O CINEMA PAULISTANO E UNIVERSAL DE UGO GIORGETTI

28.07.2021
Por Luiz Zanin Oricchio

Cena de Boleiros - Era uma vez o futebol (1998)  Foto: Divulgação

Com uma retrospectiva de 12 filmes e mais duas pré-estreias de Ugo Giorgetti, o Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca comemora seus 20 anos de existência. A mostra começa dia 29 com a exibição dos dois Boleiros - fértil diálogo de Giorgetti com o futebol - e prossegue até dia 5 de agosto. ATENÇÃO: embora a mostra citada pelo presente artigo já tenha se encerrado, os filmes de Giorgetti continuam disponíveis na plataforma do Itaú Cultural play: https://www.itaucultural.org.br/secoes/icplay/mostra-ugo-giorgetti

Entre as atrações, estão os dois inéditos, com pré-estreias paralelas à retrospectiva - a ficção Dora e Gabriel e o documentário Paul Singer - uma Utopia Militante. Na ficção, Giorgetti radicaliza sua opção por espaços fechados, reduzindo-o ao mínimo na claustrofóbica convivência forçada de um casal vítima de sequestro. No doc, resgata a figura de Singer, grande economista de vocação progressista, espécime raro entre nós.

Paul Singer - Uma Utopia Militante (2020)  novo doc de Giorgetti

Boleiros 1 e 2, os títulos escolhidos para as primeiras sessões, já passaram à história do cinema brasileiro como formas exemplares de retratar o nosso esporte mais popular sob a forma de ficção. O “toque” de Giorgetti é perceptível em ambos: a admiração pelo esporte, o carinho com os atletas aposentados, um certo desencanto com o presente, o humor delicado.

O primeiro Boleiro tem um subtítulo com ar de fábula, Era uma Vez o Futebol. O segundo, Vencedores e Vencidos remete à dura realidade. São retratos complementares de quem perde e quem ganha em uma atividade que começou como puro amadorismo e terminou como negócio global. O futebol elitizou-se, transformou estádios em arenas reservadas aos que podem pagar e marginalizou o público mais pobre. Mandou seus melhores craques para o exterior, onde vivem como celebridades globais e ganham como xeiques. Há no cinema de Giorgetti o sentimento sobre aquilo que passou, mas ele não chega a ser um exercício de nostalgia. Apenas constatação crítica.

Esse sentimento faz-se presente em outro título, O Príncipe (2002), com o personagem vivido por Eduardo Tornaghi como alguém que, tendo vivido muito tempo no exterior, na volta não reconhece o país de onde saiu. Ou melhor, a cidade onde nasceu e morou na juventude - a São Paulo que cresceu de forma desordenada, perdeu o seu centro e sua alma.

De certa forma, esta é outra vertente de Giorgetti, um desdobramento de sua sensibilidade. A consciência do paulistano, descendente de italianos, de que a sua cidade em algum momento quebrou a bússola e entrou em processo irreversível de entropia.

São Paulo é o cenário habitual dos filmes. Seja no habitat dos jogadores aposentados de Boleiros, seja na Vila Madalena e no centro da cidade desfigurados na percepção de O Príncipe. Ou no cômico Uma Noite em Sampa (2016), sátira sobre o grupo que vai assistir a uma peça de teatro e encontra o ônibus que o conduziria de volta à casa fechado e sem motorista. As pessoas perdidas na metrópole, sem referenciais, sem a quem recorrer, entregues a si próprias. Situação um tanto kafkiana, mas que é também a do brasileiro com a vida encalacrada num país inviável.

Em Jogo Duro (1985), uma mulher e sua filha moram num casarão desocupado no bairro chique do Pacaembu. Cobiçando as duas mulheres, dois homens em situação social semelhante à delas, um guarda noturno e um empregado da imobiliária.

Quebrando a Cara (1986) é um documentário sobre o nosso maior campeão de boxe, Éder Jofre, mas também um retrato bastante curioso da família de lutadores Zumbano-Jofre e do bairro paulistano do Peruche, onde Éder cresceu.

Solo (2009) traz Antônio Abujamra no monólogo de um personagem cáustico, auto-irônico, que não se reconhece no tempo presente e vê a cidade onde mora (São Paulo, claro) como um pesadelo do qual não consegue despertar.

A Cidade Imaginária (2014) é uma crônica dos imigrantes italianos que chegam a São Paulo sem ter a menor ideia do que os aguarda. Já Paredes Nuas (2009) discute a prisão de um empresário patrono das artes pelo olhar dos empregados da casa, da sua esposa e advogado.

A sátira da decadência, ambientada num décor paulistano perfeito para esse propósito, é também o molde de um dos mais bem-sucedidos filmes de Giorgetti, a comédia dramática Sábado (1994). Ambientada num edifício que já conheceu dias melhores, põe em cena dois grupos heterogêneos - a arraia miúda que habita o prédio outrora chique e a equipe publicitária que utiliza o imóvel para a gravação de um comercial. Dois brasis (dos muitos existentes) fazem-se presentes e, da convivência forçada, chocam-se mutuamente.

Cena de Sábado (1995) - Foto: divulgação

A visão não é neutra - e nem poderia ser. O artista inclina-se pelos pequenos, pelos "perdedores" e pelos anônimos. Estes, na luta pela sobrevivência, às vezes conseguem uma revanche mínima. Por isso, diante da urgência burguesa, um personagem (vivido pelo semiólogo e poeta concreto Décio Pignatari) pode proclamar que “o tempo do lúmpen é outro”. Não possui dinheiro, mas também não se escraviza a compromissos chatos e pode curtir em paz seu sambinha na laje do edifício.

Festa (1985), vencedor do Festival de Gramado, antecede esse ambiente de espaço fechado e de mirada irônica sobre o conflito de classes sociais. Aqui, os contratados para entreter os convidados esperam longamente na cozinha a chamada para se juntarem aos grã-finos na parte social da casa. Uma comédia com o tom triste de um Dino Risi e a consciência de absurdo de um Dino Buzzati.

Mesmo num filme mais diretamente político como Cara ou Coroa (2012), a marca desse cinema é a busca pelo menor, pelo mais discreto, pela margem. No enfrentamento da ditadura militar, o protagonista não é o guerrilheiro que entrega a vida pela causa, mas o pequeno militante. Aquele que arrisca a pele em missões modestas e contribui, de maneira anônima, para a derrota da ditadura.

O traço constante dessa cinematografia é esse olhar de esguelha, em busca do personagem menos notado e pouco cultuado. Ele ganha papel protagônico, o coadjuvante sobe para a frente da cena. Essa inversão de perspectiva é articulada sob a forma de um “humor frio”, conceito importado de Luigi Pirandello pela pesquisadora Rosane Pavan para estudar a obra de Giorgetti em sua dissertação de mestrado (publicada sob forma de livro como O Cineasta Historiador, pela Alameda).

Humor frio não significa falta de afeto, mas apenas o humor que provoca o sorriso discreto e não a gargalhada. É o humor inteligente e um tanto melancólico de Ugo Giorgetti.

*Luiz Fernando Zanin Oricchio é jornalista e crítico de cinema do jornal O Estado de São Paulo. Zanin nos cedeu generosamente seu texto para o site do Grupo Cinema Paradiso. Siga seu blog: https://luizzanin7.wordpress.com/

Cláudia Mogadouro e Ugo Giorgetti no CineSesc, em homenagem feita ao diretor no 17º aniversário do Grupo Cinema Paradiso (2012)

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