UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO CINEMA NO CINESESC

 26.08.2026
Por João Moris

Se tem uma coisa que nós – cinéfilos do Grupo Cinema Paradiso – adoramos é uma boa desculpa para largar tudo, sentar no escurinho do cinema e se entregar de corpo e alma à telona. A Mostra Amor ao Cinema, que chega à sua 4ª edição entre os dias 9 e 26 de setembro no CineSesc, é exatamente esse tipo de convite irrecusável.

A Mostra traz 52 filmes organizados em dois eixos principais: Filmes sobre Cinema, dedicados aos bastidores da produção audiovisual e à cultura cinematográfica, e Filmes de Ruptura, que reúnem obras que desafiaram convenções narrativas e estéticas ao longo da história. A curadoria, vale dizer, tem uma marca registrada desde a primeira edição, em 2023: um olhar voltado para clássicos e inéditos que colocam o próprio cinema em xeque, com uma pegada transgressora.

Uma chance de ver, rever – e descobrir – os clássicos na tela grande

Ocasiões de ver e rever clássicos na tela grande são cada vez mais raras e preciosas. Afinal, com o advento do streaming e dos filmes sob demanda, não há mais nada sagrado e quase todos os filmes estão ao alcance de todos. Mas, a Mostra Amor ao Cinema é uma daquelas oportunidades imperdíveis de a gente saborear filmes alternativos, sem pausa para checar mensagens no whatsapp, sem visitas à cozinha ou idas ao banheiro.

Gregory Peck e Ingrid Bergman em Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock (Foto: Divulgação)

Assim, a Mostra tem Metrópolis (1927), o visionário filme do diretor alemão Fritz Lang; O Encouraçado Potemkin (1917), do diretor soviético Sergei Eisenstein, que será exibido em duas versões diferentes de trilha sonora, uma delas assinada pelo duo britânico Pet Shop Boys; Um Cão Andaluz (1929) e A Idade do Ouro (1930), dois filmes surrealistas pra lá de provocadores do diretor espanhol Luis Buñuel, e Quando Fala o Coração (1945), do mestre Hitchcock.

Ainda na esteira dos clássicos, há filmes de cineastas mais contemporâneos que se tornaram diretoras e diretores cultuados, como a argentina Lucrécia Martel, a belga Chantal Akerman, a tcheca Vera Chytilová, as francesas Claire Denis e Niki de Saint Phalle, os americanos Mel Brooks, John Cassavettes, John Carpenter e John Waters, o senegalês Ousmane Sembène, o italiano Michelangelo Antonioni, o polonês Krzysztof Kieswlowski, entre outros.

E a ótima notícia é que há muitos filmes nacionais na Mostra Amor ao Cinema. Entre os inéditos, tem os documentários Arquivo Vivo (2026), de Vincent Carelli, Milton Gonçalves, Além do Espetáculo (2025), de Luiz Antonio Pitar, Para Vigo me Voy (2025) de Lirio Ferreira, Fernando Coni Campos – Cada um Vive como Sonha (2025), de Luis Abramo e Pedro Rossi, O Coringa do Cinema (2019), de Sérgio Kielling, Filmar ou Morrer (2025), da diretora brasileira radicada na Inglaterra Lucia Nagib, e a comédia Morte e Vida Madalena (2025), de Guto Parente.


Estre os clássicos e reprises brasileiros, o lendário Limite (1931), obra seminal do cineasta Mário Peixoto, o irreverente Ladrões de Cinema (1978), de Fernando Coni Campos, A Negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo, Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul, Mazzaropi – O Cineasta das Platéias (2002), de Luiz Otávio de Santi, Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, Humberto Mauro (2018), de André Di Mauro, e o criativo e divertido documentário sobre a pornochanchada Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava (2017), de Fernanda Pessoa, que estará presente para o debate após a sessão.

Entre os filmes inéditos internacionais, destacam-se A Noite Já Está Partindo (2025), dos argentinos Ramiro Sozini e Ezequiel Salinas, A Divina Comédia (2025), do diretor iraniano Ali Asgari, Cinema Laika (2023), do diretor finlandês Veljko Vidak, Homenagem (2021) do diretor sul-coreano Shin Su-won, Meu Nome é Maria (2024), da diretora francesa Jessica Palud, Fragmentos da Vida (2021), do diretor chinês Wei Shujun, e White Snow (2025), do diretor indiano Praveen Morchhale.

Vale destacar dois filmes, presentes na programação, do documentarista, crítico e historiador de cinema norte-irlandês Mark Cousins, um dos nomes mais respeitados da atualidade quando o assunto é pensar a história do cinema de forma acessível e apaixonada: A História dos Documentários: Introdução (2026), o filme de abertura da Mostra, inédito no Brasil, que será exibido dia 9/9, e A História do Cinema: Uma Nova Geração (2021), exibido dia 24/9.


