MARIA ELZA PRESENTE E INESQUECÍVEL!!!

03.02.2022
Por Cláudia Mogadouro

Maria Elza com Cláudia chegando à festa do CineSesc em 2018

Maria Elza de Almeida Mogadouro nasceu em São Paulo, em 21/01/1928.

Viveu sua infância e juventude no bairro do Pari. Nos anos 1960, mudou-se com a família para o Bosque da Saúde.

Descobriu o cinema talvez com uns 7 anos, quando viu, pela primeira vez, um filme sendo projetado num café, no bairro do Brás. Era um filme com a Shirley Temple, por quem ela foi apaixonada por quase toda a vida (até, recentemente, rever alguns filmes e constatar, chocada, que eram filmes racistas). Seu Tio Zito a levava sempre ao cinema em sua infância, naquelas imensas salas de cinema do Brás.

Cursou técnico de contabilidade na Escola de Comércio Álvares Penteado. Provavelmente, nessa escolha já continha um desejo de não ser professora e nem dona de casa, prognóstico muito seguro e comum para as moças da época. Em 1953, passou no concurso público da Caixa Econômica Federal, onde trabalhou feliz até 1982, quando se aposentou.

Ela se casou com Edmundo em 1955. O casal entendia que o emprego da Caixa Federal era estratégico para que Elza fosse uma mulher independente e também para segurar as instabilidades financeiras da vida artística de Edmundo, que compunha o grupo do Teatro de Arena. O casal teve 5 filhos: Mônica, Paulo, Ângela, Cláudia e Flávio. Paulo faleceu num acidente, em 1975.

Tanto em seu ambiente de trabalho, como na vida pessoal, Maria Elza sempre gostou de reunir pessoas diferentes, ouvir ideias diferentes das suas e de se dedicar à vida cultural: sempre foi apaixonada por todas as linguagens artísticas, mas o cinema era a sua maior paixão. Passou essas paixões para seus filhos, netos e bisnetos. Sempre soube conciliar atividades culturais, com passeios com os netos, cuidar da casa, do jardim e viajar. Nunca via essas facetas como excludentes. Era muito conciliadora: gostava de polêmica, mas não de briga. Em 1995, junto com suas filhas Ângela e Cláudia, criou o Grupo Cinema Paradiso. Uns tempos depois, Mônica e Flávio também passaram a participar. Ela gostava de contar que, quando se casou, ela e Edmundo reuniam os amigos semanalmente para comentarem os filmes vistos durante a semana. Seu filho Flávio também chegou a criar um grupo que discutia filmes em sua casa e que durou alguns anos. Mas o Grupo Cinema Paradiso, além de muito longevo (vai completar 27 anos de existência ininterrupta em julho), ganhou um formato muito peculiar e livre. As pessoas não viam os filmes juntas. Escolhia-se um filme, cada pessoa ia por sua conta ao cinema, e se reuniam na casa da Elza, aos domingos à tarde (quinzenalmente), para discutir os filmes vistos.

Reunião do grupo na sala da casa de Maria Elza

Um pequeno depoimento dela sobre essa história foi registrado por Michele Marques, na festa de encerramento do ano de 2014:
http://www.grupocinemaparadiso.com.br/2014/12/reuniao-de-encerramento-do-ano-de-2014.html

Maria Elza sempre fez questão de ver os filmes escolhidos e sempre participou de todos os debates. Nos últimos anos, às vezes, por problemas de mobilidade, ela não conseguia ir ao cinema, mas fazia questão de estar na reunião. Fazia questão ela mesma de preparar a mesa de café e chá, com biscoitinhos para receber os amigos cinéfilos.

Sempre fez depoimentos surpreendentes de como ela mudava de opinião sobre um filme ou sobre um tema, a partir do debate. Sempre gostou que o grupo agregasse pessoas das mais diversas idades e ocupações para justamente dar o caráter diverso dos debates.

Quando a reunião era bem concorrida, ela arrumava a outra sala para receber as pessoas do grupo

Ela tinha uma memória prodigiosa, lembrando títulos, enredos, elenco, tudo com muita precisão (sem usar o google). Quando algum problema se avizinhava, ela vinha com a frase da personagem Scarlet Ohara: “Amanhã é outro dia...”

