DIÁRIOS DO FESTIVAL DE ROTERDÃ 2

28.01.2019
Por João Moris, de Roterdã 

O Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR) continua a todo o vapor, com muita efervescência e participação do público, inclusive nos debates. Aqui, a linha que divide o cinema experimental do cinema independente parece estar bem definida, embora nem todo o filme experimental hoje tenha um estilo radical ou inovador. Também, muitos filmes feitos de forma independente e autoral têm a cara e o jeito de filme comercial, o que não implica necessariamente em menor qualidade. Dito isto, o IFFR se diferencia dos grandes festivais de cinema do mundo ao apresentar filmes realmente diversificados, sem o compromisso com o ineditismo, com o esquema dos grandes estúdios e de trazer diretores badalados ou celebridades. 

Um dos filmes favoritos do público até agora (e o meu também!) é o dinamarquês Sons of Denmark, primeiro longa do diretor Ulaa Salim, um thriller político contundente sobre a ascensão de um partido nacionalista e xenófobo na Dinamarca e a reação radical de jovens árabes, nascidos no país, à eleição do líder do partido como primeiro ministro. Um barril de pólvora que está apenas à espera de uma faísca para explodir na Europa Ocidental. Qualquer semelhança com o avanço da direita e do fascismo no Brasil não é mera coincidência.

Cena do filme Sons of Denmark

Outro filme favorito do público no IFFR deste ano é o escocês Beats, do diretor Brian Welsh. Fala de um grupo de jovens numa cidadezinha da Escócia em meados dos anos 90, quando o governo britânico proibiu as festas raves no Reino Unido. Devido à proibição, este tipo de festa, que reunia milhares de jovens e durava alguns dias, adquiriu status mítico e as raves passaram a ser organizadas de forma clandestina. Apesar de ser direcionado a um público específico, o filme vai além do tom documental e nostálgico de uma época, aprofundando a relação de cumplicidade entre os jovens.

Cena do filme escocês Beats

Destaco também o filme iraniano Tehran, City of Love, de Ali Jaberansari, sobre os relacionamentos de três personagens na capital iraniana. Como retrato tragicômico da solidão, o filme surpreende ao mostrar que valores considerados tipicamente ocidentais (culto à beleza, cuidado excessivo com o corpo, o uso obsessivo do celular, consumo etc) também estão presentes no cotidiano de países mais fechados ou conservadores.

Cena do filme iraniano Tehran, City of Love 

Uma experiência multi-sensorial foi assistir ao filme canadense The Seven Last Words, projeto realizado por sete diretores do Quebec, com exibição acompanhada ao vivo por um quarteto de cordas. O filme se baseia na obra do compositor austríaco Joseph Haydn, As Sete Últimas Palavras de Cristo (1787), e os diretores foram comissionados para fazer a leitura imagética da obra de Haydn. Mais do que belas imagens oníricas, o filme traz um retrato pungente e atual do estado do mundo ao som sublime da peça de Haydn tocada ao vivo.

Cena do filme canadense The Seven Last Words 

Quanto aos filmes brasileiros sendo exibidos no IFFR, No Coração do Mundo, de Maurílio Martins e Gabriel Martins, é um retrato vivo do cotidiano de um bairro da periferia de Contagem, cidade da Grande Belo Horizonte. Os diretores desdobram de forma criativa as histórias, desejos e sonhos de mudança dos personagens, todos vivendo de subempregos ou na marginalidade. A lamentar, o final do filme de tom um tanto policial e esvaziado. A destacar, a atuação da ótima atriz Grace Passô e do ator Leo Pyrata.

Leo Pyrata e Kelly Crifer em cena de No Coração do Mundo  

Este ano, o IFFR traz ao centro da discussão a questão racial e de gênero no Brasil e em outros países do mundo por meio de mostras paralelas, palestras e aulas magnas. A mostra “Soul in the Eye”, tradução literal de Alma no Olho (1973) nome do curta clássico do diretor, ator e ativista negro brasileiro, Zózimo Bulbul, traz vários filmes brasileiros recentes, como o média metragem Rainha, da diretora Sabrina Fidalgo, sobre a trajetória de uma mulher negra da periferia do Rio de Janeiro, que não mede esforços para ser a rainha de uma escola de samba, e BR3, do jovem diretor Bruno Ribeiro, que mostra o cotidiano de jovens trans e negros nas grandes cidades brasileiras. Os filmes desta mostra foram descritos como “histórias de resistência à violência e ao ódio pelo afeto”. Estes e outros diretores, que formam a nova geração de cineastas brasileiros, estão representando seus filmes no festival.

A atriz Ana Flavia Cavalcanti, a diretora Sabrina Fidalgo (Rainha) e o diretor Bruno Ribeiro (BR3)

Outro filme de jovens diretores brasileiros passando em Roterdã é o média metragem Tragam-me a Cabeça de Carmen M., de Felipe Bragança e Catarina Wallenstein, uma produção Brasil-Portugal sobre uma portuguesa que vem ao Brasil para ensaiar um filme sobre Carmen Miranda, no qual ela faz o papel principal. O filme é uma alegoria sobre a situação atual do Brasil com muitos símbolos e sinais facilmente absorvidos por brasileiros, mas de difícil entendimento para plateias estrangeiras. De maneira criativa e anárquica, o filme fala da perda da identidade e da alegria do brasileiro diante do retrocesso político, social e econômico do país.

A atriz Catarina Wallenstein em Tragam-me a Cabeça de Carmen M

O gênero fantástico no cinema brasileiro está ganhando cada vez mais força e vários filmes de terror vêm sendo produzidos e lançados em nosso país. Morto Não Fala, primeiro longa do diretor Dennison Ramalho, é um exemplar típico desse cinema e foi selecionado para o Festival de Roterdã. Com um elenco estelar, que inclui Daniel de Oliveira, Marco Ricca e Fabíula do Nascimento, o filme tem um enredo muito original sobre um funcionário do IML que “conversa” com os defuntos que ali chegam. Pena que o filme se perca num emaranhado de clichês e sub-enredos do gênero, com um final brando demais. Isto talvez tenha ocorrido porque, como explicou o diretor no debate, o filme é um projeto piloto para uma série de terror que a Globo Filmes pretende lançar em breve.

Cena do filme Morto Não Fala

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