21.09.2026
Por Fernando Machado*
Confesso que fui assistir ao filme do diretor Cédric Klapisch sem grandes expectativas, e o que vi me surpreendeu agradavelmente, e até me fez refletir sobre quão pouco sabemos, em geral, sobre o nosso próprio passado familiar.
Desse modo, achei bem interessante e original a trama do filme, onde cerca de trinta pessoas, a maioria sem qualquer contato prévio entre si, são informadas sobre sua relação familiar com Adèle Vermillard (interpretada de forma magistral por Suzanne Lindon), a proprietária de uma velha casa na Normandia que está fechada desde 1944, e cuja venda propiciará espaço para o estacionamento de um grande empreendimento comercial.
O nome original do filme, em francês, é “La venue de l'avenir”, que pode ser traduzido como “A chegada do futuro”. Em inglês, e em português, o nome do filme mudou para “As cores do tempo”.
Mas que cores são essas? Comecei a pesquisar pelo nome Adèle, que é tipicamente francês, tem origem germânica nos tempos medievais e, em português, pode ser relacionado a “Adelaide”, uma de suas variantes.
Já a pesquisa sobre o sobrenome Vermillard trouxe mais sorte: também tem origem medieval e pode ser dividido em dois componentes: “Vermi” (associado à cor vermelha, denotava alguém de cabelo ruivo ou que trabalhava com corantes, pigmentos e tinturas, especialmente de cor vermelha) e “Llard”, que é um sufixo com a característica de intensificação. Nossa Adèle da obra cinematográfica não é ruiva, mas veste-se de vermelho, destacando-se na multidão.
Na trama, quatro dos trinta recém revelados descendentes de Adèle são escolhidos para representar o grupo familiar e viajar de Paris até a zona rural da Normandia, para acompanhar a reabertura oficial da propriedade: Seb (produtor de conteúdos digitais), Céline (executiva), Abdel (professor) e Guy (apicultor). Os quatro não poderiam ser mais diferentes, em termos de idade, profissão ou temperamento. A reabertura da velha casa, abandonada desde a época da ocupação alemã e da invasão dos Aliados, revela aos primos um cenário de desolação, bem como muitas fotografias antigas.
Uma das boas surpresas do filme é o modo bem concatenado com que são relacionados os acontecimentos do passado (1895) e a época atual: de repente, aquelas pessoas das fotos tomam vida e somos levados a conhecer a intrépida aventura de Adèle, que aos 21 anos deixou seu amado Gaspard na Normandia rural e viajou a Paris (em carro de boi e barco) para conhecer sua mãe, que a havia deixado aos cuidados da avó (agora recém falecida), quando Adèle ainda era um bebê.
Um detalhe interessante é a forma como o presente e o passado são retratados na película: o passado é mostrado através das chamadas “lentes anamórficas”, que dão uma impressão mais panorâmica e achatada dos cenários e dos personagens, além de utilização de mais luz natural e efeitos de “granulação” das imagens, e o resultado lembra o que veríamos num filme “antigo”, a exemplo de “Ben-Hur”; e o presente é mostrado com as chamadas “lentes esféricas”, que mostram o que estamos acostumados a ver em filmes atuais. Deste modo, consegue-se facilmente distinguir, no filme, uma época da outra.
Durante a viagem, Adèle conhece dois jovens, Anatole (aspirante a pintor) e Lucien (fotógrafo). A Paris de 1895 é uma cidade moderna e fervilhante, com a Torre Eiffel recém construída dominando a paisagem, e multidões de pessoas circulando pelas ruas dessa fantástica metrópole de cerca de 2,5 milhões de habitantes.
A França está no auge da chamada Belle Époque, uma era de otimismo e progresso acentuado que durou de 1871 a 1914. Após uma longa busca, Adèle finalmente descobre, com assombro, que sua até então desconhecida mãe, de 41 anos de idade, é uma prostituta de alto padrão.
Por que podemos dizer que ela era uma prostituta de alto padrão? Em primeiro lugar, porque tinha recursos suficientes para lhe enviar, mensalmente, desde que Adèle era bebê, 100 francos, o que dava 1.200 francos anuais. Isso correspondia ao dobro da renda per capita francesa em 1895.
Também é interessante analisar como era a prostituição na França naquela época. Minhas pesquisas indicaram que essa atividade era legalizada e pagava impostos. Alguns números: de acordo com o fotógrafo e escritor daquela época Maxime Du Camp, entre 1871 e 1903, 155 mil mulheres estavam oficialmente registradas como prostitutas, enquanto outras 725 mil foram detidas pela polícia por prostituição clandestina.
