GRUPO CINEMA PARADISO CELEBRA 25 ANOS


Cinema não é para entreter, é para fazer sonhar (Wim Wenders)

01/07/2020

Por João Moris

1995. O ano da retomada do Cinema Brasileiro, com o lançamento do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, é também o ano que marca a fundação do Grupo Cinema Paradiso. Tudo se transformou no mundo globalizado destes últimos 25 anos: a tecnologia, a comunicação, os encontros entre as pessoas, assim como a maneira de fazer e ver Cinema. Mas, as reuniões presenciais deste longevo grupo de discussão de filmes seguem incólumes à passagem do tempo. E essas reuniões parecem ser cada vez mais necessárias, cada vez mais preciosas. 

Foi por iniciativa da historiadora e cine-educadora Cláudia de Almeida Mogadouro e sua mãe, a incansável cinéfila Maria Elza de Almeida Mogadouro, que nasceu a ideia de formar um grupo de discussão de filmes em meados da década de 90. Mais do que uma simples iniciativa, estas duas mulheres, amantes do Cinema, fizeram do Grupo Cinema Paradiso uma missão de vida. Dedicam anos da sua energia e do seu tempo a receber os participantes na aconchegante casa de D. Elza, no bairro Bosque da Saúde em São Paulo, aos domingos a cada 15 dias. Quem experimenta o acolhimento, o carinho e a dedicação que emanam dessas reuniões de Cinema sabe porque o Grupo continua vivo e pulsante após 25 anos de sua criação. Isto tem um nome: AMOR! 

É bem verdade que o clã dos Mogadouro sempre foi afeito à Cultura e às questões sociais e políticas, tanto é que os irmãos da Cláudia – Ângela, Flávio e Mônica – também participam das reuniões do Grupo. Desde os anos 60, a casa de D. Elza é ponto de encontro de muitos eventos, reuniões e debates de todos os matizes e totalmente abertos à pluralidade de pensamentos e opiniões. Festas e reuniões estão no DNA da família. 

Mas, convenhamos, está cada vez mais difícil numa cidade como São Paulo encontrar anfitriões, principalmente idosos, que se disponham a abrir sua casa para tantas pessoas, religiosamente, a cada duas semanas. “Para mim, este Grupo é uma glória e uma honra. Sinto um prazer tão grande em receber estas pessoas. É também uma vitória, pois não é fácil manter um grupo por 25 anos. São amigos com o mesmo propósito, a mesma paixão pelo Cinema. É uma felicidade imensa ter este Grupo na minha casa”, revela entusiasticamente D. Elza no auge e lucidez dos seus 92 anos e que faz questão de estar presente em todas as reuniões.

As idealizadoras do Grupo Cinema Paradiso, Elza e Cláudia Mogadouro, em 2018

O segredo da longevidade
Num mundo cada vez mais volátil em que os grupos presenciais se dissipam com facilidade e têm vida curta, qual seria o segredo da longevidade do Grupo Cinema Paradiso? Tanto D. Elza como Cláudia são unânimes em dizer que o compromisso, a constância e a dedicação têm um peso fundamental na duração do grupo. “Desde o início, temos que negociar aniversários na casa, para que as reuniões não deixassem de acontecer”, diz Cláudia. Já D. Elza conta que “até hoje, quando marcamos férias, sempre levamos em consideração a agenda anual do grupo. E agendamos o nosso retorno das férias de forma que não coincida com as reuniões. Não fazemos nada ao acaso. São 25 anos aplicados ao grupo”. Com efeito, faça chuva, faça sol, Cláudia e D. Elza estão a postos às 16h esperando pelos participantes do grupo para iniciar a reunião. E ela acontece independente do quórum. Se, por algum motivo, uma reunião é cancelada num domingo, ela é reposta na semana seguinte. Tudo é avisado com antecedência, tudo é muito bem planejado, ainda mais agora com a comunicação pelo whatsapp entre os membros do grupo.

Cláudia também atribui o sucesso do Grupo Cinema Paradiso à informalidade e flexibilidade. “Embora o grupo tenha um formato organizado, o fato de a pauta da discussão ser um filme por vez e não haver nenhum pré-requisito para entrar, a não ser que os participantes vejam o filme se puderem e quiserem, faz o grupo leve e solto no bom sentido”, explica a coordenadora. “As pessoas não precisam se comprometer como se fosse um curso. Isto, numa cidade como São Paulo, faz toda a diferença. Existe uma fidelidade espontânea. O formato é organizado, mas ao mesmo tempo flexível. Se as reuniões fossem amarradas e rígidas quanto à frequência, elas não teriam a adesão que têm”, continua. 

