Histórico do Grupo

Era Primeiro de Julho de 1995 

Na década de 1990 era muito comum que meus amigos e eu fizéssemos reuniões na casa da minha mãe, Maria Elza, para falar de música, literatura, política, cinema e outros temas que nos apeteciam. Eram pessoas muito interessantes; buscavam algo diferente na vida e entendiam que os encontros com amigos eram momentos de muita riqueza, tanto pelos papos nada medíocres, como pelo prazer do convívio. Contudo, cada vez era mais difícil achar um dia e horário para os amigos se encontrarem. A cada encontro, percebíamos nas pessoas certa dificuldade de fugir do embotamento a que o mundo acabava nos conduzindo.

O sentimento geral era de cansaço, de falta de tempo para ler, para ir ao cinema, ao teatro... E excesso daquelas conversas “criativas” que temos que “aguentar” sobre a falta de dinheiro; daquelas conversas “genéricas” na porta da escolinha dos filhos, sobre a poluição da cidade, a violência, os próximos concursos públicos, se virá uma frente fria... Sentíamos falta de um tempo de respiro, um tempo para a reflexão...

Quando líamos um guia cultural da semana, vinha sempre aquela frustração sobre NÃO conseguirmos assistir aos espetáculos ou acompanhar tudo o que a cidade estava oferecendo... E quando conseguíamos ir ao cinema ou “consumir” algum produto cultural da cidade, mal tínhamos digerido a experiência e lá estávamos nós, novamente, enfronhados na rotina. Quantas vezes tentávamos relembrar do enredo de um filme visto há um mês ou menos tempo e constatávamos que nem da música ou do personagem principal nos lembrávamos mais... Parecia ser tão pouco o que havia na memória...! Mesmo assim, não nos dávamos por vencidos.

E nesse espírito de resistência, o grupo Cinema Paradiso foi ganhando seus primeiros contornos. Percebemos que sistematizar reuniões com amigos não seria, necessariamente, sinônimo de chatice. Ter um compromisso quinzenal poderia ser leve, desde que a lição de casa fosse, por exemplo, ir ao cinema.

É claro que não daríamos conta de assistir a tudo o que estava em cartaz... Isso era sabido e não nos preocupava porque os filmes escolhidos eram analisados sob vários olhares diferentes. E por isso mesmo, geravam discussões aprofundadas. Não queríamos “erudição” cinematográfica. Queríamos vivenciar com qualidade a delícia de ir ao cinema, degustar o filme, esticar o prazer e, principalmente, compartilhar com os amigos essa emoção.

Além de falar do filme, aprendemos muito sobre a vida: respeitar as pessoas, suas idéias, questionar o que se tinha como certo, ampliar e diversificar o gosto estético, ouvir, sentir, estruturar o pensamento... Não se pode negar que foi (e ainda é) preciso um tanto de humildade para ouvir idéias completamente diferentes das nossas; às vezes até sobre aquilo que pensávamos que já sabíamos. Olhar para novas propostas, novos filmes, novas experiências estéticas requeria um exercício emocional e tanto. Aos poucos, passamos a entender melhor porque uma cena nos alegra ou nos incomoda. Tais sensações poderiam se perder, mas a discussão permitia, com leveza, o saboroso exercício do autoconhecimento.

Desde então e ao longo de todos esses anos, estivemos e estamos vivendo uma experiência inusitada e que foi se sedimentando paulatinamente, a cada reunião. O grupo, como todos sabem, sempre foi mutante! Alguns pararam de ir, outros começaram a chegar... Muitos mudaram de cidade: Adriano, Renato, Toninho... Perdemos queridas amigas: Célia, Sônia, Maria Helena, Roldan. As crianças cresceram e também viraram cinéfilas. Casais se formaram, alguns se separaram, outros estão por aí. 

O grupo criou seu jornalzinho, aprimorou suas edições e, com o devido glamour, teve sua despedida em 23 de Maio de 2015 sob o número 380. Grande feito, esse jornal. Que orgulho!

Recentemente, construímos esse site para compartilhar no mundo virtual as delícias do nosso grupo real, formado por tanta gente querida! Gente que continua indo e vindo, ao ritmo da disponibilidade de tempo e vontade para estar conosco. 

Em breve, publicaremos livros e sabe-se lá o que mais vamos inventar...

Nessa dinâmica, o que não dá para dizer é que envelhecemos. Ao contrário: acho que encontramos a fonte da juventude!

Num dia desses, li uma entrevista de Claude Chabrol que dizia que o cinema nos torna pessoas menos estúpidas. Acredito que é bem assim que nos sentimos. 

Vida longa ao Grupo Cinema Paradiso!

Cláudia Mogadouro