Na Paris da Belle Époque, no topo da profissão mais antiga do mundo estavam as grandes cortesãs (Les Grandes Cocottes), que viviam de forma opulenta e frequentavam não só as melhores lojas e restaurantes, como iam frequentemente à ópera.
A seguir, vinham as mulheres que trabalhavam nos bordéis legais (maisons closes), como é o caso de Odette Vermillard, a mãe de Adèle. Em geral, viviam no próprio bordel, tinham um cartão de identificação fornecido pelo governo, eram sujeitas a inspeções médicas periódicas e, em geral, ficavam com 40% a 50% do dinheiro arrecadado com os programas.
Também existiam muitos bordéis ilegais disfarçados sob diversas fachadas, que não pagavam impostos nem tinham inspeções médicas regulares, os quais eram objeto de frequentes operações da polícia de costumes (Brigade des Moeurs).
E, finalmente, havia as prostitutas de rua. Muitas destas mulheres trabalhavam durante o dia, em ocupações de baixa qualificação, e se prostituíam à noite. Estavam na base da pirâmide e eram destituídas de qualquer proteção legal, sujeitas a todo tipo de exploração e abusos por parte de cafetões, de clientes e da própria polícia.
Devastada, Adèle afasta-se da sua mãe e vai procurar seus novos amigos, Anatole e Lucien, em Montmartre, o bairro boêmio de Paris dominado pela vista da Basílica de Sacré Coeur. Acaba morando com eles, e até posa nua para o pintor, com quem até tem um breve envolvimento sexual.
Através deles, e com a ajuda de uma lavadora de roupas que lhe empresta um vestido chique que lhe foi entregue para ser lavado, Adèle tem contato com a alta sociedade da época, encontrando a famosa atriz Sarah Bernardt e expoentes da Fotografia e da Pintura. Ela reata as relações com sua mãe e descobre que seu pai pode ser ou um fotógrafo famoso, ou um pintor famoso.

As atrizes Suzanne Lindon e Sara Giraudeau, que interpretam Adéle e Odette, respectivamente
(Foto: Divulgação)
Ela os procura, e é daí que são tirados o seu retrato e feita a pintura dela pelo próprio Monet em sua casa em Giverny, os quais serão encontrados pelos quatro primos na reabertura da casa da família, mais de cem anos depois. O quadro será analisado por peritos, que concluirão que se trata de um legítimo “Monet”, juntamente com um pedaço de pano que pode ser a inspiração para o famoso quadro “Impressão, Nascer do Sol” (1872), também de Monet.
Voltando ao presente, os quatro primos começam a se conhecer melhor, e trocam impressões e histórias cada vez mais pessoais. Seb mora com seu avô desde que seus pais faleceram num acidente de carro quando ele era criança, e tem um envolvimento inconstante com uma modelo fútil, e um interesse cada vez maior numa cantora (Fleur, interpretada por Claire Pommet, que na vida real também é cantora, e realmente canta no filme). A prima Cèline é bem sucedida no trabalho, mas tem azar nos seus relacionamentos amorosos. O primo Guy é feliz com sua vida como apicultor, e o primo Abdel, cuja família também tem origem na Argélia, está se aposentando.
É hilária a “viagem” alucinógena que eles têm na casa abandonada, após consumirem Ayahuasca, onde Calixte, a especialista em arte e amiga íntima de Abdel, em seus devaneios, agride o crítico dos Impressionistas. Já Céline se vê cortejada pelo próprio Victor Hugo.
Outro ponto hilário é quando, durante a reunião virtual dos trinta membros da família, aparece a imagem de um gato falante, e depois há o som do desapontamento geral quando a pessoa por trás do gato, um septuagenário careca, finalmente aparece em seu lugar.
E muito interessante como, aparentemente ignorando que outras pessoas escreviam as cartas trocadas por Adèle e Gaspard (que eram iletrados), os primos releem as cartas encontradas na casa achando que a forma de comunicação amorosa daquela época era bem “pudica”.
Lembrei do filme “Central do Brasil”, em que a personagem interpretada por Fernanda Montenegro escreverá cartas para outras pessoas, no Brasil do século XX. No filme francês, Adèle aprende a ler, e até se torna professora. O destino de Anatole é mais sinistro: Verdun em 1916...
Achei bastante inteligente a forma de ligação entre o passado e o presente, e também bem ousada a liberdade criativa que o diretor teve, em mostrar a suposta descendência desta família, ainda que de forma não oficial, a partir de um dos maiores pintores do Impressionismo francês.
