Última Sessão de Cinema

11.05.2016
por Luiz Antonio Domingues

O surgimento da televisão foi alardeado como um agente cultural tão importante quanto o rádio e com o poder de levar o cinema para a sala de estar das famílias. 

De fato, entre as normas reguladoras que deram suporte legal para existir, havia a da contrapartida de ser um agente cultural, de utilidade pública, portanto. 

Assim, nas suas primeiras décadas de existência no Brasil, tal ditame foi cumprido e com muitos méritos. 

Todavia, sinais de deterioração começaram a lhe sorver paulatinamente as forças – para ser bem ameno – e a grade foi ficando cada vez mais longe de observar objetivos educacionais e/ou culturais, descambando para o circo de horrores com o qual nos deparamos nos dias atuais. 

Poderia haver retrocesso na difusão cultural? Ninguém apostaria nessa hipótese décadas atrás, mas infelizmente, assistimos com pesar tal decadência. 

Um bom exemplo entre tantos, de que já houve vida inteligente na TV aberta de outrora, foi um programa exibido na TV Cultura de São Paulo, nos anos setenta (durou entre 1976 e 1980), chamado “Última Sessão de Cinema”. 

A ideia era ousada e genial, para quem gostava da sétima arte, buscando maior profundidade no assunto. O mesmo filme era apresentado diariamente, de segunda a sexta. Sim, havia repetição do filme por um semana, como se estivesse em cartaz numa sala de cinema. 

Com isso, a oportunidade de assisti-lo várias vezes como objeto de estudo, era assegurada. Para quem não podia ver o filme todas as noites, garantia a chance de vê-lo ao menos uma vez. 

Fora a exibição diária, um excelente debate era promovido, na noite de sexta, antecedendo a última exibição da semana. Sob mediação do ótimo crítico de cinema, Luciano Ramos, e convidados especiais, alguns fixos e outros sazonais, que participavam. 

Tais convidados eram críticos de cinema; gente do meio teatral, da literatura e vários especialistas de outras áreas, mesmo fora do âmbito cultural, mas de diversos setores, dependendo do tema do filme. Eram especialistas em assuntos policiais/forenses, juristas, professores de história, cientistas políticos, sociólogos e antropólogos, doutores da área médica e da engenharia, etc.

Na sexta feira, o filme era dissecado sob o ponto de vista cinematográfico, de forma muita intensa, além de pontuais intervenções da parte de especialistas de diversas áreas, dependendo da temática de cada obra. Era o momento de aprofundamento da análise, a partir de um debate robusto. Quando o filme era exibido pela quinta vez, e após tantas informações ricas, era com outra percepção que o telespectador o assistia novamente. 

Essa espécie de “aula de cinema” era uma ideia de dois craques da televisão brasileira: o produtor cultural Fernando Faro, recentemente falecido, que dirigiu, por exemplo, os programas “Móbile”, MPB Especial e “Ensaio”, um marco histórico para a MPB, dentro da própria TV Cultura; e Walter George Durst, dramaturgo e de igual importância histórica para a cultura nacional. 

Os debates de “última sessão de cinema” tinham o formato parecido com as mesas redondas de futebol, sendo realizados ao vivo, mas com a peculiaridade óbvia de não serem acalorados e polêmicos, mas muito didáticos e estimulantes para quem fosse cinéfilo. 

O objeto cinematográfico em si eram produções clássicas do cinema americano, europeu e brasileiro, predominantemente.
Assisti a inúmeros filmes, talvez tenha perdido alguns poucos debates nesses quatro anos em que o programa existiu e adorava a chance de ver o filme tantas vezes e absorver as considerações dos especialistas. 

Lembro-me que as informações eram requintadas, mas com explanação coloquial, portanto acessíveis ao público comum, fugindo de erudições acadêmicas.

Um exemplo: recordo-me bem que recorreram a um professor de artes plásticas para explicar o ponto de vista da fotografia em tom pastel do filme Sangue e Areia (Blood & Sand), de Rouben Mamoulian, lançado em 1941, cuja motivação explícita eram as obras de pintores como Velásquez e El Greco. 

Dá para imaginar nos dias atuais algum programa de TV aberta com tal tipo de abordagem? Sim, antes que alguém me corrija, sei que a TV Cultura ainda é um oásis se comparada às outras emissoras, apesar de sua decadência e desmantelamento constante pelo governo estadual. Uma pena...   

Só me lembro de um tipo de abordagem semelhante nos anos noventa, numa emissora da TV fechada com vocação educacional, no caso o Canal Futura. 
No programa “Cine Conhecimento”, recorriam a clássicos do cinema para dar aulas de história, com pontuais informações sendo acrescidas antes e depois da exibição da película, com uma pequena intervenção na metade, como intervalo.


No caso do programa “Última Sessão de Cinema”, suponho que tal título fosse uma referência ao filme A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show), de Peter Bogdanovich, lançado em 1971, e que também tinha o duplo sentido a designar o mote do programa, com o fato de ser o último filme da grade da TV Cultura no horário noturno, e nas sextas, ter o debate e a derradeira sessão para encerrar o assunto. 

Além da grande condução de Luciano Ramos, críticos do calibre de Rubem Biáfora, Rubens Ewald Filho, Alfredo Sternheim, Orlando Fassoni e A. C. Carvalho, participavam costumeiramente.


Entre os convidados para falar de outros temas além do cinema, lembro da participação do maestro Diogo Pacheco para falar de música. Que bacana as explanações sobre Chopin quando analisaram À Noite Sonhamos (A Song to Remember), cinebiografia desse compositor/pianista polonês, dirigido por Charles Vidor, lançado em 1945. Lembro de Percival de Souza falando de assuntos policiais em muitos filmes noir da década de quarenta. E do psicólogo Paulo Gaudêncio, analisando filmes com tal mote, além de muitos outros.


“Última Sessão de Cinema” marcou época na TV Cultura dos anos setenta e quando me lembro de um programa desse quilate e observo a grade atual, recheada de atrações nem um pouco comprometidas com a difusão cultural, penso que o papel da TV deveria ser repensado e os seus respectivos dirigentes convidados a reler a carta de intenções, na qual as concessões para o seu funcionamento se baseia. 

2 comentários:

  1. Parabéns, LA, por sua homenagem sincera a um programa a que nunca assisti, mas cujo valor se faz sentir pelo seu texto.
    Ana Rosa

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    1. Muito grato pela leitura e comentário elogioso, cara Ana Rosa !

      Fico muito contente por saber que pude transmitir pelo texto, a emoção do que representou tal programa para quem não teve a oportunidade de assisti-lo na época.

      Luiz Domingues

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