UM PRETEXTO PARA ESCREVER SOBRE CATHERINE DENEUVE

06.08.2019 
Por H. Hirao

A Última Loucura de Claire Darling
La Dernière Folie de Claire Darling
Direção: Julie Bertuccelli

França / Bélgica, 2018, 94’
Roteiro: Sophie Fillières, Julie Bertuccelli, Marion Doussot, Mariette Désert, baseado na obra de Lynda Rutledge
Elenco: Catherine Deneuve (Claire Darling), Chiara Mastroianni (Marie Darling), Alice Taglioni (Claire Darling, jovem), Colomba Giovanni (Marie Darling, adolescente), Laure Calamy (Martine Leroy), Olivier Rabourdin (Claude Darling), Simon Thomas (Martin Darling), Mona Goinard (Marie Darling, criança), Joseph Flammer (Martin Darling, criança), Lewine Weber-Monfort (Martine Leroy, criança)


Está em cartaz o filme francês A Última Loucura de Claire Darling, dirigido por Julie Bertuccelli. 
Claire é uma mulher septuagenária que, certo dia, acorda ouvindo vozes. Ela acredita que aquele será seu último dia de vida. Então, ela resolve esvaziar a casa, vender tudo o que tem, os móveis, os objetos de arte, raridades e antiguidades, objetos pessoais, fotografias etc. Tudo a preços simbólicos, ela não precisa de dinheiro, só quer se livrar de tudo. A vizinhança se acumula no quintal da casa onde os objetos estão expostos. Isso chama a atenção de Martine, amiga de infância de Marie, filha de Claire. Avisada da última loucura de sua mãe, Marie, que não fala com sua mãe há muitos anos, retorna para casa e traz à tona segredos e ressentimentos. 
Não só a população da pequena vila de Verderonne (cerca de 80 km ao norte de Paris) acredita que a senhora Darling perdeu o juízo, como, habilidosamente, o filme faz o espectador também imaginar o mesmo. Claire tem visões, por exemplo, com seu filho, Martin ensanguentado. Então, fica a dúvida se, naquela manhã, Claire apenas despertou de um sonho ruim, ou se as vozes que ouviu são mesmo uma profecia, tal qual uma tragédia grega ou shakespeariana. 
O filme é narrado em três tempos: o presente, um passado distante, quando Marie ainda era criança e um passado mais recente, quando Marie era adolescente; cada personagem da história é interpretada por duas ou até três atrizes. Atrizes, porque o filme é bastante feminino, as personagens principais são mulheres. O tempo presente pode ser dividido em três períodos: manhã, tarde e noite; cada período correspondente à vida de Claire Darling e de sua filha. O passado de Claire nem sempre corresponde às lembranças de Marie e vice-versa. As causas do passado precisam ser revistas para explicar as consequências no presente. Por que Claire sempre tratou Marie de forma distante e fria? O que aconteceu com Martin, irmão de Marie? Por que ele aparece ensanguentado nas lembranças de Claire? E Claude, pai de Marie, dono de uma pedreira? 
É possível ver a influência do diretor francês Claude Chabrol, principalmente no terço final, quando anoitece. Chabrol era admirador de Alfred Hitchcock e da construção do suspense. Lembrando que Claire está convencida de que morrerá antes do dia acabar, algumas cenas sugerem pistas e presságios. 
Por coincidência (ou não), a personagem principal, Claire Darling, tem as mesmas iniciais da atriz que a interpreta, Catherine Deneuve. Outro fato pessoal é que a filha, Marie, é interpretada pela verdadeira filha de Catherine, Chiara Mastroianni. É impressionante a semelhança de Chiara com seu pai, o grande ator italiano Marcello Mastroianni.

Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, em cena de A Última Loucura de Claire Darling

