Andrea Tonacci - De Bang Bang a Serras da Desordem

28.07.2011
por Rodolfo Moreno

Final dos anos 1960, início dos anos 1970: o Brasil vivia sob o regime militar, num dos períodos mais duros da ditadura, de forte repressão política e cultural e intensa perseguição aos opositores do regime. 

No que diz respeito ao cinema nacional, é criada a Embrafilme, empresa estatal que visava promover e controlar a produção cinematográfica local. Era uma época de censura e domesticação do cinema brasileiro. 

Nesse contexto, surge no país um movimento cinematográfico encabeçado por uma nova geração de cineastas que contestava a nova situação política nacional através da produção independente de filmes experimentais que recusavam as fórmulas narrativas e estéticas convencionais. Esse movimento ficou conhecido como Cinema Marginal, caracterizado pelo deboche, tanto da linguagem quanto do conteúdo. Tal movimento propunha uma estética do grotesco, desconstruindo os mecanismos formais e narrativos, de ilusão e imersão do espectador típicos da narrativa clássica. Era um cinema marcado pelo desencanto, sentimento potencializado pela repressão política do momento. 

Entre os representantes do movimento, destacaram-se Rogério Sganzerla, com o filme O Bandido da Luz Vermelha, de 1968, e Júlio Bressane, com o filme Matou a Família e Foi ao Cinema, de 1969. 

É nessa conjuntura que aparece Bang Bang, de 1971, filme dirigido por Andrea Tonacci.

O filme narra a saga de um personagem anônimo, interpretado pelo ator Paulo César Pereio, em suas andanças pelas ruas de Belo Horizonte. De estrutura episódica, a narrativa propõe um debate a respeito do processo de realização fílmica e desmascara os mecanismos de imersão do cinema, sugerindo um novo modelo de interação com o espectador. Os episódios são aparentemente isolados: o protagonista briga com um taxista, discute com um bêbado, faz amor com uma dançarina e foge de um trio de atrapalhados bandidos.


Mais do que no enredo ou na montagem do filme, Bang Bang é construído a partir de planos – sequências – rigorosíssimos. O cinema de Tonacci, principalmente o documental, é marcado pelo encontro do mundo real com o da ficção. No caso de Bang Bang, os sentidos e os significados do filme se manifestam no encontro da câmera e da equipe técnica (explicitados em vários momentos da fita) com os personagens da trama, provocando uma experiência metalinguística. 

Hoje, 40 anos depois, o filme continua atual e instigante. Obrigatório para quem pretende pensar o cinema e suas formas derealização / produção de sentido. Embora restrito a um circuito cinéfilo, Bang Bang é motivo de culto e admiração e arrebata fãs por onde passa. 

Por trás de Bang Bang, está o gênio criativo do diretor Andrea Tonacci. Pensando em homenagear tanto o filme que completa 40 anos quanto o seu autor, procurei Cláudia Mogadouro, amiga de longa data, e cujo trabalho de agitadora cultural eu já conhecia, para discutir a possibilidade de realização de um evento que se prestasse a tal tributo. De imediato ela me propôs que casássemos minha sugestão com a festa de aniversário do Grupo Cinema Paradiso. E assim nasceu o evento que, logo mais, dia 08/08/2011, ocorrerá no CineSESC: a festa em comemoração ao décimo sexto aniversário do Grupo Cinema Paradisoe a exibição do filme Serras da Desordem, em homenagem a Tonacci. 

A idéia original era também exibir Bang Bang, mas, infelizmente, não foi possível, por razões que fugiram ao desejo tanto meu quanto da Cláudia (**). Contudo, Serras da Desordem, o mais atual filme de Tonacci e vencedor da categoria de melhor filme do Festival de Gramado de 2006, cumpre com sobras o papel de prestar tributo ao homenageado. 

Serras da Desordem conta a história do índio Carapirú, que, após um ataque de fazendeiros que dizimou a tribo à qual pertencia, foge e passa cerca de dez anos vagando pelas serras do Brasil Central. Encontrado a cerca de 2.000 km de seu ponto de partida, é levado para Brasília e se torna manchete nacional.


O filme é apontado por especialistas como um dos melhores filmes brasileiros da última década. Apesar disso, ficou pouquíssimo tempo em cartaz, o que valoriza ainda mais o evento, pois será uma oportunidade rara de ver o filme em tela grande. 

Andrea Tonacci, mesmo sendo autor de alguns dos mais cultuados filmes nacionais, ainda é pouco conhecido do grande público. A homenagem prestada, além de oferecer um filme de altíssima qualidade a um púbico apaixonado por cinema, também é um reconhecimento ao trabalho de um dos mais brilhantes cineastas brasileiros. Espero que todos os amigos do Cinema Paradiso curtam, tanto quanto eu, o cinema de Tonacci. Até lá! 

(*) Texto escrito para o jornal do Grupo Cinema Paradiso, edição 294, de 28 de julho de 2011, que anunciava a Festa de 16 anos do grupo, no CineSesc, homenageando o cineasta Andrea Tonacci.
Veja o Artigo: http://www.grupocinemaparadiso.com.br/2017/01/andrea-tonacci-nosso-cineasta-poeta.html

(**) Felizmente, Bang Bang foi lançado recentemente em DVD, numa edição caprichada da Lume Filmes, contendo como extras os curtas Olho Por Olho e BláBláBlá, bem como palestra do Prof Ismail Xavier a respeito do filme.


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