12.10.2026
João Moris, do Rio de Janeiro
Depois de sete anos ausente do Festival do Rio, voltei à cidade maravilhosa para cobrir o evento, que terminou ontem e provou porque continua sendo uma vitrine importante do cinema contemporâneo mundial. Como manda o figurino em grandes festivais de cinema, um evento desse porte exige fôlego dos cinéfilos e um verdadeiro teste de resistência e logística entre uma sessão e outra.
Afinal, o Festival do Rio exibiu mais de 350 filmes de 78 países em 11 dias! Só a Première Brasil, que traz a produção mais recente do cinema nacional, foi uma autêntica avalanche de filmes, com 101 produções em exibição. Entre os internacionais, houve uma grande seleção de títulos que foram premiados ou acabaram de passar nos grandes festivais europeus, como Veneza, Berlim, Cannes e Locarno.
Como de costume nos festivais que frequento, faço um esforço consciente para fugir do óbvio, embora os filmes em escala global me pareçam estar cada vez mais padronizados. Assim sendo, busquei privilegiar cinematografias de países periféricos, que estão fora do eixo geopolítico e econômico do mundo.
Mas, notei um padrão intrigante nos filmes que escolhi do Festival do Rio deste ano. Coincidência ou não, filmes sobre a juventude em crise ditaram o ritmo da minha maratona. Vi vários filmes sobre jovens em conflito com a lei, com a família, em situação de vulnerabilidade social, abandono ou isolamento e crise de identidade.
Nas próximas linhas, divido com vocês um olhar muito pessoal e sucinto sobre os filmes que vi no Festival do Rio 2026.
Dignidade roubada
O genocídio de Gaza e as guerras que seguem assolando regiões estratégicas do mundo continuam – acertadamente – na pauta de muitos filmes exibidos em festivais internacionais. O documentário de produção palestino-francesa Cidadão Osama (Al Mowaten Osama – dir. Ahmed Hassouna) nos joga direto nos escombros da Faixa de Gaza. Acompanha o dia a dia do jovem jornalista e fotógrafo palestino Osama Al-ashi cobrindo o massacre pepetrado por Israel e dividindo-se entre o instinto de proteger seu bebê recém-nascido e o dever quase espiritual de filmar a destruição ao redor, que empurra a população para o sul de Gaza, num deslocamento desumano. De embrulhar o estômago, o filme dialoga diretamente com o perturbador documentário Naza, onde o simples ato de manter a câmera ligada já é uma afronta ao opressor. Não é à toa que mais de 200 jornalistas palestinos foram premeditadamente assassinados desde o início do conflito.
Outro filme palestino em coprodução internacional, a ficção Conversas com o Mar (Hiwar Ma' Albahr – dir. Muayad Alayan), embora não trate do genocídio de Gaza, também expõe as injustiças cometidas por Israel contra o povo palestino. A trama acompanha Kamal, um palestino viúvo de 60 anos que vive sozinho em Jerusalém e recebe uma ordem judicial do governo israelense cobrando uma dívida previdenciária gigantesca. A cobrança está no nome de Wael, seu filho adolescente, que teria morrido afogado no Mar Vermelho há mais de 20 anos. Ao tentar se livrar dessa dívida descabida, Kamal descobre que não existe nenhum registro oficial de óbito do filho no sistema. A partir daí, o filme vira uma jornada dolorosa e obsessiva de Kamal para descobrir o que realmente aconteceu com Wael. O filme deixa um sabor amargo à medida que nessa busca, o pai é obrigado a reabrir feridas e ressentimentos do passado que nunca cicatrizaram.
Outro drama de guerra atual, desta vez na Ucrânia, é a produção lituano-ucraniana Primavera (Vesna – dir. Rostislav Kirpičenko). O filme acompanha o jovem padre Andriy em uma cidade no sudeste da Ucrânia sob ocupação russa. Quando sua igreja é transformada pelas forças invasoras em um necrotério provisório para civis ucranianos executados, ele é proibido de sepultá-los, visto que os corpos são queimados empilhados em valas rasas pelos russos para não deixar vestígios de crime de guerra. Movido pela compaixão e sob o olhar atento de um garoto de 11 anos, o religioso arrisca a própria vida ao identificar secretamente as vítimas e devolver os corpos às suas famílias. Um filme sombrio com fotografia sombria e enredo sombrio para realçar os absurdos e atrocidades de uma guerra que não tem fim.
