VALOR SENTIMENTAL
Sobre as rachaduras do romance familiar freudiano

Por Joaquim Pereira da Silva Júnior

Destacando que falo sempre de um lugar “do que sinto”, onde se processam os fenômenos em mim, que não sei qual é esse lugar, onde ele fica, penso que esse filme é um belo exemplo desse processar, pois lembro da epifania que vivi em determinado momento do filme - não lembro mais, exatamente, qual foi, porque não foi UM momento, UMA cena, mas o conjunto da obra que ia se apresentando ali, na minha frente - onde uma onda de grande emoção me invadiu de dentro para fora e me senti grato por estar sentindo aquelas sensações diante de uma obra, um produto humano divinal, esse encontro com algo que saltava da tela e ao mesmo tempo, me envolvia num mar de pertencimento. Talvez o tal sentimento oceânico, que Freud, de alguma forma, em “O Mal-estar na civilização”, precisou negar, ou melhor dizendo, precisou investigar e não ficar simplesmente paralisado nessa epifania, ou no dogma religioso do encontro com Deus, mas do encontro consigo mesmo, uma pertença, uma presença. Semelhante a esse momento, lembro de um outro, onde contra a tela mais sombria dos cenários nórdicos, corpos brancos nórdicos pareciam gritar para fora, através do silêncio nórdico, o oceano turbulento de paixões que avassalam os vínculos nesse romance familiar com sua(s) rachadura(s). Não se trata aqui de imprimir nenhuma coloração étnica preconceituosa, racista, mas uma obra resultado de uma direção magistral que nos escancara diversas formas de sentir e expressar o sentido. Isso vai ficando cada vez mais evidente, a cada passo que damos percorrendo esse filme e podemos olhar para tudo isso a partir de diferentes vértices, que não competem, mas que se complementam, sem nunca se completar. A obra é aberta, não só no seu final, mas no seu transcurso total, desde o seu início. Impossível negar a existência da “frieza nórdica”, desde o seu ponto de vista químico-biológico, assim como na sua cultura e nas manifestações do seu psíquico. Vejam, eu digo, manifestações do seu psíquico, porque o psíquico está sempre em “ebulição”, ou, pelo menos, em potencial ativação dessa ebulição, pois o oposto disso é a morte, seja ela física - que impede a vida psíquica no seu todo -, seja ela psíquica, - que impede a física de atuar. A ebulição, a turbulência, está o tempo todo presente, dentro da tela, dentro das personagens, a ponto de transbordar e ressonar em nós (em mim), espectadores da obra. Na tentativa de resgaste feita em campo analítico, esse resgate se processa pelo menor fio identificável na relação, no vínculo, no acontecer do encontro analista-analisando, como, talvez, aquela rachadura na casa presente desde a construção da mesma e na constituição psíquica de seus habitantes, atravessando gerações. Há que haver as rachaduras nos romances familiares. Caso contrário, perpetuam-se os dogmas e o sentimento oceânico de Romain Rolland esvai-se por si, em si próprio, sem qualquer possibilidade de elaboração e transformação. Era isso que Freud questionava. A rachadura existe para mostrar a condição humana da imperfeição, da incompletude, e de que existimos não só a despeito da rachadura, mas que ela é vital para seguirmos em processo. Caso contrário, estaremos mortos psiquicamente, mesmo que vivos fisicamente. A questão não é a simples existência da rachadura, mas o que se processa a partir das rachaduras, coisa que, de novo, acontece na relação, no vínculo, que precisa ser investido, mesmo sem garantia de sucesso, seja lá o que sucesso neste caso possa significar.

Desta forma, encontramos duas irmãs, existidas desde sempre pelo mesmo trauma, do assim chamado “abandono” do pai, que um dia se foi. E que um dia retorna, quando seu ocaso se aproxima. E se aproxima oferecendo novas rachaduras, a partir das suas próprias rachaduras. Quem é esse homem? quem ele pensa que é? aparecer assim, depois de tantos anos de abandono? um aproveitador? um salvador da pátria? um grande egoísta? um Narciso reencarnado? ele pouco diz. Ele mais oferece e não desiste diante da recusa sofrida pela filha que idealiza o que é o amor, assim como idealiza o que é o abandono, e não consegue, de fato, viver nenhum desses cenários no palco da vida real, pois a vida real no palco, aquilo que ela é - uma atriz - dá pânico de ser. Recusado, esse pai tenta uma artimanha, para si e para a filha: depositar nas mãos da atriz americana tecnicamente correta – tão correta que tem dificuldades em acessar seus erros, suas emoções, suas epifanias -, depositar nestas mãos algo que é pura sensibilidade, algo tão delicado e sofrido, como o suicídio real de sua mãe a ser revivido, agora por sua filha, nas telas, num processo de ligação mental transgeracional inexplicável, cujo processamento ainda é da ordem do mistério para nós, reles mortais, mas que ele, com sua “alma de artista” capturou nas ondas gélidas dos mares nórdicos, talvez com o auxílio do deus Aegir, grande poderoso dos mares do hemisfério norte, capaz, ao mesmo tempo, de aparecer subitamente na superfície das águas e afundar embarcações, mas também, capaz de conduzir outros deuses ao seu salão de entretenimentos e oferecer seu hidromel para puro deleite.

A ambivalência humana dos deuses, ou talvez, a ambivalência divina de ser humano.

Nora, na condição de uma das nove filhas-ondas de Aegir, entre turbulências oceânicas provocadas por seu pai, aceita o fluxo das águas que lhe levarão para outras direções.

Seguem, assim, rachaduras, ondas e tempestades, única chance de mudança no concreto frio e aprisionador do ressentimento estéril e destrutivo.

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