FILMES BRASILEIROS QUE VI NA MOSTRA

14.11.2019 
Por H. Hirao

A Mostra Internacional de Cinema São Paulo terminou, mas não poderia deixar de falar sobre os filmes brasileiros a que assisti.

Para começar, quero destacar a surpreendente experiência de assistir a filmes no imponente Theatro Municipal. De acordo com o que foi anunciado, é a primeira vez que sessões de cinema foram realizadas no centenário teatro localizado na Praça Ramos de Azevedo no centro de São Paulo. Obviamente, por ser um teatro, a acústica é excelente e ainda instalaram mais caixas de som exclusivas para as sessões. Montaram uma tela de projeção gigante ocupando quase todo palco com sua altura proporcional. A imagem estava impecável. Para quem estava sentado nas partes mais altas (foyer e balcões), a imagem estava à altura dos olhos, ao contrário de apresentações de teatro, ópera ou orquestra, que teria de olhar para baixo. Por outro lado, quem estava na platéia teve de inclinar a cabeça para cima – por sinal, os convidados e os VIPs.

A única crítica que faço vai para o próprio Municipal. Suas cadeiras não são muito confortáveis e as fileiras são apertadas demais, dificultando a passagem das pessoas. Fora isso, tomara que a experiência se repita no ano que vem!

Infelizmente, não consegui assistir a A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, escolhido para representar o Brasil no próximo Oscar. Vamos aos filmes, os dois primeiros da lista foram assistidos no Municipal.

Três Verões
Direção: Sandra Kogut
Brasil / França, 2018, 93’
Roteiro: Sandra Kogut, Iana Cossoy Paro
Elenco: Regina Casé, Otavio Müller, Rogério Fróes, Gisele Fróes
Um show de Regina Casé. Ela interpreta uma personagem parecida com a Val de Que Horas Ela Volta (2015), de Anna Muylaert... depois de um upgrade. Agora ela é Madá, encarregada de manter a ordem na mansão à beira-mar de uma família muito mais rica e poderosa que a do filme anterior. O filme mostra um dia em três anos consecutivos, 2015, 2016 e 2017, sempre próximo ao final do ano, época marcada por festividades e reunião de membros da família e amigos.
De forma inteligente e por meio de diálogos rápidos e bem-humorados, percebemos que a família está com problemas sérios que se agravam a cada ano. Regina Casé está tão à vontade que fica difícil saber se ela improvisou suas falas na hora da filmagem ou se estavam no roteiro. Todo o elenco está afinado. Um destaque especial fica para o grande ator e diretor Rogério Fróes, aos 85 anos, com a saúde visivelmente debilitada, interpretando o patriarca da família. Sua filha Gisele Fróes também participa do filme, interpretando a sua filha.
Sandra Kogut dirigiu o documentário Um Passaporte Húngaro (2001), e as ficções Mutum (2007) e Campo Grande (2015). Com distribuição de Vitrine Filmes, está programado para estrear em março de 2020.


Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou
Direção: Bárbara Paz
Brasil, 2019, 75’
Mais conhecida como atriz, Bárbara Paz atuou em dezenas de peças de teatro, além de várias séries e novelas para TV. Foi casada com o diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco de 2010 até a morte dele, em 2016. Recentemente, Bárbara tem incursionado na direção de curtas documentários. Babenco é seu primeiro longa. Aliás, no crédito inicial, ela não assina a direção do filme, aparece “Um filme de Bárbara Paz”. Confesso que estava com um pé atrás em relação a esse documentário. Por ser feito pela própria esposa, poderia resultar um filme excessivamente emotivo ou veneração exagerada. Não poderia estar mais enganado, felizmente!
O filme começa com uma aula de fotografia cinematográfica que Babenco dá para sua esposa-aluna. Coisa de mestre, um pouco rabugento, sem paciência. E Bárbara aprende, pois usa esses ensinamentos ao longo do filme. Mais que uma homenagem, o filme é uma poesia em imagens. Apesar do câncer que foi detectado aos 38 anos, depois de filmar Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), Babenco se manteve ativo e tratava sua dor com o característico humor sarcástico. Entre outros, realizou filmes importantes como O Beijo da Mulher-Aranha (1985), Ironweed (1987), Brincando nos Campos do Senhor (1991), Carandiru (2003) e Meu Amigo Hindu (2015), seu último e autobiográfico filme. Inclusive, é louvável como Babenco consegue resgatar e melhorar a última cena de Amigo Hindu.
Vencedor do prêmio de melhor documentário sobre cinema no Festival de Veneza. Terá distribuição da Imovision, mas ainda sem data de estreia.