Já o filme iraniano Casa em Queda (Moragheb / Falling House), do diretor Mohsen Gharaei, é um drama familiar e político contundente que serve como uma alegoria profunda sobre a ruína e a opressão que assolam a sociedade iraniana contemporânea. A história acompanha uma família humilde na periferia de Teerã que vê a sua residência ameaçada de demolição por um projeto estatal de reurbanização. O patriarca, Rashid, é um guarda prisional autoritário acusado injustamente de corrupção e um devoto pai de família, enquanto a sua filha mais velha, Ensi, planeja fugir do Irã escondida do pai. Um filme tenso que literalmente não deixa pedra sobre pedra.
Cinemas africanos
Visto que a África é composta por 54 países, cada um com a sua própria identidade cultural, história política e tradições, o termo “cinemas africanos” para se referir à vasta cinemtografia desse continente está mais do que consolidado. Felizmente, o Festival do Rio deste ano trouxe uma mostra variada e eclética de filmes africanos. Algumas produções se destacam pela força e vigor da narrativa e das interpretações, como é o caso do filme nigeriano Dear Ajayi (dir. Damilola Orimogunje). Ambientado no sudoeste da Nigéria no final dos anos 1990, acompanha a história de duas irmãs afastadas que são forçadas a voltar a viver sob o mesmo teto para cuidar da mãe que ficou paralisada. O enredo explora o choque de visões de mundo: uma delas é uma cristã devota e arrimo de família, enquanto a outra é uma cantora independente e rebelde que tenta quebrar as convenções sociais. O filme foge dos melodramas familiares tradicionais e coloca o universo particular dessas três mulheres no centro de um drama intimista avassalador. O diretor constrói uma atmosfera claustrofóbica onde a dor do luto antecipado e os laços familiares fragilizados me envolveram e emocionaram, sem me sentir manipulado.
O filme Congo Boy, do diretor congolês Rafiki Fariala, fez história ao ser a primeira produção da República Centro-Africana a ser selecionada e exibida no Festival de Cannes deste ano, onde competiu na prestigiada mostra Un Certain Regard. Acompanhamos com interesse e uma certa incredulidade as agruras e desventuras de Robert, um jovem refugiado de 17 anos nascido na República Democrática do Congo, que tenta construir a vida em Bangui, a capital do país vizinho República Centro-Africana, igualmente dominado por conflitos étnicos e milicias truculentas. O grande sonho de Robert é ser cantor de rapper e ficar famoso. No entanto, sua realidade é totalmente outra e tão dura quanto inacreditável: os seus pais são presos pelas autoridades locais, o adolescente cuida sozinho de seus quatro irmãos mais novos e faz muitos malabarismos diários para conciliar a sobrevivência da família, exames escolares importantes, trabalhos precários e as suas apresentações como cantor em boates. Mas, este bravo guerreiro dificilmente irá sucumbir a tantos perrengues, visto que o filme é uma jornada típica do herói, com um quê de cinema hollywoodiano. Mas, como resistir ao charme, determinação e vivacidade do nosso Robert?
Outro filme africano protagonizado por um jovem, mas com uma persona e personalidade totalmente diferentes do Robert, é o egípcio Saída de Segurança (Khoroug Amen – dir. Mohammed Hammad). A história acompanha Samaan, um jovem segurança que vive uma rotina opressiva e monótona. O seu grande sonho para escapar dessa realidade é conseguir publicar um livro que está escrevendo. Samaan é assombrado por profundos traumas de infância. Para conseguir o dinheiro necessário para financiar o seu projeto literário, ele acaba por se envolver com um grupo de extremistas radicais. O filme tem uma estética bastante austera e contida, como que se estivesse a espelhar a paralisia emocional, a culpa e os dilemas morais do protagonista. Mas, será a "saída de segurança” encontrada por ele tão segura assim?
