Reflexões sobre o filme “Divino Amor”

30.09.2019
Por Rianete Lopes Botelho


A expansão acelerada do neopentecostalismo – não só em relação ao número de fiéis e de templos, mas também de sua presença nas várias instâncias da política – provavelmente motivou o diretor de cinema Gabriel Mascaro a realizar o filme “Divino Amor”. A ficção é uma visão futurista do Brasil sob o poder dessas seitas evangélicas fundamentalistas, controlando a vida dos cidadãos de acordo com os preceitos religiosos tidos como única verdade.

O tema do filme me fez pensar na importância das religiões em todas as sociedades humanas como força social em busca da transcendência. É característico de toda religião acreditar que a sua verdade é a única que merece ser considerada e suas certezas inquestionáveis. A dúvida abalaria seus pilares básicos. Como as religiões tentam explicar o que a ciência ainda não explicou, cria-se um espaço sem contestação racional. O problema não é a aceitação dessas certezas, até porque esse fato pode proporcionar conforto a seus seguidores e alívio para suas angústias. O que preocupa é quando, em nome de suas verdades, os mais radicais passam a perseguir os que questionam, discordam ou não as aceitam. “Quem não é por nós é contra nós”. E como nós representamos o Bem, os demais são a encarnação do Mal que ou se transformam ou são seus inimigos que merecem ser combatidos. Esse parece ser o raciocínio dos intolerantes frente à diversidade.

Apesar de hoje eu não ter religião, venho de uma família evangélica presbiteriana (portanto, calvinista tradicional sem qualquer ranço fundamentalista). Por essa memória afetiva, fico triste ao constatar que o crescimento significativo dos evangélicos se deve não às denominações históricas decorrentes da Reforma Protestante (século XVI), mas de um seu recente ramo, os Neopentecostais, surgidos em 1970 nos Estados Unidos. Uma de suas características é o uso da religião como meio de obter ganhos financeiros e considerar o progresso material como sinônimo de bênção divina. Por extensão, o enriquecimento de cada bispo e de seu templo é demonstrativo dessa premissa. Quem arrecada mais é sinal de que é mais abençoado. Aqui convém ressaltar que a Reforma Protestante ocorreu exatamente por Lutero discordar dessa visão materialista adotada pelo Catolicismo (em lugar da ênfase no desenvolvimento espiritual). É lamentável que hoje um braço da Reforma tenha tomado o mesmo desvio.

A Reforma Protestante surgiu exatamente como uma reação ao uso da religião como forma de enriquecimento. A Igreja Católica, além de aumentar e ostentar riqueza, praticava as indulgências, ou seja, mantinha um balcão de troca onde os fiéis negociavam o perdão de seus pecados mediante pagamento monetário. O frade alemão Martinho Lutero denunciou publicamente esse desvio do Cristianismo, afixando nas portas da igreja de Wittemberg suas 95 teses de desacordo que, graças à recente invenção da imprensa, foram propagadas. Lutero foi excomungado. Houve protestos de grande parte dos príncipes alemães que se aliaram a Lutero contra o poder papal. Toda essa conjuntura político-social permitiu a consolidação e expansão da reforma que contribuiu para a mudança do curso da civilização. Seguiram-se guerras religiosas que devastaram a Europa.

Lutero não tinha a intenção de criar outra religião, apenas pretendia que o Catolicismo voltasse aos fundamentos bíblicos. Mas a Reforma provocou uma cisão do cristianismo com posteriores subdivisões e novas formas de pensamento religioso e filosófico. Segundo Max Weber, os valores do protestantismo alicerçaram o modelo capitalista. A Reforma teve um impacto importante na história na humanidade e da posição do homem no mundo. Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, o que permitiu a popularização do texto bíblico. Qualquer pessoa poderia lê-lo e interpretá-lo. O protestantismo retirou a autoridade absoluta do Papa e fortaleceu a ideia de que apenas o Evangelho e a Bíblia eram a lei suprema da fé cristã. A abolição do confessionário e da adoração aos santos retirou os intermediários entre Deus e os homens. Todas essas mudanças fortaleceram não só o individualismo – que era um objetivo procurado desde a Renascença – como também contribuíram para que o homem passasse à condição de sujeito responsável pelos seus atos, na medida em que não mais precisava da tutela e de intermediários (padres ou santos) para falar com Deus e a ele confessar seus pecados, pedindo-lhe perdão, diretamente. É evidente que novas formas de pensamento religioso e filosófico surgiram dessa maior liberdade.

Em relação ao filme, é bom lembrar que a história se passa num futuro onde a religião assume o poder político, transformando o Estado em executor de princípios religiosos neopentecostais. Na verdade, o filme denuncia essa possibilidade, pois o que a gente observa hoje é que concomitantemente à expansão neopentecostal há um aumento no mundo de governos de extrema direita, com posições de intolerância semelhantes aos fundamentalistas religiosos.

A personagem da Dira Paes é bem representativa da visão simplista de que nossas mazelas e defeitos decorrem da falta de religião e não os enxergam como fruto da complexidade humana que nos faz capazes do pior e do melhor. O “divino” fica em oposição ao “mundano” reino dos pecadores. Há uma passagem no filme em que a personagem é alvo de reclamação de uma mulher, que pede para falar com seu superior. Ela responde: “meu superior não é deste mundo” (uma referência ao texto bíblico em que Jesus diz: “o meu reino não é deste mundo”). Fica clara a separação entre os dois grupos. Para mim, o filme mostra a humanidade de pessoas que recusam reconhecer sua condição humana por se sentirem semideuses; que, como tais, têm o direito de interferir na vida dos “mundanos”. Pertencer ao reino divino significa ser amado e escolhido por Deus, o que atende a uma fantasia infantil de sermos “o preferido”, “o mais amado” porque somos saudosos do amor que nos alimentou nos primórdios de nossa existência, quando o mundo se restringia a nós e a quem nos amava. Talvez por isso, quanto mais carentes mais somos presas fáceis da sedução de quem nos promete poderes, curas milagrosas etc. A personagem se acredita tão privilegiada, tão especial, que delira ter sido escolhida para gestar um filho de Deus.

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