A Cinelândia Paulistana e o filme
“Quando as luzes das marquises se apagam...”

 29.04.2022
Por Fernando Machado*

Como cinéfilo amador, foi uma grata surpresa assistir à película dirigida por Renato Brandão, exibida no evento comemorativo do 24º aniversário do Grupo Cinema Paradiso (agosto de 2019 - CineSesc).

Naquela ocasião, foi mostrada na tela grande um pouco da “Era de Ouro” do centro da cidade de São Paulo, na época uma região repleta de pompa e circunstância em que as salas de exibição cinematográficas em seu território representavam verdadeiros templos culturais.

Aprendi que a primeira exibição cinematográfica na cidade de São Paulo foi realizada em 8 de agosto de 1896 na Rua Boa Vista com a Ladeira Porto Geral (próximo ao metrô São Bento, no exato local onde hoje está o Edifício Jockey Club).

Também foi muito interessante saber sobre os “cinemas itinerantes” que existiram na Pauliceia até 1907 (ano da inauguração do Bijou Theatre na Avenida São João), quando passaram a ser fixos. Já a nossa Cinelândia (anos 30 do século XX em diante) foi inspirada na homônima do Rio de Janeiro, que havia sido criada nos anos 20.

Comentei com membros do Grupo Cinema Paradiso após a exibição que valeria a pena fazer um artigo sobre esse período da nossa História Cinematográfica, do qual restam tão poucas evidências materiais no centro de São Paulo atualmente. Recebi apoio mas, infelizmente, o projeto não foi adiante naquele tempo, pois uma das minhas dúvidas era sobre como chamar mais atenção para esse grandioso período, que foi tão bem retratado no filme.

Há alguns dias, revi “Quando as luzes das marquises se apagam” e, finalmente, veio a inspiração: começar pelos números (para quem ainda não sabe, adoro números!): a partir dos dados relativos aos ingressos vendidos em São Paulo mostrados no filme, outras informações numéricas de interesse também poderiam ser acrescentadas.

Assim sendo, para que possamos entender um pouco mais sobre o período da Cinelândia Paulistana, sugiro que comecemos pelo Gráfico 1 a seguir:

GRÁFICO 1: INGRESSOS DE CINEMA VENDIDOS NA CIDADE DE SÃO PAULO

Fonte: filme “Quando as luzes das marquises se apagam...” (2018)

Observa-se claramente um grande crescimento no número de ingressos vendidos na cidade entre 1940 e a segunda metade dos anos 50 e, a partir daí um declínio acentuado até o início da década de 70, uma tênue reação seguida de um lento declínio, que continuou até o ano de 2007, o último citado no filme.

Pelo visto, houve uma grande expansão seguida de decadência, mas o que esses números realmente significam? Para ilustrar melhor, nada como uma comparação com a população da metrópole paulistana no período mostrado no filme, com estimativas feitas a partir de dados censitários do IBGE. É o que mostra o Gráfico 2 a seguir:

GRÁFICO 2: INGRESSOS DE CINEMA VENDIDOS NA CIDADE DE SÃO PAULO POR HABITANTE

Fonte: elaboração própria com dados do filme e estimativas a partir de dados censitários

Quando se analisa o número de ingressos vendidos por habitante de São Paulo, nota-se claramente que, entre 1940 e a segunda metade da década de 50, passou-se de 15 ingressos por ano por habitante para cerca de 20, o que denota a imensa importância do Cinema para a sociedade da época.

O que se vê depois é a cada vez mais acentuada redução do número de ingressos por habitante que, em 2007, não chegou a 1,5 por ano (nem dez por cento do que era em 1940). As razões para essa mudança são em grande parte culturais, como a popularização da Televisão. No filme, um comentário muito interessante foi sobre o papel do Cinema, que tirou as pessoas de casa e as colocou na rua; e da Televisão, que fez justamente o contrário.

