ANDREA TONACCI: NOSSO CINEASTA POETA

30.01.2017
por Cláudia Mogadouro

No início de 2011, em meio às manifestações contra o fechamento do Cine Belas Artes, reencontrei Rodolfo Moreno, querido amigo, igualmente apaixonado por cinema. Eu já o sabia sociólogo, mas nesse reencontro ele me contou que estava cursando audiovisual na ECA-USP. Num ótimo papo, Rodolfo se declarou encantado com o “cinema de invenção” de Andrea Tonacci, que conhecera com mais profundidade no novo curso; manifestou, ainda, seu desejo sobre desenvolver ações para que o cineasta e sua inquietante obra pudessem ser melhor divulgados ao público. A partir daquele momento, abracei também a ideia do meu amigo. Mas como fazê-lo? Foi então que me ocorreu somar às comemorações de aniversário do Grupo Cinema Paradiso, tradicionalmente realizadas no CineSesc, nossa homenagem a Andrea Tonacci. Afinal de contas, Tonacci também era um espírito crítico e independente, características fundamentais e caras ao nosso grupo.

Foram alguns meses de preparação dessa homenagem. Uma das dificuldades: convencer Tonacci a comparecer na exibição e debate de seu filme Serras da Desordem (2006). Conhecido por ser alheio a badalações, o cineasta mal respondia aos nossos e-mails. Ainda bem que tivemos dois ótimos intermediários que o convenceram a participar: Cristina Amaral, companheira de Tonacci e exímia montadora de filmes, e Ismail Xavier, professor e pesquisador, que aceitara participar do debate. Dias antes do evento, Ismail Xavier me ligou se desculpando, porque um imprevisto o impediria de comparecer. Tonacci não recuou. E lá foi ele, ao lado de Cristininha, para o CineSesc em uma noite de agosto de 2011.

Na comemoração dos 16 anos de existência do Grupo, contamos com a apresentação dos músicos Diogo Carvalho – violão – e Leonardo Padovani – violino – a nos brindar e encantar com trilhas sonoras do Cinema, no saguão do CineSesc, antes da exibição do filme Serras da Desordem para a grande plateia de amigos do Grupo. Em seguida, realizamos debate com Andrea Tonacci e Sérgio Rizzo, mediado por mim.

Convite da festa de agosto de 2011

Tonacci soltou-se como poucas vezes fizera na vida. Ficou muito encantado com as perguntas e observações do público. Segundo ele me confidenciara, estava muito cansado de perguntas capciosas de jornalistas, que dissecavam de forma maldosa sua obra. Aquele era um público diferente. Um público apaixonado por cinema, desarmado, com perguntas muito interessantes e postura muito carinhosa. A noite foi memorável! 

Dois dias depois, recebo uma ligação do Tonacci, agradecendo enormemente a homenagem, dizendo que estava muito emocionado com a festa tão afetiva e por saber da existência de um grupo tão apaixonado por cinema. Ele ficou uns 20 minutos comigo no telefone, dizendo-se muito feliz! Eu, em nome do Grupo, expressei o contentamento com a presença dele em nossa data comemorativa e até hoje penso que não repeti suficientemente a palavra obrigada por tamanha generosidade. Em setembro de 2015, tive outra oportunidade de reencontrá-lo: no Centro Cultural São Paulo, por ocasião de seu filme Já Visto, Jamais Visto, lançado pelo circuito SPCine. Pude conversar longamente com ele e Cristina Amaral sobre a distribuição de seus filmes e a importância deles serem mais conhecidos. Ele estava muito feliz, disposto a continuar filmando e esperançoso com as perspectivas de realização de filmes em São Paulo, por conta da criação da SPCine. O encontro foi tão bom que eu guardei a impressão de tê-lo tido como amigo durante toda a vida.

Tonacci e eu, lançamento de Já Visto, Jamais Visto (set/2015)

Talvez por isso eu tenha ficado muito, muito triste com a notícia do falecimento de Andrea Tonacci em 16/12/2016. Amigo querido e competente realizador de filmes autorais, ele ainda tinha muito que produzir! O imponderável prega peças e a nós restam os lamentos por tamanha e expressiva perda. 

Passado o susto, pensei: Tonacci, que nos honrou com presença e filme em 2011, ficará para sempre na memória do Grupo Cinema Paradiso! E, claro, integrando a História do Cinema Brasileiro. Nesse sentido, Tonacci e suas obras são muito mais que componentes didáticos dos cursos de Cinema Brasileiro que ministro – são capítulos especiais de uma filmografia instigante, única e provocadora. Fico honrada em ressaltar sempre a importância da sua obra e de sua figura tão doce. 

Do mesmo modo, fico orgulhosa em lembrar aos amigos do Grupo que a Cinemateca Brasileira presta agora uma justa homenagem a Andrea Tonacci, exibindo doze dos seus filmes entre os dias 2 e 19 de fevereiro, em sessões gratuitas. Para conhecer a programação, é só acessar o endereço http://www.cinemateca.gov.br/mostra/homenagem-andrea-tonacci

Por fim, resgatamos o belo artigo do meu amigo Rodolfo Moreno, aquele que me suspirou Andrea Tonacci, escrito naquela ocasião e publicado em nosso jornalzinho físico, para o deleite dos que não o conheceram e para alegrar a lembrança dos que já se deixaram arrebatar pelo texto Andrea Tonacci - De Bang Bang a Serras da Desordem.

Viva Andrea Tonacci!!! 

Cláudia Mogadouro 

(*) agradeço imensamente à Mila Ferrari pela revisão tão cuidadosa. Considero-a coautora deste texto.


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