MOSTRA DE SP DÁ SINAIS DE CANSAÇO

06.11.2017
Por João Moris

Terminou na semana passada a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com mais uma maratona de filmes de vários países que raramente são lançados ou vistos em circuito comercial. Na Mostra deste ano, foram exibidos quase 400 filmes de 74 países, incluindo o Brasil, que trouxe 76. Frequento a Mostra desde a sua primeira edição em 1977 e gosto da variedade que ela oferece, mas sinto que a Mostra está inchada e dando sinais de cansaço. Cabem aqui algumas reflexões: 

Ainda vale a pena trazer tantos filmes? A diversidade é a marca registrada dos principais festivais de cinema do mundo. Seguindo essa tendência, a Mostra de SP aposta na disposição do público em experimentar filmes “diferentes” de diversos países. Grande parte deste público não sabe direito o que vai assistir e a única referência que geralmente tem são breves sinopses. Mas, com o advento dos blockbusters, da Netflix, das séries cada vez mais caprichadas e das várias plataformas alternativas de exibição, será que o espectador médio ainda tem disposição em sair de casa para assistir a um filme da Mostra “no escuro” vindo, por exemplo, da Letônia ou do Cazaquistão? A lista extensa de 394 filmes, com sinopses pobres de informação e mal elaboradas, não estaria afugentando ou desorientando esse espectador, que fica sem saber o que escolher e prefere não pagar para ver? 

Quem quer ir à Mostra? Outra reflexão que faço é quem é o público consumidor da Mostra e como está “consumindo”. Os cinéfilos que assistem 3, 4 ou 5 filmes por dia durante as duas semanas de duração da Mostra sempre irão se encantar com o cardápio farto de filmes, mas e os outros espectadores, como se sentem em relação a esta fartura? Os jovens não cinéfilos, por exemplo, têm vontade de participar da Mostra e de ir aos cinemas durante o evento? O excesso de filmes e o grande número de salas (foram 35 espaços na Capital este ano) acabam pulverizando demais a Mostra e ela está perdendo em qualidade. 

E a qualidade, como fica? É difícil entender o critério de seleção da curadoria da Mostra de SP. Ao contrário das edições iniciais, a maioria dos filmes exibidos nas edições dos últimos anos, inclusive nesta, é bastante mainstream ou convencional e a Mostra há muito deixou de ter um caráter alternativo ou experimental. É certo que a Mostra procura exibir obras de diretores autorais ou de renome, que são os que mais atraem público. Alguns filmes medíocres exibidos refletem a produção e o estado atual do mundo, mas na busca da curadoria por trazer obras que agradem a todos os tipos de público, priorizando a quantidade em detrimento da qualidade, muitos filmes importantes acabam sendo desvalorizados ou deixam de ser vistos.

Mostra Internacional de Cinema de SP: overdose de filmes?

Por que votar? Outro aspecto da Mostra que precisa ser revisto é o processo de votação e premiação do evento. O prêmio principal – Prêmio do Júri, Melhor Filme, Competição Novos Diretores – abre espaço para cineastas em seus primeiros ou segundos longas-metragens e as obras desses diretores são votadas pelo público na primeira semana do festival e selecionados por um júri internacional na segunda semana. A ideia da premiação envolvendo público e júri é democrática, mas a questão é que a votação do público fica prejudicada, pois os filmes não são exibidos em pé de igualdade de frequência, horários e quantidade de votantes. Assim, um filme exibido à tarde pode ter um público votante pequeno que dê nota máxima (5), enquanto que outro filme exibido à noite com público maior pode ter uma diversidade de notas que são diluídas na média final e pode perder a chance de entrar para os finalistas. Então, vários filmes de qualidade que entram na Competição Novos Diretores são eliminados por falta de maior apuro na votação. O atual sistema de voto, que é feito por meio de cédulas entregues ao final da exibição com notas de 1 a 5, dificilmente reflete a realidade dos “melhores”. 