Quais eram os grandes cinemas retratados no filme? A Tabela 1 os apresenta com base nas citações no filme e com acréscimo de dados pesquisados por mim no site http://www.cinemasdesp2.com.br/. Uma informação fundamental é o endereço desses cinemas, para orientar futuras pesquisas sobre a história da nossa Cinelândia e o destino dos imóveis que a integraram.

TABELA 1: ORIGEM DOS CINEMAS CITADOS NO FILME “QUANDO AS LUZES DAS MARQUISES SE APAGAM...”

Fonte: elaboração própria a partir da citação no filme e site http://www.cinemasdesp2.com.br/

Observa-se que mais da metade dos cinemas foi inaugurada até o final dos anos 50, a “Era de Ouro” da Cinelândia Paulistana. É incrível como certas informações, como a capacidade original dos cinemas, pode ser difícil de se encontrar. Como é fácil perder parte tão importante da nossa História! Deste modo, convido os amigos e amigas, leitores e leitoras, cinéfilos e cinéfilas, a ajudar a preencher os dados faltantes.

O que aconteceu com as grandes salas que constituíam nossa Cinelândia? O que ainda restava quando da produção do filme (ano de 2018)? Para responder a esta pergunta, foi elaborada a Tabela 2:

TABELA 2: DESTINO DOS CINEMAS CITADOS NO FILME “QUANDO AS LUZES DAS MARQUISES SE APAGAM...”

Fonte: elaboração própria a partir da citação no filme e site http://www.cinemasdesp2.com.br/

Para finalizar minha contribuição numérica para a compreensão desse importante período histórico: restavam em 2018 apenas 6 de um total de 27 cinemas elencados na película de Renato Brandão como pertencentes à Cinelândia Paulistana.

Destes, apenas um (Marabá) tem programação comercial e outro (Olido) foi reaberto pela Prefeitura Municipal de São Paulo, com programação estabelecida pela Secretaria Municipal da Cultura. Os quatro restantes têm programação de filmes de sexo explícito.

Uma observação adicional: três dos 27 cinemas fecharam durante a produção do filme. Deste modo, constam na Tabela 2 com ano de encerramento “até 2018”.

Esse foi o destino da outrora gloriosa Cinelândia Paulistana. Por um lado, é triste pensar naquelas majestosas salas que viraram entulho de demolição, mas por outro lado deve-se pensar na cidade como um organismo dinâmico, em que as construções servem a uma finalidade no contexto de uma determinada época.

Para mim, o grande desafio é como aliar o dinamismo da cidade de São Paulo e a preservação de seu patrimônio histórico, artístico, arquitetônico e cultural. Só assim as novas gerações poderão ter ao menos um vislumbre do que foi aquela “Era de Ouro” do Cinema em São Paulo, bem como a enorme importância da Cinelândia Paulistana para a vida social, intelectual e econômica da nossa metrópole.

*Fernando T.H.F. Machado é Economista e admirador da Sétima Arte.

4 comentários:

FLAVIA MARONI SIMONSEN disse...

essa ótima matéria me fez lembrar do filme de E Scola "Cine Splendor" cuja frequencia acaba declinando ... até fechar... Tristeza

FLAVIA MARONI SIMONSEN disse...

O artigo nos traz informações importante de uma época áurea do centro de SP, quando era criança e frequentei alguns cinemas proximos à praça da Republica, como o Marabá, comodoro , iámos também a doceiras como Dulca e Corallo onde ficavamos comentando sobre os filmes... lamento que muitas informações se perderam ao longo dos anos e pouca coisa resta para relembrar um passado tão rico em eventos...

Naava disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Naava disse...

Naava Bassi

Excelente artigo, coloca dados numéricos e pesquisa desde 1940 até os dias de hoje e analisa de forma bastante inteligente o declínio das pessoas que vão ao cinema desde o surgimento da televisão. Um histórico brilhante sobre o Cine Bijou que foi reaberto com vídeos e livro que foi escrito e toda importância como cinema de arte.Aborda com profundidade o tema e traz ótimas pesquisas e pensamentos do autor. O artigo ampliou meus horizontes. Aprendi e repensei sobre o cinema.

13 de maio de 2022 20:53 Excluir