No início do filme, eu me perguntei sobre as cores, e fui recompensado tanto pelo destaque de Adèle em seu vestido vermelho, quanto pela explosão de cores quando a viagem alucinógena dos primos nos levou aos Impressionistas e sua famosa mostra de arte no século XIX.
Também não se deve esquecer da cena inicial, em que Seb está fotografando sua namorada inconstante num museu parisiense com as obras impressionistas ao fundo, e ela lhe diz que “a obra não combina com a cor do seu vestido”, e sugere mudar digitalmente a cor da obra, o que é acatado por Seb.
O que dizer quando vemos Monet (interpretado pelo mesmo ator que faz o personagem Seb), olha pela janela de seu quarto de hotel em Le Havre e tem a inspiração para sua famosa tela “Impressão, Nascer do Sol”?
Pouco depois desse momento mágico, sua amante Odette, que estava dormindo, acorda e lhe pergunta o que ele está vendo, e ele responde que era o nascer do sol. Ela também olha pela janela e comenta que não está mais vendo o sol nascer.
A resposta dele é fantástica, e praticamente define o espírito do Impressionismo como forma de Arte: “não está mais lá, mas estava” – é o instante, o momento fugaz, que o artista tenta capturar. E não há palavras suficientes para descrever isso para as outras pessoas, é preciso ver a obra para interpretar.
E é exatamente esse colorido do passado, resultado de tudo que os artistas daquela época mágica “viram”, que a modelo fútil dos tempos atuais, em seu infinito desprezo, vê como inútil para “combinar” com seu vestido.
O filme mostra, assim, que a geração contemporânea não só ignora o passado, como também acha que pode mudá-lo a seu bel prazer, sem grandes consequências práticas.
Seb, que inicialmente via a viagem para a Normandia com os primos como uma grande perda de tempo e uma chatice sem fim, agradece seu avô e reconhece o inestimável valor que a oportunidade de conhecer melhor seus primos lhe trouxe. E também o quanto ele mesmo aprendeu com essa nova experiência, que pode inclusive moldar suas decisões de como viverá seu futuro.
Portanto, vejo que o filme, ao fazer essa ponte entre o passado e o presente, provocando e fazendo os espectadores e espectadoras refletirem, é simplesmente genial. No final do filme, também é muito interessante a sequência de fotos da família, desde o século XIX até a atualidade. Foi uma das poucas sessões de cinema que assisti onde a maioria das pessoas não se levantaram para ir embora antes do final dos créditos.
Bom, já se sabe, pelas fotografias encontradas na casa, que Adèle voltou à Normandia e se casou com Gaspard, dando origem à família que agora está reunida. Mas, além da questão fundamental que reuniu a família (a venda da propriedade para ser parte do estacionamento de um shopping center), há também a descoberta dessas obras de inestimável valor de Monet: o quadro e o pedaço de pano com o esboço de uma famosa obra do pintor. E, também, há as fotografias.
Um paralelo histórico interessante de obra de grande valor encontrada em uma propriedade abandonada na França se deu exatamente em Paris: um apartamento em nome de Marthe de Florian, situado à Praça La Bruyére, 2 (no 9º Arrondissement), foi abandonado durante a Segunda Guerra Mundial (embora o último papel com data encontrado no imóvel era de 1955). O apartamento foi finalmente reaberto em 2010, quando a neta de Marthe de Florian, Solange Beaugiron, morreu aos 91 anos. É incrível que, durante todo esse período em que ficou fechado, as despesas do apartamento foram pagas em dia.
Quando da reabertura daquele imóvel em Paris, foi encontrado um quadro retratando Marthe de Florian, feito pelo pintor italiano Giovanni Boldini. O quadro foi leiloado pouco tempo depois, tendo alcançado o valor de três milhões de euros, um recorde para aquele pintor relativamente desconhecido. Essa estória teria sido uma inspiração para “As Cores do Tempo”?
Voltando ao filme: Guy, que já era contra a venda da casa, também argumenta que o quadro deveria ser doado ao governo, o que é contrariado de forma veemente por muitos membros da família na reunião virtual final.
*Fernando T.H.F. Machado é Economista e admirador da Sétima Arte.
Agradeço também às observações atentas, dicas e correções da minha esposa Ana Lúcia e das minhas filhas Gabriela e Patrícia, sem as quais elaborar o presente texto não teria sido possível.
Fernando no Cinema Reserva Cultural, foto tirada por sua esposa Ana Lúcia.

0 comentários:
Postar um comentário