Macabro
Direção: Marcos Prado
Brasil, 2019, 100’
Roteiro: Rita Gloria Curvo e Lucas Paraizo
Elenco: Renato Goés, Amanda Grimaldi, Guilherme Ferraz, Diego Francisco, Eduardo Tomaz, Juliana Schalch, Flávio Bauraqui, Paulo Reis, Osvaldo Mil, Laila Garin
Baseado no famoso caso dos “Irmãos Necrófilos”, que apavorou a população de Nova Friburgo, na região da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, entre 1991 e 1995. Oito mulheres, um homem e uma criança foram assassinados de forma brutal e todos foram estuprados depois de mortos, daí o nome do caso, necrófilos.
De forma ficcional, o filme mostra as investigações do sargento Téo, membro do BOPE da cidade do Rio de Janeiro, designado para o caso por ser oriundo dessa região. Não demora muito para a população e o delegado local acusarem dois irmãos, negros, de família pobre. No entanto, Téo desconfia que há algo errado e tem dúvidas sobre a participação dos irmãos nos assassinatos. Em meio a paisagens deslumbrantes, um drama forte que denuncia o racismo arraigado da população da pequena cidade. O próprio Téo guarda um passado obscuro. Ao final do filme, há fotos dos verdadeiros irmãos e recortes de jornais da época, além de informações sobre o atual destino dos irmãos.
Marcos Prado coproduziu os documentários Os Carvoeiros (2000) e Ônibus 174 (2002), de José Padilha e Felipe Lacerda; dirigiu documentários premiados como Estamira (2006) e Curumim (2016) e a ficção Paraísos Artificiais (2012). Macabro será distribuído pela Pandora, mas a data de estreia está bem longe: segundo semestre de 2020.


Pacificado
Pacified
Direção/Roteiro: Paxton Winters
Brasil / EUA, 2019, 100’
Elenco: Bukassa Kabengele (Jaca), Débora Nascimento (Andréa), Cássia Nascimento (Tati), José Loreto (Nelson), Léa Garcia (Dona Preta), Jefferson Brasil (Juninho), Raphael Logam (Dudu)
Por conta dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança do Estado implantou Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, para diminuir ou eliminar a criminalidade nas favelas. Tati é uma garota de 13 anos e, como toda criança que vive em situação adversa, é bem madura para sua idade. Sua mãe usa drogas, bebe e passa as noites se divertindo em baladas. Jaca, um antigo chefe do tráfico local, foi solto depois de cumprir pena de 14 anos e está voltando para casa. Tatai acredita que Jaca é seu pai. A comunidade acredita que ele colocará ordem na favela, como era antes de ser preso. O violento Nelson é quem manda na comunidade. Jaca, porém, não quer mais se envolver com o crime.
Lembrei de uma frase famosa do filme O Poderoso Chefão III (1990), de Francis Ford Coppola, em que Al Pacino diz “Justo quando pensei que estava fora... eles me puxam para dentro”. O grande destaque do elenco é Bukassa Kabengele, que interpreta Jaca, um personagem atormentado, contraditório, vivendo uma situação difícil. Jaca sabe que, se ficar na comunidade, será “puxado para dentro”, mas não quer deixar sua família, sabe que Nelson está fora de controle, a pressão para retomar o poder é grande. Por outro lado, Nelson foi treinado pelo próprio Jaca para ser seu sucessor, eliminá-lo seria admitir que foi uma má escolha.
Paxton Winters, roteirista, diretor e fotojornalista americano, morou durante oito anos na comunidade do Morro dos Prazeres, uma favela no Rio de Janeiro. O filme foi desenvolvido com a participação dos moradores dessa comunidade. Ganhou prêmio de Melhor Filme, Fotografia e Ator para Bukassa Kabengele, no Festival de San Sebastián. Um dos coprodutores do filme é Darren Aronofsky, diretor de filmes como Cisne Negro (2010) e Mãe! (2017). Pacificado será distribuído pela Fox.


Acqua Movie
Direção: Lírio Ferreira
Brasil, 2019, 105’
Roteiro: Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas
Elenco: Alessandra Negrini, Antonio Haddad, Guilherme Weber, Marcélia Cartaxo
Cícero é um menino de 12 anos que acaba de perder o pai, Jonas, vítima de um infarto fulminante. A mãe do garoto, Duda, é cineasta e passa longos períodos longe de casa, filmando um documentário sobre indígenas na Floresta Amazônica. Cícero sente a ausência da mãe. Ela é obrigada a voltar a São Paulo para o funeral do marido e cuidar minimamente do filho. Cícero a convence a fazer uma longa viagem pelo Nordeste do país, para levar as cinzas do pai até sua cidade natal. Duda acha estranho, já que Jonas sempre renegou a cidade e a família.
Como todo road movie, o que importa na viagem não é tanto o destino, mas a jornada, a convivência, o aprendizado que os personagens adquirem entre si. Para Cícero também é um rito de passagem, é tornar-se adulto, responsável pelos seus atos. O menino quer saber quem são seus parentes, de onde seu pai veio, quais foram suas influências, pois isso também define quem Cícero é. Mas a realidade pode ser mais dura do que imagina.
O trio de roteiristas Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas são responsáveis por alguns dos filmes mais importantes do novo cinema produzido no Nordeste, começando com Baile Perfumado (1997), de Paulo e Lírio; Árido Movie (2005), de Lírio; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo, entre muitos outros. Nessa Mostra, Paulo Caldas exibe dois documentários Abismo Tropical, que eu comento mais abaixo, e Flores do Cárcere, co-dirigido por Bárbara Cunha, que eu não assisti. Acqua Movie será distribuído pela Imovision, ainda sem data de lançamento.


