VALOR SENTIMENTAL

 20.01.2026
Por Ronilson de Souza Luiz


Sentimentos não podem ser mensurados.
Sentimentos não podem ser comparados.
Não tem padrão, logo não tem valor que possamos calcular em euros, dólar ou reais.
Portanto, a tradução do título – valor sentimental – forma uma reflexão filosófica de antemão. Vejamos:
Se tem sentimento – não tem valor.
Se tem valor – não tem sentimento.
(bem ao gosto dos que apreciam ou foram influenciados por Ingmar Bergman, que nos deixou, em 2007, na mesma Suécia em que nasceu)
A dor dentro da dor;
O filme dentro filme;
A arte dentro da arte;
A cura pela dor, pelo filme e pela arte – dentro do cinema, que fecha com a cena – feita para a protagonista Nora, que atua no teatro.
A cena final - era estúdio, era palco, havia público, não era público, eram assistentes, técnicos de luz e som, câmara?
Uma outra mulher lhe traz um copo de água, enquanto a emoção nos toma sentados na poltrona, alguns de nós acreditando que estávamos no teatro.
Não teve palmas, não teve ovação, ocorreu um imprevisível acerto de contas com a vida, com a história, entre pai e filha. A meu sentir, o ciclo ou o círculo se fecha sobre o neto. É a partir da herança e do legado que o neto carregará a saga – que a história da família será recontada.
Contada novamente, por novos atores, o que ele, provavelmente, o neto, ainda não saiba é que a dor também estará lá – na singela cena, para o garoto.
Dor por não poder fazer as perguntas que gostaria – no momento em que o avô tiver partido.
Dor por entender – qual a razão da bisavó no filme do avô?
Dor por não poder – se casar com tia Nora. Essa o tempo supera, as outras são mais complexas.
O nome Nora tem origens diversas, significando "a reluzente/resplandecente" (de Eleonora/Helena) ou "mulher honrada/com princípios" (de Honória).
Já Gustav - o nome Gustavo tem origem germânica/sueca e diversos significados associados à proteção, liderança e nobreza, como "protegido por Deus". Sendo um nome histórico de reis e nobres, carregando um sentido de força, estabilidade e autoridade.
Em tempos de airbnb e Netflix – o que significa uma residência – um lar - que está na família há gerações? A arte alarga a vida – mas a arte não resolve a vida. A vida é resolvida por nossas ações e gestos. Às vezes, por um ato. Uma palavra, um pedido, um livro - Hamlet, um filme.
Aqui o processo criativo – é parte do processo de investigação do motivo do suicídio da mãe de Gustav quando ele tinha apenas sete anos.
A etimologia do sociólogo Èmile Durkheim, desfila silenciosamente pela tela: o diretor sabe ou acredita que se tratou de um suicídio anômico, não deve ter sido na classificação de Durkheim, nem egoísta ou nem altruísta.
Nós espectadores perguntaremos e a tentativa da filha – que tentou contra a vida - em qual tipo de suicídio se classifica?
Todos nós conhecemos um pouco os traumas e agruras dos artistas, qualquer artista.
Voltemos a parte esperançosa no neto – nossas famílias têm relações com fraturas – algumas o tempo corrige, outras o tempo força a imersão, a vir à tona, a fratura do filme ao apostar nos efeitos da memória para cada um de nós e tende para a imersão.
Mas não é qualquer imersão, ela é sublime, e completa até onde pode ser.
De longe para nós, o olhar do pai para a filha – é um texto completo – com introdução, desenvolvimento e conclusão – dizendo, na minha tradução:
“... não basta ser reconhecido e validado pelos de fora, pela crítica, pelos prêmios – cada um de nós precisa do reconhecimento dos seus, de quem está próximo, de quem traz o mesmo sangue, de quem nos chama de pai ou mãe”.
O mundo conhecerá aquele filme – que só existiu para nós que vimos o filme
O teatro – se vangloriará – dizendo tá vendo? – não é cinema, é teatro, nós do teatro é que demos origem às demais modalidades da arte da representação.
Tudo começa com o teatro, com a encenação.