América Latina presente
Além de filmes africanos, o Festival do Rio brindou os cinéfilos com uma ampla mostra da cinematografia latino-americana. São filmes mais do que bem-vindos, visto que a América Latina praticamente sumiu dos lançamentos comerciais no Brasil, com raras exceções para os filmes argentinos. Com uma grande tradição cinematográfica, o México foi quem mais sobressaiu no Festival do Rio. O divertido e bem sacado O Resto é Ruído (Lo Demás és Ruido), dirigido pelo renomado cineasta mexicano Nicolás Pereda, funciona como uma comédia de erros minimalista e metalinguística passada quase inteiramente dentro de um apartamento na Cidade do México. Com apenas 70 minutos, a trama gira em torno de Teresa, uma violoncelista e compositora de música erudita, que se reúne com outras compositoras (Rosa e sua filha Luisa) para gravar uma entrevista televisiva conduzida pelo jornalista Lázaro e o cinegrafista Paco. No entanto, a gravação rapidamente sai dos trilhos e o caos se instala devido a uma série de interrupções mundanas do cotidiano. Ao mesmo tempo em que celebra a cumplicidade e a amizade feminina entre as musicistas, o longa ironiza a hipocrisia, a rigidez e as pretensões do mundo da arte contemporânea e a busca insaciável por reconhecimento social e fama, muito comum entre a classe média de países latinos…
Outro filme mexicano de destaque que assisti no Festival é Cinzas na Boca (Ceniza en la boca), do diretor e ator mexicano Diego Luna. O filme acompanha a jornada da jovem mexicana Lucila, de 21 anos, que migra para Madri ao lado do seu irmão mais novo, Diego, com o objetivo de se reencontrarem com a mãe, Isabel. A mãe tinha emigrado oito anos antes para trabalhar na Europa e conseguir sustentá-los. No entanto, a expectativa de uma vida de sonho dá rapidamente lugar a uma realidade amarga e sufocante, onde os irmãos enfrentam a precariedade de empregos mal pagos, o racismo sistêmico e a dolorosa tarefa de reconstruir laços familiares que foram fragilizados pelo tempo e pela distância. Um filme sensível e intenso que traz uma reflexão sobre pertencimento e deslocamento.
A produção chilena Hangar Vermelho (Hangar Rojo – dir. Juan Pablo Sallato) é mais um filme sobre a ditadura que busca exorcizar seus fantamas. A história se passa em Santiago no fatídico 11 de setembro de 1973, a data do golpe militar liderado por Augusto Pinochet que derrubou o presidente Salvador Allende. A trama acompanha o Capitão Jorge Silva, ex-chefe da Inteligência e atual instrutor de jovens cadetes na Academia da Força Aérea Chilena. A sua rotina é quebrada e sua moral posta em xeque quando Jorge recebe uma ordem direta e brutal: transformar as instalações da academia num centro clandestino de detenção e tortura. O filme tem problemas de ritmo, mas destaca-se visualmente pela fotografia em preto e branco, que acentua a atmosfera sombria, fria e claustrofóbica da instituição militar durante a tomada de poder e os horrores da ditadura.
O único representante argentino do Festival que assisti não me conquistou, apesar da premissa interessante. As Famílias de Emi (Emi – dir. Ezequiel Erriquez) mostra o dia a dia do jovem Emi, que completou 18 anos e foi criado pelos seus pais adotivos nos arredores de Buenos Aires. Meio apático, mas movido por uma curiosidade secreta, o grande objetivo de Emi é localizar os seus pais biológicos. Mas, seu pai verdadeiro está mais perto do que imagina. Faltou molho e estofo ao diretor para contar esta história de uma forma mais envolvente e visceral. Voo raso.
Brasil na fita
A produção de curtas e longas brasileiros vai muito bem, obrigado, graças também ao incentivo do governo e às leis de fomento. Desta forma, multiplicam-se os festivais pelo Brasil afora exibindo produções locais, o que é muito bem-vindo, se não fosse o eterno problema da distribuição desses filmes nacionais e da falta de público. O Festival do Rio e a Mostra de São Paulo exibem praticamente os mesmos filmes brasileiros, com muita badalação em torno dos lançamentos e geralmente com bom público.
Vi apenas dois filmes nacionais no Festival do Rio. O aclamado A Margem do Rio, da dupla pernambucana Enock Carvalho e Matheus Farias, é uma coprodução com a Alemanha e tem muitas cenas noturnas deslumbrantes gravadas nos manguezais do Recife. O filme tem uma pegada queer, com fundamentalismo religioso e um toque de mistério, que beira o realismo fantástico. A ambiguidade do protagonista Izaquiel ora funciona a favor, ora contra a narrativa do filme, que corre o risco constante de chegar a lugar nenhum. Mesmo assim, o filme vale por ser uma excelente metáfora do caos político-social do Brasil contemporâneo. Este filme estará na 50ª Mostra de São Paulo.
Outro filme que busca ser uma metáfora deste país totalmente polarizado e ensandecido é Privadas de Suas Vidas, do sempre polêmico e irreverente diretor Gustavo Vinagre, em codireção com o cineasta experimental Gurcius Gewdner. Como sugere o título, o filme mistura comédia, terror gore, trash escatológico e narrativa queer e, como a maioria dos filmes do Gustavo Vinagre, é ame-o ou deixe-o. Não há meio termo. No caso deste filme, a obssessão é com banheiros, privadas, desentumpidores de privadas, chuveirinhos íntimos, intestino preso, intestino solto, vômito, diarreia e cocô, muito cocô. Merda e bosta voando pra tudo quanto é lado o filme inteiro. Não é por menos que o filme evolui muito: começa com uns toretinhos e termina com um gigantesco fecaloma, devidamente depositados pela protagonista Malu (maravilhosamente interpretado pela atriz Martha Nowill). No fim, fica a pergunta: de onde saiu tanta merda? Seria essa a questão mais premente das eleições do Brasil em 2026?
