03.02.2026
Por Rianete Lopes Botelho*
Apesar de ainda não conhecer suficientemente o mundo, admito que hoje já não fico tão perplexo quando percebo minha ignorância diante de tantas incógnitas da vida. Acredito que esse progresso seja fruto dos debates, de ideias, que movem o meu funcionamento. São eles que me alicerçam e me alimentam e, se muitas vezes abalaram as minhas certezas, também ampliaram a minha percepção do viver humano e me fizeram mais tolerante. Afinal, há 30 (trinta) anos convivo com discordâncias e pluralidade de opiniões.
Passei por mudanças, como é natural, mas há quem me veja hoje como sendo outro grupo. Na verdade, não houve mudanças essenciais, mas adequações a situações novas. Elaborei lutos e o mais difícil foi o da perda da querida Maria Elza, a inspiradora de minha existência. Sobrevivi ao bolsonarismo e à epidemia de Covid19. Saí fortalecido e com disposição de continuar o meu percurso mesmo sabendo que nele encontrarei novas circunstâncias às quais terei que me adaptar. Mas sei, também, que continuarei me reconhecendo na minha singularidade. Sou um Grupo que procura respeitar a diversidade humana e que exercita a escuta. Não são tarefas fáceis, pois é muito mais cômodo ouvir o que confirma nossas certezas (o que já está sedimentado em nós como certo) do que aquilo que possa questioná-las
O trabalho de discussão em grupo pode trazer à tona inquietações adormecidas que exigem coragem para serem enfrentadas. Mas o respeito e a escuta atenta propiciam o acolhimento necessário nessa tomada de consciência.
A propósito, penso que o processo evolutivo que permitiu ao homem a capacidade de consciência criou, ao mesmo tempo, a fonte de suas maiores angústias. Acho que foi assim que perdemos o paraíso. Ser consciente de nossa limitada condição humana é o que nos torna criaturas trágicas e permanentemente insatisfeitas. Mas a falta que passou a nos habitar também é o que nos leva à busca constante de aprendizagem. Como essa incompletude nunca é preenchida, o homem está sempre adquirindo novos conhecimentos. Assim, a humanidade criou a filosofia, as ciências, as artes, as religiões, a tecnologia. Mas, apesar de todas as conquistas, continuamos sendo fruto das forças da sociedade e submissos à força do nosso inconsciente, mesmo sem o sabermos. Diante de nossa insuficiência, o máximo que conseguimos fazer, quando a realidade nos limita, é recorrer ao nosso imaginário onde tudo é possível. E é aí onde as artes apresentam sua melhor expressão. Porém quando o real além de não bastar é sentido extremamente ameaçador, a loucura passa a ser um recurso mórbido de fuga para aqueles com correlação genética para manifestá-la.
A pandemia de Covid19 foi uma ameaça, mas também pode ter sido para mim uma espécie de rito de passagem. Tenho a peculiaridade de, sendo um grupo, só existir enquanto as pessoas que me compõem se reunirem regularmente. Entretanto, as autoridades sanitárias recomendavam o isolamento social. Não ter contatos físicos era a norma vigente para evitar o contágio. Contraditoriamente, a ameaça à minha sobrevivência não era o contágio, mas o isolamento. A solução para o impasse foi fazer reuniões virtuais – recurso já adotado para trabalhos à distância – até ser possível retornar aos encontros presenciais. Acho que saí fortalecido dessa prova, pois pude não apenas enfrentá-la, mas consegui assumir minha independência, migrando da casa materna no bairro Bosque da Saúde para casas de cultura na Vila Madalena. A primeira parada foi no espaço de psicologia bdg, da nossa amiga Eládia, por alguns meses. Depois, convidado por Nabil Bonduki, mudei para a Casa da Cidade, instituto voltado à formação para a Cidadania, na mesma rua Rodésia. O primeiro debate no novo espaço cultural aconteceu no dia 17 de setembro de 2023. Qual foi o filme? Ah! Foi o maravilhoso documentário Retratos Fantasmas de 2023, realizado pelo aclamado diretor Kléber Mendonça Filho. Desde então, as nossas reuniões têm sido exclusivamente presenciais.
Essas referências a um feliz desfecho me fizeram lembrar de outras alegrias que a vida adulta me trouxe. Tornaram-se realidade alguns projetos sonhados como, por exemplo, a criação do Janela Aberta, coletivo que reúne profissionais das áreas de Cinema e Educação, cuja proposta base é atuar em prol da construção de uma cultura cinematográfica, tendo o cinema como meio ou temática educativa. Outra realização foi reunir em livro - aos 20 anos de existência - algumas crônicas anteriormente publicadas no nosso jornalzinho físico. Já mais recentemente, publicamos em forma de livreto as fichas técnicas resumidas dos três filmes melhor avaliados entre 1995 e 2025 – foi uma edição especial de aniversário, também. Orgulho-me, ainda, por ter sido fonte de inspiração de alguns grupos de cinema espelhados na minha forma de funcionamento. Novas realizações estão em fase de planejamento como um curta-metragem e um documentário sobre a minha trajetória. Tudo isso me revigora e me estimula. Posso dizer que sou não só um grupo longevo como também um grupo produtivo, que dá frutos como filhos gerados. Sei, entretanto, que não é só mérito meu ter chegado até aqui. Se as circunstâncias tivessem sido mais desfavoráveis do que benéficas, certamente eu teria deixado de existir, como tantos grupos que se iniciam e não prosperam. Reconheço que tudo o que foi conquistado eu devo principalmente à Claúdia Mogadouro, cuja dedicação ao meu desenvolvimento foi sempre constante, eficiente e competente. Além disso ela acompanha de perto o desenvolvimento dos projetos a que me referi.
Agora, sinto que já posso me apropriar de um passado que é a minha história e que me define. Sou um grupo e, como tal, composto por pessoas as mais diversas. Mas não sou a soma dos que me compõem, pois tenho características próprias que me dão uma identidade singular. Sou basicamente um grupo aberto, constituído por pessoas que amam cinema, que têm prazer em criar vínculos afetivos com pessoas reais, que têm o compromisso de suportarem divergências e críticas por saberem que assim podem ampliar suas capacidades de argumentação, de reflexão bem como suas visões de mundo.
Acredito que o cinema, ao nos transportar para outros lugares e situações, permitindo-nos vivências que não são necessariamente do nosso cotidiano, pode aumentar nossa capacidade de identificação com o diferente, com o divergente. Faz parte da magia do cinema ajudar a repensar a nossa relação com o mundo.
Eu, Grupo Cinema Paradiso, tenho 30 anos.
*Rianete Lopes Botelho é psicóloga, frequentadora longeva do Grupo e autora do livro Crônicas da Sala Escura, volume 2 da Coleção do Grupo Cinema Paradiso



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