José Saramago escreveu o ensaio sobre a cegueira, depois o ensaio sobre a lucidez. Aqui, o diretor faz uma espécie de ensaio sobre a dor, com camadas muito acima do esperado, por que é dor – retratada, em metalinguagem, dentro da dor.
Se em 2026 – a expressão sal da terra, já perde força – hoje, precisamos ser o sal do sal. Ou dito de outra forma, pensar no céu dentro do céu, a luta dentro da luta.
Esticar ainda mais a dor – diante da dor do outro -, que é sempre intraduzível e pessoal – causa em nós um sentimento muito positivo - de que ainda temos uma longa caminhada pela frente.
No filme enquanto a câmera mostra uma rachadura na parede, entendemos que algumas cicatrizes persistem, por vezes até parecem adormecidas ou não sinalizam não doer, até que ao voltar da escola – a criança saiba ou veja efetivamente uma cadeira, uma corda e um silêncio profundo, que se estende ecoa no tempo.
Registrou um crítico de cinema – “Falta misericórdia nela, na Nora. É como se os ferimentos tivessem enchido sua alma de ira, o que, segundo o pai, não é bom para o amor e nem para a arte.
Esse paralelo, entre o que vivemos e o que expressamos pela criatividade, é a força animadora de um filme que brilha não só borrando a linha entre realidade e ficção, como nos transportando de uma para a outra”.
Nora, e aquele lugar, a casa, foram transformados através, por meio da arte. Assistindo ao filme, passamos por algo semelhante.
A protagonista e seu pai são representativos de milhares de artistas que têm total controle e confiança de seu processo criativo, mas não têm a mínima capacidade de lidar com a própria vida fora dele – um domínio não remedia o outro.
Não é por outra razão que, nos Estados Unidos, são aclamados os atores e atrizes que chegam a excelência no teatro, na tv e no cinema – simultaneamente. São poucos, são raros. Lá tem até um nome especial para que atinjam tamanho domínio.
Vale o mesmo para o mundo esportivo, o medalhista em natação, olha para o medalhista em corrida e os dois olham para o medalhista no ciclismo. Tudo porque os três isoladamente sabem que existe o triatleta – aquele nada, corre e pedala no menor tempo possível – mantendo a excelência nas três modalidades.
Como é possível?
Talvez nós do grupo de cinema, estejamos reunidos mais uma vez, para cada um - a seu modo, com as suas ferramentas, com dores e cicatrizes personalizadas, com as nossas circunstâncias tentarmos colher o que coletivamente estamos semeando, nesta sala.
A arte cinematográfica – votada por nossos temperamentos e gostos diversos – quase sempre produz ....garoa, respinga, às vezes, e de tempos em tempos deixa algo completamente novos- na singela vida que levávamos.
Lembro o espanhol Ortega y Gasset, que já citei outrora.
Todo dizer é deficiente – diz menos do que quer;
Todo dizer é exuberante – dá a entender mais do que se propõe.
Começamos bem a ano de 2026, e que permaneçamos no bom caminho, especialmente, que nenhum nós desistamos da jornada, da caminhada, das lutas, e quem sabe lá na frente, digo com a mesma idade que Gustav – ele fez o primeiro filme que é mostrado dentro do filme, quando tinha 55 anos. A idade que tenho hoje.
15 anos depois, ela volta a filmar, agora aos 70.
O diretor Trier nasceu em 1 de março de 1974 – ele tem apenas 51 anos e nasceu em uma sexta-feira.
Bergman morreu com 89 anos.
É o diretor nos dizendo, esperem o melhor ainda está por vir.
Não pouco.
É a arte no estágio máximo, na altura mais elevada.
 
Ronilson de Souza Luiz

(Dedico ao Samuel, meu filho que completou 08 anos, na mesma data que o Zé, companheiro da Claudinha fechou 80 voltas em torno do sol. Dedico também à Lucy, neta de Armênios, que revelou a idade que fará este ano, na reunião. Para quem não estava é diferença dos dois sagitarianos de 19 de dezembro, mas eu não revelarei).
Bons ventos.
Prossigamos.

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