Por formato organizado, Cláudia quer dizer as características típicas da organização do grupo, que permanecem inalteradas desde o seu início, ou seja, reuniões quinzenais, sem obrigatoriedade de presença, participantes sentam em círculo, votam por maioria em um filme que está em cartaz nos cinemas, o filme deve permanecer em cartaz ao menos duas semanas numa sessão vespertina e noturna para que todos tenham a oportunidade de assisti-lo e, ao final da discussão, dão nota de 0 a 10 ao filme. Além do mais, os participantes são convidados a trazer algo de comer e beber. Alguns preparam deliciosos quitutes caseiros, que são colocados numa mesa e, durante a reunião, as pessoas se levantam e se servem. 

“Uma característica peculiar do grupo é que não tem uma reunião igual à outra. As reuniões são muito ímpares. Foi assim desde o começo. Acho que nunca houve uma reunião com os mesmos participantes. A combinatória de quem está presente em cada reunião leva a um resultado diferente na abordagem dos temas”, explica Cláudia. “Outra coisa importante é que se tivéssemos fixado o número de participantes, o grupo teria talvez morrido com o tempo, como a maioria dos grupos. As pessoas se sentem livres para entrar e sair do grupo a hora que quiserem e, por isto, há pessoas que estão conosco há muitos anos”, pondera. 

Outro segredo da longevidade do Grupo Cinema Paradiso, segundo Cláudia, é que ele ocupa um espaço de debate e de conhecimento que não é necessariamente acadêmico ou técnico. “No geral, são abordados temas que impactam as pessoas em sua experiência pessoal com o filme. O debate sobre o filme é horizontal e isto é raro hoje em dia. As pessoas querem aprender com esse debate e muitas saem da reunião se sentindo contempladas. São tardes enriquecedoras culturalmente, mas isto não é algo mensurável”, diz Cláudia. “A pessoa fala se quiser, vai à reunião se quiser, não há um rigor nesse aspecto. Há pessoas que vêm ao grupo e não querem falar nada, só escutar. Com o tempo, elas começam a falar e a se soltar, porque percebem que não serão julgadas, nem rotuladas. Muitas têm paixão pelo Cinema, mas não são especialistas, e geralmente não encontram um espaço para trocar ideias sobre o filme que viram. No Cinema Paradiso, elas encontram esse espaço”, acrescenta com orgulho. 

Para a veterana Rianete Botelho, a Rian, frequentadora do Cinema Paradiso há mais de 20 anos, como o grupo é aberto, e entra e sai gente com frequência, ele se renova. “O próprio fato de o grupo se propor a discutir Cinema já é algo renovador. É óbvio que nem sempre se discute apenas o que está no filme, pois ele mexe conosco de formas diferentes. Um bom filme faz a gente vivenciar coisas próximas a nós, ou olhar para coisas parecidas que vivemos no nosso cotidiano, ou situações em outras partes do mundo. Muitas vezes, nas reuniões falamos de assuntos que não são do filme em si. São resultados da própria discussão do filme. Então, isto vai ampliando o nosso olhar. Acho isto muito enriquecedor”, afirma a psicóloga.

As reuniões do Grupo Cinema Paradiso na casa de D. Elza são horizontais e circulares

Mediação das discussões
Segundo Cláudia, o aspecto em que houve mais aprendizado e mudanças nesses 25 anos foi na condução das reuniões. Nas primeiras reuniões do grupo, não havia um mediador propriamente dito e as pessoas falavam conforme sentiam vontade. Visto que algumas pessoas mais empolgadas podem monopolizar os debates, aos poucos o grupo foi encontrando o equilíbrio da organização das reuniões. Ao longo dos anos, algumas pessoas assumiram naturalmente a liderança de coordenar as reuniões, mas há tempos a função de mediadora ficou com Cláudia. Se a reunião está muito cheia, é preciso um pouco mais de rigor, as pessoas levantam a mão anunciando que querem falar. Quando há menos gente, há mais flexibilidade. Em média, são 15 a 20 participantes por reunião, mas há filmes que atraem mais de 25 pessoas. 