Catherine e Chiara já trabalharam juntas em oito filmes: Minha Estação Preferida (1993), dirigido por André Téchiné; O Tempo Redescoberto (1999), de Raoul Ruiz; Um Conto de Natal (2008), de Arnaud Desplechin; Bancs Publics (Versailles Rive Droite) (2009), de Bruno Podalydès, inédito comercialmente no Brasil; Bem Amadas (2011), de Christophe Honoré; Linhas de Wellington (2012), de Valeria Sarmiento; 3 Corações (2014), de Benoît Jacquot e A Última Loucura de Claire Darling (2018). Na animação Persépolis (2007), de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, Chiara e Catherine fizeram as vozes de Marjane e sua mãe, respectivamente. Elas fizeram as versões em francês e em inglês, e poderiam ter feito a versão italiana, já que ambas são fluentes nas três línguas.
Esse é o terceiro longa de ficção de Julie Bertuccelli, que dirigiu o premiadíssimo Desde que Otar Partiu (2003) e A Árvore (2010). Ela também dirigiu diversos documentários, mas, infelizmente, nenhum deles foi exibido no Brasil.
Já Catherine Deneuve tem, de acordo com o site IMDb, mais de 130 participações como atriz, entre longas e curtas, para cinema e TV. Só para se ter uma ideia, nos últimos 10 anos, a incansável atriz soma 23 atuações em longas para cinema, uma média de mais de dois por ano.
Algumas curiosidades sobre a diva La Deneuve – aliás, ela refuta títulos como “diva”, “deusa”, “musa” etc. Catherine Fabienne Dorléac nasceu em Paris, em 22 de outubro de 1943. Seus pais eram atores de teatro e cinema e dubladores de versões francesas para filmes estrangeiros. Seu pai, Maurice Dorléac, faleceu em 1979, mas sua mãe, Renée Simonot, está viva, prestes a completar 108 anos. Apesar disso, Catherine sofreu pouca influência dos pais em sua carreira. Ainda adolescentes, Catherine, sua irmã mais velha, Françoise Dorléac, e a mais nova, Sylvie Dorléac, atuavam em pequenos papéis em filmes para ganhar um pouco de dinheiro. Françoise foi quem levou mais a sério essa profissão e trabalhou bastante na década de 1960, até sua trágica morte em 1967, aos 25 anos, em um acidente automobilístico, interrompendo uma carreira promissora. 
Catherine, que passou a usar o sobrenome de solteira de sua mãe, Deneuve, para não ser confundida com a irmã, chamou a atenção de Roger Vadim durante as filmagens de As Parisienses (1962), um filme composto de 4 episódios distintos. Só para lembrar, diretor, produtor e roteirista Roger Vadim foi o descobridor de Brigitte Bardot e mais tarde, de Jane Fonda, transformando-as em símbolos sexuais. Ele produziu o curta Ça c’est la Vie (1962) e o longa Satã Conduz o Baile (1962), e dirige Vício e Virtude (1963), todos com Catherine Deneuve como atriz principal. Depois disso, a carreira de Catherine deslanchou. Foi dirigida por alguns dos maiores diretores de cinema do mundo, como Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), Duas Garotas Românticas (1967), contracenando com sua irmã Françoise, Pele de Asno (1970) e Um Homem em Estado... Interessante (1973); Roman Polanski em Repulsa ao Sexo (1965); Agnès Varda em As Criaturas (1966) e As Cento e uma Noites (1995); Luis Buñuel em A Bela da Tarde (1967) e Tristana, uma Paixão Mórbida (1970); François Truffaut em A Sereia do Mississipi (1969) e O Último Metrô (1980); Marco Ferreri em Liza (1972), primeiro filme contracenando com Marcello Mastroianni, e Não Toque na Mulher Branca (1974); Claude Lelouch em A Nós Dois (1979); André Téchiné a dirigiu em 8 filmes, Hotel das Américas (1981), Minha Estação Preferida (1993), e Tempos que Mudam (2004), entre outros;
Tony Scott no terror-chic Fome de Viver (1983), com David Bowie, que fez Catherine ser idolatrada por lésbicas, gays, góticos e artistas underground; Mario Monicelli em Tomara que Seja Mulher (1986); Manoel de Oliveira em O Convento (1995) e Um Filme Falado (2003); Raoul Ruiz em Genealogias de um Crime (1997) e O Tempo Redescoberto (1999); Lars von Trier em Dançando no Escuro (2000); François Ozon em 8 Mulheres (2002) e Potiche – Esposa Troféu (2010); Christophe Honoré em Bem Amadas (2011); Paul Vecchiali em O Ignorante (2016); a lista é enorme! Isso sem mencionar os filmes que não chegaram ao Brasil. 
Catherine recebeu uma indicação ao Oscar na categoria Atriz Principal pelo filme Indochina (1992), dirigido por Régis Wargnier. O filme levou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, mas Catherine perdeu para Emma Thompson em Retorno a Howards End, de James Ivory. Fora isso, ela recebeu indicações, prêmios e homenagens diversas em Cannes, Berlin, Moscou, Veneza e outros festivais pelo mundo, além de dois prêmios César e uma porção de nomeações. 
Apesar de toda a experiência, o talento, o reconhecimento, Catherine Deneuve não faz teatro. Ela tem pavor de palco. Portanto, não há como conferir sua atuação ao vivo. 
De hábitos simples e caseiros, ela costuma manter sua vida pessoal bastante discreta e afastada da grande mídia. Somente um restrito círculo de jornalistas de confiança têm acesso ao seu mundo particular. Porém, isso dá margem a rumores e fofocas infundadas. 
Além de Chiara, Catherine tem um filho com Roger Vadim, Christian Vadim, que também é ator. O único casamento de Catherine, no entanto, foi com o fotógrafo inglês David Bailey, de 1965 a 1972, com quem não teve filho, mas tornou público um aborto ilegal que fez em 1971. Por esses motivos, Catherine também é bem considerada entre grupos feministas que lutam pela legalização do aborto e contra o preconceito a mães solteiras. Mas nem tudo é perfeito. Catherine tem um vício incoercível: ela fuma. E muito! Ela até tentou hipnoterapia, mas não funcionou. Tentou usar cigarros eletrônicos, também não deu certo. Ela continua a fumar três maços por dia. Observem o cartaz do filme. Em 2011, um hotel de São Paulo foi multado porque a atriz estava fumando em suas dependências. Em entrevista ao site The Talks, ela diz: “Mas que tipo de conselho é esse? ‘Você não deveria fumar tanto. Você deveria parar de fumar.’ Sim, claro que deveria, mas não chamo isso de conselho. Isso é um fato! Me dê conselhos sobre como parar de fumar sem sofrer. Sim, isso seria interessante.”

Catherine Deneuve em cena de A Última Loucura de Claire Darling


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