual. Escolhemos o filme, um lugar com uma bela tela e boa projeção, cadeiras confortáveis, e também do espaço de interação, com um bar para ver e ser visto. 

Além disso tudo, do ponto de vista da atenção, há outro detalhe notável na escolha de uma sala de cinema: existe uma disposição para um entrega pessoal ao que se vai ver. Não é normal ir cansado ao cinema. Ao contrário, se entra numa sala de cinema com o espírito alerta e ansioso por um momento estético. Essa experiência é bem distinta daquela que acontece em nossas casas. Na nossa sala é comum, por exemplo, ver um filme na TV ou na Netflix com o intuito de relaxar, desligar e, eventualmente, dormir. Não podemos afirmar categoricamente que a sala de cinema, como espaço concentrador de atenção e cerimonial, determina uma estética própria, que seria diferente de uma estética de um filme pensado para toda e qualquer mídia. Até porque qualquer filme, mesmo o dito de arte, também pode ser visto em inúmeros dispositivos e fazer parte do catálogo da Netflix.

Lentidão x aceleração 

No entanto, se levarmos em consideração o fenômeno da atenção, a sala de cinema aparece como espaço de fruição fundamental para o qual um filme de arte é concebido, como Amor, de Michael Haneke, sobre um casal de idosos que enfrenta os efeitos de um AVC na mulher. Ao ter a atenção do espectador concentrada somente na tela de cinema, o diretor sabe que pode trabalhar com aspectos formais e narrativos diferenciados, na busca de efeitos particulares. A ação, por exemplo, pode ser menos acelerada. Tanto a desaceleração narrativa quanto a do plano de expressão (menos cortes, por exemplo), podem ser meios utilizados para inserir o espectador na história de uma maneira mais passional. Ajudam ainda a fixar a memória das ações e permitem maior tempo para reflexão. 

O contrário também é verdadeiro para os filmes, por exemplo, de padrão Hollywood atuais, imaginados para passar em qualquer dispositivo. Aqui o mantra é a rapidez, com muitos cortes, muita ação, efeitos especiais, toneladas de estímulos que aceleram a narrativa e permitem pouco espaço para reflexão, porém, com muito envolvimento sensorial. Vamos imaginar um espectador que vê este tipo de filme no transporte público, no celular, cercado de estímulos externos concorrentes. Ele assiste ao Homem Aranha que, como obra, busca manter a atenção inundando o espectador de sons, cores, movimentos e uma narrativa simples. Afinal, com tanto estímulo, o espectador comum não terá possibilidade de se fixar em histórias complexas (nem perceber os buracos e absurdos do roteiro) que o fariam desconectar do fio narrativo. 

Os dois exemplos citados não são fixos. Lentidão x aceleração podem ser aspectos manejados em qualquer filme. O que se quer destacar aqui é o impacto da balbúrdia contemporânea e a possibilidade de ver uma obra em diversos dispositivos – como o que propõe a Netflix. Do ponto de vista de quem faz cinema, isso impõe novas coerções e desafios. Se a isso se seguir o fechamento das salas de cinema, resta saber se estaremos todos condenados a uma eterna aceleração, aos cortes cada vez mais rápidos e ao reino do sensorial sobre o passional e o racional. Essa estética, muito evidente nos últimos anos, já é um sinal do fim do cinema tradicional, e parece apontar para um interesse cada vez maior em filmes que façam o papel de instrumentos para suspender a reflexão, em meios eficazes de entreter, não em novas maneiras de ver o mundo, os seres humanos e seus conflitos.

Séries

Nem tudo, porém, aponta para uma tragédia. Um fato instigante é o novo glamour conquistado por séries do tipo House of Cards ou Breaking Bad, que ganharam status de objetos de arte para muitos críticos e, principalmente, para o público. Essas séries recuperam a importância de um bom roteiro. São produtos que conciliam aceleração do plano de expressão com uma narrativa que, por evoluir na forma de dezenas e dezenas de capítulos, permite investir na reflexão. Tudo isso embalado por uma produção bem cuidada, que parece... de cinema!


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