Minha Mostra Internacional De Cinema 2016 – Parte 2

30.11.2016
por Marcos Eça

Filmes Brasileiros e Filmes Estrangeiros

Da Produção Nacional 

Na Mostra Brasil, assisti ao documentário Curumim (2016, Brasil, 106 min) de Marcos Prado (Estamira, 2004 e Paraísos Artificiais, 2012). Nesse filme, ele dá voz a Marco Ascher, jovem que nasceu em uma família abastada. Morou no Rio de Janeiro, desde criança, onde revelou seu interesse pelo surf e asa-delta. Seus amigos esportistas lhe apelidaram de Curumim. Ascher foi o primeiro brasileiro a ser condenado à pena de morte por tráfico de drogas em 2004, na Indonésia. Curumim foi preso por tentar entrar neste país portando 13,4 quilos de cocaína nos tubos de sua asa-delta. Na realidade, sua detenção não foi imediata porque ele conseguiu fugir de forma pirotécnica, porém acabou detido dias depois.Essa “aventura” é narrada em detalhes no filme.


Marcos Prado estava presente na sessão em que vi o filme e comentou que Curumim o procurou para que ele contasse sua história, por entender que se tratava de uma narrativa bacana.Perguntei ao diretor se havia autorização para filmar os vídeos que o próprio Curumim gravava de dentro da prisão. Ele disse que aqueles vídeos foram gravados sem autorização da prisão onde Curumim cumpria pena. 

No documentário há diversas vozes. Uma delas é a de um italiano que conviveu na prisão com Curumim e após cumprir sua pena, retornou à Itália. Além dessa voz, há a de Rodrigo Gularte, também brasileiro, condenado à pena de morte por tráfico de drogas. A meu ver, a multiplicidade de vozes, os diversos pontos de vista e a própria forma multifacetada como Curumim é representado fazem com que seja um bom filme. Além do mais, levanta a polêmica da pena de morte que não faz com que crimes deixem de ocorrer. Estreou nos cinemas de São Paulo no dia 03 de novembro.


O filme Canção da Volta (2016, 98 min) de Gustavo Rosa de Moura, traz Julia (Marina Person, esposa do diretor) como uma pessoa depressiva que tentou se suicidar. As marcas do suicídio são evocadas em diversos momentos do filme. É casada com Eduardo (João Miguel), apresentador de um programa de entrevistas de escritores da literatura brasileira. Apesar de ser hábil ao discutir temas relacionados à ficção, quando tem de lidar com os conflitos diários de sua família não sabe como conduzi-los. João Miguel está muito bem em seu papel; Marina Person deixa a desejar no papel de Julia. Para mim,há um excesso de nus da cineasta/apresentadora resultando em efeitos desnecessários. Um filme que discute alguns de nossos conflitos diários e que resgata a canção-título na voz de Dolores Duran.Estreou em 03 de novembro em São Paulo.

Da Produção Internacional

O mais recente filme do cineasta palestino Hany Abu Assad é O Ídolo (The Idol, 2015, 100 min). Nele temos a saga verídica de Mohammad Assad que começa em 2005, com ele ainda criança, e termina com ele adulto em 2013. Desde pequeno, o protagonista revela ser dono de uma voz belíssima e forma uma banda juvenil com seus amigos. Contudo, ele e sua família moram em Gaza, na Palestina, tornando a aquisição dos instrumentos musicais quase impossível.


Apesar de no filme não haver grandes discursos a respeito de como é a vida nessa região, há imagens que representam essa vida, esse mundo, especialmente porque Assad é o primeiro diretor a conseguir filmar em Gaza nos últimos 20 anos. A respeito da representação de Gaza, há uma cena emblemática: Mohammad está andando de bicicleta com seus amigos da banda e de repente têm de parar porque se deparam com uma cerca imensa de arrame farpado, ou seja, se defrontam com a faixa que separa Gaza de Israel e com todas as questões políticas implicadas nesse ato político. Durante o filme, também há vários prédios em ruína que fazem parte da paisagem cotidiana dos moradores de Gaza.Apesar das imagens sobre Gaza serem impactantes, O Ídolo, ao contrário de seus filmes anteriores - Paradise Now (2005) e Omar (2013) - é mais comercial por não deixar pontas a serem atadas pelos expectadores. O sonho de Mohammad era participar do programa Ídolos Árabe, tornando-se um porta voz dos palestinos e provocando uma comoção nacional. Talvez isso torne o filme um pouco piegas e me faça lembrar de Quem quer ser um milionário? (2008) de Danny Boyle. Apesar disso, me pergunto: em um lugar onde quase não há esperança é preciso agarrar-se a alguma tábua de salvação? Esse talvez seja um dos temas desse filme. Curiosidade: tive o privilégio de assistir a esse filme na sala da SPCine do CEU Jaçanã. A projeção, a sala e o som são impecáveis, além de a entrada ser gratuita. Que em 2017 essas salas continuem com suas atividades intensas!


Lobo e Ovelha (Wolf and Sheep, 2016, 86min) é um filme da diretora iraniana Shahrbanoo Sadat. O longa-metragem se passa em uma pequena vila de pastores do interior do Afeganistão onde as crianças são as responsáveis por cuidarem do pastoreio das ovelhas. O filme tem o mérito de representar o cotidiano dessas crianças com uma naturalidade intensa, com um tom quase documental. Contudo, essa sociedade é conservadora e retrógrada porque segrega meninos e meninas e estigmatiza uma jovem de 11 anos, Sediqa, ao afirmarem que ela é uma entidade responsável pela morte de diversas ovelhas. Qodrat, um dos meninos da vila, pelo fato de andar pelas montanhas, acaba cruzando com Sediqa e se tornam amigos. Tradição, conservadorismo, o velho, o novo, o lugar são alguns dos temas abordados no filme de Sadat. O ponto fraco do filme é quando uma mulher fantasmagórica, nua, pintada de verde, com longos cabelos, aparece do nada. Talvez ela pudesse representar uma lenda mencionada, ou a morte ou associar-se à Sediqa por dizerem que é a responsável pelas mortes dos animais, mas... continuo sem saber. Já um ponto forte do filme é a bela fotografia que nos encanta e enche nossos olhos. Bom filme!

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