Príncipes e Princesas

Por fim, seguindo uma tradição de anos no CineSesc, o Cineclubinho irá exibir duas obras francesas memoráveis do cinema infanto-juvenil: a encantadora animação Príncipes e Princesas (2000), de Michel Ocelot, e Maya, Me Dê um Título (2024), do diretor Michel Gondry, que transforma as sugestões de sua filha em curtas-metragens que combinam imaginação, humor e delicadeza.

Os bastidores da curadoria: um trabalho de um ano inteiro

A seleção de 52 títulos da Mostra Amor ao Cinema resulta de um criterioso processo de curadoria de um ano, que analisou mais de 300 filmes focando em diversidade geográfica para além do eixo Europa-EUA. Além de incluir produções de África, América Latina e Oriente, os cinco curadores tomaram cuidado para priorizar a diversidade de gênero e a valorização de realizadoras, desafiando a predominância histórica masculina atrás das câmeras.

O processo de seleção adota também um filtro ético rigoroso, excluindo obras que, apesar da ousadia estética, reproduzam misoginia, racismo, xenofobia ou homofobia. Assim, a mostra busca romper com convenções cinematográficas sem reproduzir preconceitos históricos, garantindo uma programação plural e contemporânea.
 
Indagações: o que sobrou da transgressão e da ruptura?

Aqui, trago comigo algumas reflexões para além da programação desta Mostra, que gostaria de compartilhar com o Grupo.

É certo que, voltar o olhar para os clássicos – muitos deles lá dos primórdios do cinema – é fundamental para quem quer ter uma perspectiva mais ampla sobre a linguagem cinematográfica. Mas será que conseguimos realmente absorver essa linguagem, ou apenas a admiramos por seu valor estético e cult? 

É fácil desconstruirmos em nosso repertório e julgamento um cinema esteticamente atraente, comercialmente calculado e tão gourmetizado como a maioria dos filmes em formato digital feitos hoje ao redor do planeta? E, afinal, o que significa "entender" de onde vieram certas soluções de montagem, de fotografia e de narrativa? Basta reconhecê-las historicamente, ou é preciso deixar-se incomodar por elas, como incomodaram há décadas?

Talvez seja exatamente esse incômodo, e não o reconhecimento erudito, o que dá profundidade ao nosso olhar como espectadores. E fica outra pergunta no ar: será que os filmes de hoje também vão carregar, daqui a 50, 100 anos, a marca inconfundível do nosso momento histórico? Ou estarão tão polidos, tão universais na fórmula, tão "netflixados", que não deixarão rastro nenhum de época?

Talvez esse resgate dos clássicos seja ainda mais necessário justamente agora, num momento em que muitos filmes – inclusive aqueles ditos artísticos, a maioria vindos de festivais de cinema da Europa e dos EUA, que tanto discutimos aqui no Grupo – parecem estar cada vez mais redondinhos, mastigados, sem muita disposição para arriscar na linguagem ou propor desafios reais a quem assiste. Será que ainda cabe ruptura, ou transgressão e desconforto genuíno, num cinema pensado sobretudo para agradar ao público e não decepcionar?

Talvez seja justamente esse contraste que mantém os clássicos pulsando: eles nasceram, muitas vezes, do impulso exatamente contrário – e cabe a nós perguntar se ainda sabemos reconhecer esse impulso quando ele aparece diante da gente. Ou simplesmente não queremos ser incomodados? Será que essa linguagem realmente se transformou através das décadas, ou apenas encontrou novos suportes, novas tecnologias, para repetir – travestidas – as mesmas rupturas de sempre?

Deixo aqui o convite a essas reflexões que a própria Mostra Amor ao Cinema parece querer provocar.

E fica também a sugestão para o Grupo Cinema Paradiso organizar a agenda para aqueles que querem realmente assistir a alguns filmes, pois a grande maioria desses filmes só vai ser exibida em uma única sessão.

A assessoria do CineSesc avisa que 50% dos ingressos estarão à venda online e 50% nas bilheterias do Sesc. O fato de o filme estar esgotado online não quer dizer que o filme estará esgotado nas bilheterias. Então, é sempre possível encontrar ingressos, mesmo de última hora.

E, quem sabe, os membros do Grupo se mobilizem para, em petit comitê, fechar quórum para descer juntos até o CineSesc. Afinal, até um filme ruim ou “difícil” pode ficar bom em boa companhia!

Mais informações e a programação completa com os dias e horários dos filmes estão em sescsp.org.br/amoraocinema

INFORMAÇÕES GERAIS

MOSTRA AMOR AO CINEMA

De 9 a 26 de setembro de 2026

CineSesc - Rua Augusta, 2075 | São Paulo

Ingressos à venda a partir de 26/08, às 19h, nas bilheterias do Sesc São Paulo, aplicativo Credencial Sesc e site centralrelacionamento.sescsp.org.br

Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia) | R$ 6 (comerciários)

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