Independente do número, há filmes que dão muitas divergências de opiniões e debates acirrados, o que demanda réplica e tréplica entre os participantes e traz um certo frisson às reuniões. “O que me deixa mais tensa na mediação é que eu quero garantir que todos falem e às vezes não dá para ouvir todos. Muitas vezes, as pessoas tergiversam e discutem outras ideias que alongam os depoimentos. Nesses casos, preciso pedir à pessoa que sintetize sua fala”, afirma Cláudia com certa frustração. Apesar disto e de algumas ‘saias justas’, a mediadora amealhou experiência suficiente nestes anos todos e desempenha um papel fundamental na fluidez das reuniões do grupo. Cláudia tem de sobra a gentileza e a escuta generosa necessárias para um bom mediador de debates. 

Filmes, filmes, filmes
Nestes 25 anos, o grupo discutiu quase 700 filmes (ver Fatos & Curiosidades [+]). São muitas histórias para contar a respeito dos debates desses filmes, sem falar das próprias histórias dos filmes. Cláudia se recorda bem da discussão da polêmica obra do diretor iraniano Abbas Kiarostami, Cópia Fiel (2010). “Foi uma reunião muito interessante, pois teve muitas diferenças de entendimento do filme”, lembra.

Juliette Binoche em cena do filme Cópia Fiel, um dos mais polêmicos discutidos pelo grupo

Mas, um filme que marcou demais a Cláudia foi Cortina de Fumaça (1995), do diretor sino-americano Wayne Wang, com William Hurt e Harvey Keitel. Segundo ela, “foi com este filme que a gente percebeu que o grupo iria engrenar e lidar com muitas emoções das pessoas. A discussão deste filme foi logo quando o grupo começou e veio muita gente. Aquela reunião foi muito marcante”, lembra emocionada. 

Dois filmes discutidos no grupo que marcaram D. Elza foram os brasileiros Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e Bicho de Sete Cabeças (2000), de Laís Bodansky. “Guardo com muito carinho as discussões desses filmes. Foram muito ricas e os depoimentos das pessoas foram memoráveis”, recorda D. Elza. Além de filmes brasileiros, ela tem uma predileção pelos clássicos e adora discutir Bergman. O grupo já discutiu alguns filmes do lendário diretor sueco. “Como não lembrar de Persona (1966) e Gritos e Sussuros (1972)?” pergunta esta inveterada cinéfila. 

Todos os anos em agosto, desde 2005, o Grupo celebra seu aniversário no CineSesc, que além de ter uma sala impecável é um parceiro de longa data. Nessas celebrações, há sempre uma sessão especial seguida de debate. Um dos momentos mais memoráveis dessas comemorações foi a exibição em 2014 do filme brasileiro O Menino e o Mundo, com a presença do diretor Alê Abreu e do crítico Sérgio Rizzo, sempre um grande apoiador do Cinema Paradiso. Além de arrebatar vários prêmios internacionais, o filme concorreu ao Oscar de melhor animação em 2016.

Cláudia Mogadouro com o crítico Sérgio Rizzo e o cineasta Alê Abreu em 2014 no CineSesc

Amadores
O Grupo Cinema Paradiso epitomiza o sentido original e etimológico da palavra amador, isto é, aquele que gosta muito de alguma coisa, amante, apreciador, entusiasta. O grupo é todo formado por amadores de Cinema! Além de multidisciplinar, o Cinema é uma arte cuja capacidade de transcender limites é notável. Nas discussões, cada membro contribui para a articulação dos conhecimentos por trás de um filme, já que o grupo é formado por pessoas de várias áreas profissionais, inclusive da própria indústria cinematográfica. Assunção Hernandes, produtora responsável pela realização de mais de 40 filmes e frequentadora do Cinema Paradiso desde os seus primórdios, afirma que “participar das reuniões me deu a oportunidade de compartilhar com pessoas de diferentes visões, o mundo cinematográfico com toda a sua diversidade. Como eu já era produtora antes de entrar para o grupo, e com uma definição forte do que queria colocar na tela, eu me enriquecia com as múltiplas visões, não só ampliando a minha própria visão, mas contribuindo, também, para alargar a visão do outro”. As reuniões favoritas de Assunção são as que têm divergências de opiniões e que geram polêmica. “Por divergentes aguerridos que somos em relação ao filme assistido, o final é sempre amistoso e fortalece o laço de nossas amizades”, acrescenta a produtora, sentindo-se privilegiada por participar do Cinema Paradiso.

