NOTAS SOBRE O ENIGMÁTICO FILME O FAROL

16.01.2020
Por Fernando Machado *

O Farol, de Robert Eggers (foto divulgação)

O mar, com sua grandiosidade, mistério e mudanças repentinas, exerce sobre muitas pessoas uma atração irresistível. Mesmo como coadjuvante, como no filme de 2019 “O Farol”, ele parece ter uma personalidade própria e altamente volátil, que se reflete no comportamento dos dois protagonistas obrigados a conviver numa ilha distante na costa leste americana.

A necessidade de garantir a segurança das rotas de comércio garantiu emprego a muitos “faroleiros” e “ajudantes”, desde o mítico farol de Alexandria no século III A.C. até a atualidade. 

A película dirigida por Robert Eggers (também diretor do ótimo “A Bruxa”, de 2015) se passa no final do século XIX e foi filmada em preto e branco e 35 mm, em formato quase quadrado que “esconde” boa parte da tela dos espectadores. Essa opção valoriza ainda mais o drama psicológico que aos poucos se desenrola.

O farol retratado foi construído especialmente para o filme, tem 20 m de altura e é uma maravilha tecnológica: iluminado a óleo, utiliza um impressionante conjunto de lentes “Fresnel” (inventadas pelo francês Jean Augustin Fresnel e utilizadas pela primeira vez em 1823 na França, tinham melhor foco e maior alcance do que as lentes utilizadas até então). O mecanismo de giro que fica na base do farol é movido a carvão, o que trará grandes dificuldades logísticas para o novo “ajudante”, Ephraim Winslow (Robert Pattinson), sempre vigiado de perto pelo chefe Thomas Wake (Willem Dafoe). 

Diferentemente da obra de Júlio Verne “O Farol do Fim do Mundo”, não se deve esperar um filme de ação com ataque de piratas. Em princípio, vemos a chegada do novo ajudante (o anterior faleceu misteriosamente), um ex-lenhador do Canadá procurando recomeçar a vida e interessado no salário anual de US$ 630,00 a US$ 1.000,00. 

Tomando por base o ano de 1890 e com correção pela inflação americana, essas quantias seriam equivalentes a US$ 17.790,00 e US$ 28.239,00 atualmente. De acordo com o Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos, o salário mediano de um operador de farol em 2016 foi de US$ 46.680,00 (entre 65,3% a 162,4% maior do que o salário de 1890 corrigido, embora deva ser questionado se esse salário não seria devido ao faroleiro chefe, e não ao ajudante). 

Essas duas personalidades diferentes, para não dizer opostas, lado a lado por semanas a fio, começam a sentir a fadiga da convivência forçada: o chefe beberrão e o ajudante calado e sóbrio; o chefe irascível e o ajudante humilhado; o chefe explorador e o ajudante explorado; o chefe supersticioso (“não se deve matar uma gaivota, porque ela é a alma reencarnada de um marinheiro”) versus o ajudante cético. A tempestade, literalmente, está a caminho...

Pouco a pouco, o ajudante vai cedendo ao vício do chefe. Bêbados, os dois se dão bem, e aos poucos o espectador vai sabendo mais detalhes da vida desses dois solitários, como a culpa de Ephraim pela morte aparentemente acidental do seu capataz no Canadá, e as histórias exageradas e mentirosas de Thomas sobre sua vida no mar. 

Tal como o capitão Ahab em Moby Dick, de Herman Melville, o desprezado ajudante vai desenvolvendo uma obsessão pela luz do farol, a qual só o chefe tem acesso. Essa obsessão o faz espionar constantemente seu chefe e ele “vê” Thomas se transformar numa criatura monstruosa no meio do seu turno na proibida cabine do farol. Ephraim também começa a ver uma sereia (Valeriia Karaman) e é perseguido por uma gaivota caolha. 

Ao matar a gaivota caolha, Ephraim incorre na ira do chefe, pois trouxe “azar” e a mudança súbita do vento para a ilha, prenunciando uma forte tempestade. 

No fim, a realidade e a fantasia se misturam, num jogo surpreendente que faz os espectadores duvidarem do que veem e ouvem. Ephraim não é Ephraim, mas se chama Thomas e tomou o lugar de seu capataz morto no Canadá. Temos não um, mas dois Thomas, um como chefe e outro como ajudante. O chefe Thomas chega a falar para o ajudante: “talvez eu seja apenas fruto da sua imaginação”, e Thomas às vezes o vê como um ser monstruoso... 

É interessante pensar se o diretor lançou essa reviravolta para refletirmos que, na verdade, são mostrados no filme os dois lados de um único personagem chamado Thomas, um sóbrio e outro bêbado, um responsável e outro irresponsável. Ou se existiam mesmo dois personagens, e o ajudante na verdade era insano...

Willem Dafoe e Robert Pattinson (foto divulgação)

Finalmente, a obsessão de Ephraim/Thomas o faz virar a mesa no jogo de poder e matar seu chefe e ele, inebriado, tem acesso à cobiçada luz do farol. Valeu a pena? Ferido, cai da escada e acaba nas rochas, devorado pelas gaivotas. Qualquer semelhança com o mito de Prometeu não é mera coincidência...

Devem ser elogiadas as excelentes atuações dos protagonistas, bem como o esforço de pesquisa de linguagem da época e das canções entoadas pelo duo de beberrões.

Em tempo: um incidente ocorrido no ano de 1900 nas Ilhas Flannan, na costa oeste da Escócia, pode ter sido uma inspiração indireta para a película. Três faroleiros desapareceram misteriosamente, fato que foi notado quando navios passaram pela área e viram que o farol estava apagado. 

Uma investigação oficial chegou à conclusão que os três se afogaram durante uma tempestade enquanto tentavam estabilizar parte da carga de suprimentos do farol. Outras teorias da época envolveram uma serpente marinha ou um pássaro gigante que teriam devorado os três incautos, ou ainda que eles teriam sido raptados por espiões ou arranjado um navio de transporte e recomeçado a vida em outro lugar.

O que seria a luz do farol para Ephraim/Thomas? O conhecimento? A resposta a seus anseios existenciais? O que o navio de suprimentos encontrará quando as condições do mar finalmente lhe permitirem chegar ao farol? Nunca saberemos...

*Fernando T.H.F. Machado é Economista e admirador da Sétima Arte. O presente artigo também contou com a revisão, “palpitagem” e colaboração da querida Ana Lúcia Machado;

Um comentário:

  1. Coloco aqui um contraponto já que no final do seu (belíssimo) texto, o Fernando lança a pergunta "O que seria a luz do farol para Ephraim/Thomas?".

    Tenho este filme como uma grande obra "Lovecraftiana" em que o horror inóspito, desconhecido e voraz vai esmigalhando todas as camadas humanas dos personagens, os deixando cada vez mais animalescos. A própria limitação técnica do padrão de filmagem utilizado se torna um elemento vital para esta ambientação, já que os assistimos somente por um quadro em que todo o seu entorno é a escuridão, aqui com aplicação metafórica e literal.

    Daí creio que venha a resposta para a pergunta feita: a luz revelou o que toda aquela escuridão escondia. Um contraste tão imenso que a mente de Winslow não pôde suportar tamanha claridade, tamanha revelação.

    Um dos melhores filmes de horror que já assisti na vida!

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