Afinal, qual a importância dos prêmios? Para fazer frente a um volume tão grande de filmes, a Mostra de SP está oferecendo cada vez mais prêmios. Atualmente, são 13. Dada a importância da Mostra, é de se supor que os filmes premiados despertariam o interesse das distribuidoras em lançá-los e que os vencedores teriam algum destaque no circuito comercial. Não é o que acontece. Muitos filmes premiados da Mostra geralmente são mal lançados nos cinemas e não há nenhuma menção ao prêmio. Foi o caso do vencedor da 40ª Mostra em 2016, El Amparo, do diretor venezuelano Rober Calzadilla. Este belíssimo e essencial filme latino-americano, também premiado em outros grandes festivais do mundo, foi lançado em São Paulo em uma única sala e em poucos horários uma semana antes da Mostra deste ano. Quem viu El Amparo ou soube do seu lançamento? Por que só foi lançado um ano depois de ter sido premiado pela Mostra? Qual a importância que os premiados da Mostra de SP têm para o público? E para os distribuidores e exibidores? Neste ano, o ganhador do prêmio de melhor filme na Competição Novos Diretores foi o documentário chileno O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco. Mais um filme latino-americano, que talvez nem seja lançado no circuito comercial, e, se for, talvez não tenha público e ninguém vai saber que ganhou a Mostra de SP. 

Como frequentador assíduo, tenho muito apreço e carinho pela Mostra de SP. Estas reflexões me levam a sugerir alguns pontos de melhoria: menos quantidade e mais qualidade, como forma de valorizar as obras exibidas e motivar o público a ir ao cinema; pesquisar melhor o perfil de público frequentador da Mostra hoje e buscar saber o que as pessoas esperam ver; curadoria mais minuciosa dos filmes; sinopses mais elaboradas e informativas (se não houver espaço no catálogo, que tenha mais informações na descrição do site, inclusive com links para críticas a respeito do filme em português, espanhol ou inglês para quem quiser mais detalhes); aproveitar melhor a vinda dos diretores brasileiros e estrangeiros à Mostra e deixar maior espaço entre uma sessão e outra para haver mais tempo e espaço de debate; melhorar o processo de votação e de premiação; maior aproximação com as possíveis distribuidoras dos filmes premiados para que sejam lançados em circuito comercial; ações mais eficazes de divulgação para que os premiados da Mostra de SP sejam vistos por mais pessoas quando lançados, inclusive como forma de valorizar o evento.

E, por fim, por que a Mostra de SP não se une com o Festival do Rio, que também acontece em outubro, para ambos brindarem o público com seus melhores filmes? Por que não enxugar esses eventos e atrair mais pessoas? Afinal, se num ataque de insanidade, um cinéfilo abdicasse dos seus compromissos e dedicasse 10 horas do seu dia para ver todos os filmes dos dois festivais (600 filmes), imaginando que cada filme dure em média 90 minutos, seriam 900 horas de cinema. Ou seja, seriam necessários 90 dias para o cinéfilo completar toda a maratona!!!

As sessões gratuitas no vão livre do MASP durante a Mostra de SP atraem um bom público


2 comentários:

  1. Joao adorei sua sinceridade nessa sua analise reflexiva sobre a Mostra. Sou leiga, não costumo frequentar com assiduidade e confesso que além de minha laicidade fico meio perdida no que poderia escolher para assistir se eu tivesse só dois filmes para ver...então não assisto nenhum. Mas parece que você me representa quando fala que a curadoria não sabe bem qual perfil de quem frequenta ou assiste aos filmes. Também nunca me sinto competente em avaliar um filme no final, pois o que eu vejo e gosto, ou não gosto, pode não ter uma nota de avaliação. Não posso julgar o filme ou o diretor, ou o protagonista com meu gosto, nada apurado neste caso... Mas enfim fiquei também te vendo, pelo tanto que te conheço Joao Moris, querende de fato ter seus 90 dias para assistir tudo da Mostra do Rio e SP!

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  2. Oi, João; Assim, como Vera Moris, adorei sua análise sobre o evento da mostra. E sua "empatia" por muitos que têm dificuldade em escolher ou não arriscam comprar o ingresso por achar que o filme pode ser ruim e deixam de ir e optam por ver um do circuito comercial, aff! Gosto do seu jeito didático em comentar suas reflexões sobre os filmes e o evento.

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