D. Elza é enfática em dizer que o “grupo é a menina dos meus olhos. É como uma plantinha que a gente rega e cultiva diariamente. É isto que o grupo simboliza para mim,” afirma com orgulho. Para Cláudia, a palavra que sintetiza a experiência de muitos anos de discussão é escuta. “Por mais que tenha sempre aqueles que gostam de falar muito, todos exercitam a escuta nos nossos debates. Muitas pessoas não estão acostumadas a escutar e esta é uma característica muito importante do nosso grupo. É uma coisa que eu descobri com o tempo, uma coisa que eu também aprendi a fazer”, reflete.

Elza Mogadouro com a cineasta Laís Bodansky e o diretor/roteirista Luís Bolognesi em 2016 

Visto que o Grupo Cinema Paradiso colheu tantos frutos nos seus primeiros 25 anos, será que ele consegue celebrar o seu jubileu de ouro em 2045? “Difícil pensar nos próximos 25 anos quando estamos passando por momentos tão delicados, como o fechamento das salas de cinema e agora a pandemia. Mas, vejo o grupo existindo daqui a 10 anos. Acho que teremos de nos adaptar. Duas características fundamentais do grupo é que, diferentemente dos cineclubes, as pessoas podem ver o filme no horário que mais lhes convier e o filme não é discutido logo após a exibição. São características que fazem do Cinema Paradiso algo muito singular e que deu muito certo. E que hoje independe, inclusive, das salas de cinema. Assim sendo, a essência do grupo não se perde e pode ser preservada indefinidamente. Basta as pessoas quererem se reunir para conversar sobre o filme”, conclui Cláudia.

Este ano, o Grupo Cinema Paradiso não poderá celebrar seus 25 anos presencialmente, mas a julgar pelo entusiasmo de seus frequentadores e ex-frequentadores (ver Perfil [+]), o grupo ainda tem muito fôlego e continuará a existir por anos a fio.

Veja também: ALGUNS FATOS & CURIOSIDADES DO GRUPO CINEMA PARADISO [+]
Veja também: QUEM É O GRUPO CINEMA PARADISO [+]



10 comentários:

Janete disse...

Que artigo maravilhoso!!!
Saudades dos tempos que eu participei do grupo, dos jornais, de muitas pessoas!!!
Ver as fotos deu uma emoção. Parabéns João Moris!

DEBORAH ROSARIA BARBOSA disse...

Eu quero comentar que fui agraciada de participar do grupo e me mudei para Belo Horizonte e aqui sou professora na UFMG. Criei um grupo chamado Com ins Piração que teve também inspiração do Grupo Cinema Paradiso. O meu grupo a gente discute filmes mas não só, também visitamos exposições de arte, museus e teatro em BH. Sou muito grata pelo convite e que venham mais 25 anos!!! Beijos. Deborah - BH.

Adriana Esther Suarez disse...

Excelente trabalho de um grupo imparável!!! Parabéns, amigos!!!! Saudades imensas de vocês e de esses encontros.

Marialva Monteiro disse...

Quero dar os parabéns ao grupo pelos 25 anos!
Sempre acompanho a programação e cheguei a fazer um pequeno texto quando foi exibido o filme "Branco sai, preto fica"
VIDA LONGA ao grupo Cinema Paradiso!
Marialva Monteiro

Unknown disse...

Belo texto!
Muito emocionante! É muito bom fazer parte da história do Grupo Cinema Paradiso!
Vida longa ao grupo!

Rita Leão disse...

Prosperidade ao grupo! Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história.

Salomé disse...

Parabéns e vida longa! Como disse lá no whatsapp, é muito amor envolvido!!!
Toda minha gratidão por ter conhecido o grupo e fazer parte! Abraços!!!

Oziris disse...

Parabéns, João, pelo artigo minucioso e ao mesmo tempo leve. Parabéns à Dona Elza e à Claudinha, mães dessa criança, agora não tão criança. Parabéns a nós todos por termos esse cantinho de convívio, escuta e reflexão.

Maria Emília, a Mila disse...

João querido, adorei o seu artigo. Por ele, com leveza, você nos dá voz, expressando a importância que o Cinema e o Grupo têm para para seus participantes. Parabéns, querido!
À Dona Elza e Claudinha, meu respeito e admiração. Congratulações, queridas!

Cecília Mogadouro disse...

Lindo artigo, João! Me emocionei! Tenho muito orgulho da minha mãe e da minha avó, e tenho certeza de que essa experiência é um dos pilares da minha formação. Vida longa ao grupo!