O SILÊNCIO DO COQUETEL MOLOTOV OU UM OLHAR QUE GRITA

16.03.2020 
Por Rejane Tito*


Saí da sessão de Os miseráveis com o peito apertado, o choro engasgado. Cenas, falas, situações do filme voltavam na lembrança... No dia seguinte, ainda assim, sem saber de onde vinha aquela tristeza, algo me inquietava (o que não é um problema quando se trata de uma grande obra). Os ecos ficam, aumentam, se apaziguam, mas não cessam... Voltei para casa com o sentimento de que Os Miseráveis extrapola qualquer tentativa de explicação de fora para dentro. O filme mostra! E me lembrei de um trechinho de algo que li há muito tempo sobre a particular relação entre obra e sociedade, que diz que “a referência ao social não deve levar para fora da obra de arte, mas sim levar mais fundo para dentro dela”. Para além das questões que o filme problematiza, me ocorre que talvez o que o torna uma obra de tamanha força é o modo como tratou delas. O filme dá a ver! E o que nele vemos é inseparável daquilo que toda uma conjuntura local e mundial faz calar, silenciar, torna invisível. O filme parece nos deixar com o silêncio de uma bomba na mão queimando...

Os Miseráveis é uma obra impactante. Com direção e roteiro do estreante Ladj Ly, o filme mostra... O filme põe em cena, sem condescendências, uma realidade violenta e perversa. Realismo quase documental. Com o recurso da tecnologia, o que pode parecer distante, longe do alcance dos olhos, é trazido para perto, muito perto... Estamos também ali onde tudo se passa... Somos também testemunhas dessa (des)ordem perversa. Ao longo do filme, o espectador vai sendo convocado a participar, como aquele que também vê, com seu próprio “drone” - a tela do cinema... Sim, porque ver também pode ser um ato subversivo... Participamos ali do caos, da crueldade e da violência, da ausência de horizonte, da ausência de palavra, de um universo em que se tem apenas olhos para ver, mãos para bater e pernas para correr... Corpos sem futuro... Testemunhamos o colapso de um mundo que parecia ser guiado pelos ideais de igualdade, liberdade, fraternidade. Arco do Triunfo ao fundo, uma multidão ocupa a cidade para comemorar a vitória da França na copa do mundo. No filme, não há lugar para ideais, a não ser, talvez, aquele incorporado pelo jogador vitorioso... 

Chorar, chorar muito, é o que se consegue fazer ao sair da sessão. Chorar o desastre de um mundo que, em nome do poder (e podemos localizá-lo na polícia, no Estado francês, no imperialismo, na colonização, no fundamentalismo religioso...) esmaga vidas, determina quem pode viver e quem deve matar... Esse mundo que também é o nosso... O que fazer contra essa máquina voraz de transformar vidas em dejetos, em lixo, máquina em funcionamento perpétuo aqui, ali, acolá...? A meu ver esse é um dos impactos do filme: por em cena uma realidade particular, singular, da crítica situação dos imigrantes e descendentes de imigrantes na França e o modo como o Estado francês “olha” (ou não olha) para isso, para seus “cidadãos”; e ao por em cena uma realidade radical e intimamente vivenciada pelo próprio diretor e pelos atores – muitos são amadores, moradores da região – algo nosso, de nosso tempo, também é reconhecido ali... Ao nos levar mais fundo naquela realidade singular, podemos enxergar uma realidade social ampla e nossa também. E no filme o impacto disso parece ser muito mais avassalador por serem crianças as protagonistas desse colapso. São crianças e adolescentes, negros, imigrantes, pobres, sobretudo, que protagonizam a vivência da crueldade...


O núcleo dramático do filme, cujo desenrolar culmina na cena final, parece quase banal, podemos dizer, não fosse a “onda de raiva” cotidianamente adensada. Trata-se do primeiro dia do policial Sthefanie na equipe anticrime em Montformeil. Nesse dia, um filhote de leão do circo dos “ciganos” é roubado. Os policiais, ao descobrir quem pegou o bicho, tentam recuperá-lo perseguindo o menino Issa, já conhecido na região pelas galinhas vivas que havia roubado. A perseguição é tensa, e um policial atira com arma de bala de borracha em seu rosto e o menino cai desacordado. O que poderia ser “justificado” como um acidente os deixa desesperados porque alguém gravou toda cena através de um drone que sobrevoava o lugar. Alguém viu! Outra criança então passa também a ser perseguida: o menino do drone. Na cena final, auge da tensão, as crianças e adolescentes fazem cerco à polícia quando esta chega para a costumeira ronda diária no conjunto habitacional onde vivem. A meu ver, elas respondem à violência sofrida cotidianamente ali, mas sobretudo reagem ao que se passou no dia anterior, à crueldade, violência, humilhação. E elas respondem com muita violência, com bombas, destruindo carros, acuando os policiais dentro do prédio onde elas próprias moram. A cena final fica em aberto: qual a saída para esta situação? Arma em punho. Coquetel molotov. Silêncio... 

Não há saída para esta situação ao menos nos termos já postos, já conhecidos ali. A cena final condensa todo o conflito em dois personagens. O diretor foi magistral nisso. A cena ganha outro ritmo, uma tensão especial, o foco transita pelos rostos, todos apreensivos. Todos sabem que a saída para aquilo não está “naquelas” mãos. Não se trata de um problema episódico, mas de algo estrutural, um sistema de fatores, interesses, números e cifras muito maior. 

Não é forçado lembrar de Bacurau, filme brasileiro, dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles – filme, inclusive, que divide com Os Miseráveis o Prêmio do Juri em Cannes. Aqui, acompanhamos um desfecho de violência dos moradores de Bacurau. Mas enquanto em Bacurau a violência é organizada pelos moradores como recusa à opressão e à violência impostas por alienígenas, cuja entrada no lugar foi facilitada pelo prefeito criminoso, em Montformeil, por sua vez, a violência parece não ser uma saída, ao menos uma saída eficaz para aquela realidade perversa em que vivem seus moradores. A violência é o próprio cotidiano... 

*Rejane Tito é Psicanalista e integrante do Grupo Cinema Paradiso

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