Eurocêntricos
Como de costume, os filmes europeus são os mais badalados, os mais concorridos e os mais procurados na maioria dos festivais no planeta, visto que a seleção vem quase toda dos grandes festivais da Europa. Optei por privilegiar dois filmes de veteranos do cinema europeu. Do octogenário cineasta britânico Mike Leigh foi exibido seu filme mais recente,Tender Loving Care, que, como sugere o título, é carregado de carinho, amor e cuidado. Conta a história da amizade entre duas assistentes sociais cuidando de pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade em Londres. Um filme terno, com personagens marcantes e atuações impecáveis, como a vasta maioria dos filmes do diretor. Mas, a bizarrice dos personagens e o estranhamento das situações dos seus filmes anteriores já não estão mais ali. Sobrou a ternura, o que não é pouco nos tempos bicudos em que vivemos.
Outro diretor veterano que continua na ativa aos 81 anos é o italiano Gianni Amelio. Fiel à sua longa carreira de filmes humanistas, Sem Dor (Nessun Dolore) é uma alegoria íntima sobre o isolamento moderno e a apatia social contemporânea. Davide ganha a vida como um jovem livreiro que cuida de uma banca de livros usados numa praça em Roma. Um homem analógico, introvertido e ligeiramente desajustado da velocidade e do ruído do mundo moderno. Um acontecimento trágico irá entrar em colisão frontal com seu mundo “fora da caixa”. Um filme introspectivo e reflexivo, bastante “cabeça” e com muitos quebra-cabeças, de um profundo humanismo. Não é para todos os gostos,
Outro filme europeu que assisti e me chamou a atenção vem do leste, mais exatamente da Sérvia. Três Semanas Depois (3 nedelje posle / 3 Weeks After – dir. Miroslav Terzić) é um impactante drama que aborda as dores e silêncios da adolescência contemporânea. A trama gira em torno de uma escola na Sérvia com um aluno que cometeu suicídio e, três semanas após a tragédia, os professores decidem manter uma excursão escolar à Bulgária, que havia sido previamente agendada. Durante o percurso de ônibus, uma série de incidentes levam o grupo a se isolar num hotel decadente nas montanhas, onde a verdadeira natureza dos alunos e dos professores vêm à tona. Filme forte e atual, que não faz concessões à violência física e psicológica que consome os personagens.
Americanos
Vi três produções dos Estados Unidos durante o festival, todos com estreia prevista nos cinemas do Brasil. Para mim, no geral, muitos filmes americanos hoje, mesmo os considerados “independentes”, estão cada vez mais com cara e formato de filme hollywoodiano, isto é, roteiros e atuações eficientes, produções impecáveis, mas careta e quadradinho no conteúdo e na forma, com arcos narrativos bem fechadinhos para agradar o público.
O badalado Club Kid, dirigido e protagonizado pelo cineasta e comediante Jordan Firstman, é ambientado na Nova York dos anos atuais e fala de um trintão gay vivendo la vida loca de sexo, drogas e rock and roll que descobre ter um filho de 11 anos que vai morar inesperadamente com ele. Um filme bem embalado e convincente, mas cheio de clichês do gênero, pretensamente moderninho e xaroposo. Para aqueles que gostam de se enternecer com relação pai-filho e chorar aos borbotões. Certamente cairá no gosto do grande público.
The Man I Love, o filme mais recente do renomado diretor Ira Sachs, também é ambientado em Nova York, mas dos anos 80 no apogeu da epidemia da Aids. É protagonizado pelo intragável (mas excelente ator) Rami Malek, que faz um ator egocêntrico em estado terminal. O filme não é melodramático, mas todos os personagens são extremamente mal desenvolvidos e a narrativa claudica.
O filme americano que mais gostei do Festival do RIo foi Rosebush Pruning, que na verdade é uma coprodução internacional dirigida pelo brasileiro Karim Ainouz. Um filme ousado sobre uma família disfuncional americana em sua casa de veraneio na Catalunha. Uma mistura explosiva de patriarcado, neoliberalismo e consumo. Zero panfletarismos e moralismos! É um remake pós-moderno do filme italiano de 1965, De Punhos Cerrados, do diretor Marco Bellocchio. Filmaço.
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