Aos Olhos de Ernesto
Direção: Ana Luiza Azevedo
Brasil, 2019, 123’
Roteiro: Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado
Elenco: Jorge Bolani, Gabriela Poester, Jorde D’Elia, Julio Andrade
Ernesto é um fotógrafo uruguaio de 70 anos que vive no Brasil. Seu filho, Ramiro, mora longe, mas visita-o ocasionalmente e conversam pelo telefone. Apesar de viúvo, Ernesto não é um homem recluso, passa os dias ouvindo músicas antigas, mesmo com a visão deficiente, consegue fazer curtas caminhadas, ir ao banco para buscar a escassa aposentadoria, recebe rápidas visitas do vizinho Javier. Até que conhece Bia, uma cuidadora de cães.
Típico filme de conflito de gerações, a energia da jovem rejuvenescendo o idoso, a sabedoria do idoso aconselhando a jovem e daí surge uma amizade improvável e duradoura… Parece que já vimos esse filme, mas não importa, o filme é delicado, bem-humorado, os dois atores têm uma ótima sintonia. Parece que o cinema gosta de fotógrafos que perdem a visão, como o personagem de Esplendor (2017), de Naomi Kawase.
Ana Luiza Azevedo é diretora, roteirista e sócia da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre e dirigiu filmes como o curta Barbosa (1988) e o longa Quem é Primavera das Neves (2017), ambos co-dirigidos por Jorge Furtado, e Antes Que o Mundo Acabe (2009). Será distribuído pela Elo Company, ainda sem data de estreia.


Abismo Tropical
Direção: Paulo Caldas
Brasil, 2019, 72’
Roteiro: Barbara Cunha, Giovanni Soares, Paulo Caldas
Avenida Paulista, 28 de outubro de 2018, domingo, dia de eleições. A voz do próprio Paulo Caldas narra de forma angustiante os momentos que antecedem a escolha do novo presidente do Brasil, o momento do resultado, a exaltação popular. Fotografado em preto e branco, por vezes usando câmera lenta, porém, apesar da beleza das imagens, o filme evoca um momento obscuro, sem cor, em que o tempo parece se estender além da conta. Caldas faz um testemunho em primeira pessoa, com questionamentos existenciais e estéticos, nos quais faz reflexões sobre o tempo, dilatando o presente, beirando a queda livre num futuro incerto. Fico me perguntando: depois de um ano, será que as pessoas que comemoravam na Paulista assistirão a esse filme? Se reconhecerão? Sentirão orgulho ou vergonha?
Paulo Caldas codirigiu Baile Perfumado (1996), com Lírio Ferreira, Deserto Feliz (2007), País do Desejo (2011) e Saudade (2018). Nassa Mostra, Paulo tem outro documentário, Flores do Cárcere, com Bárbara Cunha. Terá distribuição da Lira Filmes, ainda sem data de estreia nos cinemas.


Wasp Network
Direção/Roteiro: Olivier Assayas
França / Brasil / Espanha / Bélgica, 2019, 125’
Elenco: Edgar Ramírez, Wagner Moura, Penélope Cruz, Ana de Armas, Gael García Bernal, Leonardo Sbaraglia
Um dos filmes mais aguardados, o filme dirigido e roteirizado pelo francês Olivier Assayas, baseado no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do autor brasileiro Fernando Morais, abriu a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Auditório Ibirapuera.
Havana, dezembro de 1990. René González, um piloto cubano, rouba um avião e foge do país. Ele pousa em Miami, onde é recepcionado por outros dissidentes cubanos. Por que ele faria isso? Por que ele deixou a esposa e a filha pequena? René é um dos vários integrantes da chamada Rede Vespa, que visa desestabilizar o regime de Fidel Castro. Nem é bom falar muito para não estragar as sucessivas surpresas e reviravoltas dessa complicada trama de espionagem. Complicada, sim, mas compreensível, é preciso prestar muita atenção. Afinal, é assim que deve ser uma boa trama recheada de segredos, dissimulações e disfarces. Diferente de filmes da franquia James Bond, os espiões nesse filme são pessoas comuns, movidas por ideais, têm dúvidas e fazem questionamentos, sentem saudades de casa e da família. A importância que as personagens femininas adquirem é um ponto positivo.
De acordo com o produtor Rodrigo Teixeira, o filme já tem distribuidor, título em português e data de estreia, mas não formam revelados.


Um comentário:

  1. Ufa! Como sempre, Hirao difícil de superar em "filmes assistidos". Muito bom saber sobre a experiência no Municipal. Quis ver alguns desses filmes mas não deu jeito. Espero poder ver o da Sandra Kogut e o documentário sobre Babenco, de quem vi quase todos os filmes.

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