Entre os seus filmes prediletos, estavam Casablanca, de Michael Curtiz (1942) e Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai (2001). Ela gostava muito de jazz, de música popular brasileira, música clássica e chorinhos. Ela dizia que a música que mais a comovia era O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc.

Elza e Cláudia também criaram reuniões musicais na sua casa, grupo que depois veio a se chamar Sarau Brasileiro. Ela foi a primeira anfitriã desses saraus, que varavam a madrugada cantando MPB. Este grupo também é muito longevo. Em fevereiro de 2020, Elza “encomendou” ao Sarau uma festa de marchinhas de carnaval na sua casa. Naquela noite, ao se arrumar pra deitar , ao tirar o sutiã, caíram muitos confetes. Ela disse para sua neta Isabel, “desejo que você seja tão feliz que, quando tiver 92 anos, possam cair confetes do seu sutiã”.

A pandemia a entristeceu muito, pois não podia mais receber as pessoas na sua casa, nem podia mais ir ao cinema. Elza ficou com sua família, reservada em casa, vendo filmes, lendo um livro por semana, ouvindo música, vendo séries policiais, sempre antenada e com visão crítica dos acontecimentos. Mas, durante a pandemia, ela recebia no jardim os seus netos e netas: Francisco, Isabel, Cecília, Henrique, Beatriz, Laura, Helena e Alice, que levavam seus companheiros e amigos. E não saíam de lá os três bisnetinhos queridos: Marina (13 anos), Aurora (7 anos) e Antônio (5 anos).

Um conjunto de imprevistos, mas, em especial, a insuficiência renal debilitou sua saúde e Maria Elza foi para outra dimensão no dia 28 de janeiro de 2022, uma semana após completar 94 anos.

Sua alegria, sua vontade de viver, sua sede de cultura e de compartilhamento de saberes merecem que continuemos com este grupo tão especial.

Maria Elza presente e inesquecível!!!!!

Elza muito atenta ao debate de filmes em sua casa

4 comentários:

FLAVIA MARONI SIMONSEN disse...

sempre esetará presente em nossas reuniões!

CARLOS HENRIQUE disse...

Lamento muito o falecimento de D. Elza. Frequentei um curto período o Grupo, e fizemos raras reuniões do grupo de estudos comandados pelo Maurício Berú, do qual eu e o Flávio fazíamos parte, na aprazível casa do Bosque da Saúde, mas foi suficiente para gostar dela de cara! Sempre simpática, cordata, acolhedora dos participantes e amigos das filhas/o. Era realmente muito agradável partilhar nossa cinefilia com aquela senhora que generosamente abria sua casa para nossas elocubrações e devaneios sobre os filmes, sempre regadas a café, biscoitos e bolos deliciosos. Aliás, devo dizer que essa qualidade ela soube passar para seus descendentes.
Certamente deve estar discutindo cinema com os melhores diretores, atrizes, atores, analistas, estudiosos. Nesse Paraíso, acho que foi recebida pela Monica Vitti (a regra do lugar é sempre o mais recente a chegar receber o seguinte nesse Portal do Conhecimento).

Unknown disse...

Que história linda! Que pessoa especial a querida dona Elza! Com certeza, aqueles que tiveram a oportunidade de estar com ela nesses encontros,sentiram-se privilegiados. ❤

Naava disse...

Muito importante artigo para conhecermos a história de 27 anos do grupo. Incrível a lucidez de D. Elza até os 94 anos. Uma mulher a ser admirada desde seu apoio ao marido no teatro até a expansão em sua casa de debates de cinema e o carinho pelos netos. Não a conheci mas senti muita empatia e reconhecimento de seu valor cultural. Parabéns a Claudia que está dando continuidade, de uma forma brilhante e com uma coordenação incrível nos debates e com todas suas participações em muitos grupos de cinema. Contribuição intelectual e afetiva ao acolher e motivar as pessoas interessadas em cinema sem serem profissionais.