DIÁRIOS DA BERLINALE (FINAL)

17.02.2019 
Por João Moris, de Berlim

Terminou hoje o Festival de Berlim e os prêmios oficiais foram anunciados ontem. Foram dez dias de muitos filmes, debates e reflexões. O critério de escolha para a premiação dos melhores filmes em festivais é sempre uma incógnita.

Júri da Berlinale 2019 presidido pela atriz Juliette Binoche

Este ano, o júri internacional, presidido por Juliette Binoche, deu o Urso de Ouro ao filme francês Synonymes, do diretor israelense Nadav Lapid. Este filme caiu no gosto do júri e da crítica presente à Berlinale, mas considero o filme fraco em relação aos outros que vi da mostra Competição. Synonymes conta a história de um jovem israelense, que acaba de completar o serviço militar, e desiludido com seu país vai para Paris. Lá, seus poucos pertences são roubados e ele é acolhido por um casal de jovens. O filme tem uma narrativa metafórica e um ar filosófico que me alienaram completamente do personagem principal e de suas motivações para romper com Israel, sua família e sua cultura. O segundo prêmio principal, o Urso de Prata, foi para outro filme francês, Grâce à Dieu, do diretor François Ozon, que já comentei em artigo anterior. É um filme denso e corajoso sobre casos de pedofilia perpetrados por um padre na Diocese de Lyon e muito superior ao vencedor do Urso de Ouro. 

A valorizada mostra Competição geralmente mistura filmes de diretores consagrados (este ano, além de Ozon, teve Fatih Akin, Isabel Coixet e Agnieszka Holland) a filmes de diretores não tão conhecidos internacionalmente, vindos de países distintos (este ano, foram filmes da Mongólia, Turquia, China, Macedônia, Noruega, Canadá, Itália, Áustria, França, Dinamarca, além da Alemanha). Não entendo a razão de misturar filmes de diretores tarimbados com filmes de diretores menos experientes, pois fica sempre uma lacuna, seja na qualidade, seja na comparação. Mas, o filme alemão Systemsprenger, da jovem diretora Nora Fingscheidt, se destaca pela ousadia de mostrar uma menina alemã de 9 anos, sem lar fixo, que se comporta de forma totalmente histérica e desajustada. O público acompanha de coração na mão a vertiginosa odisseia dos agentes do sistema para “salvar” a menina. Ganhou merecidamente o prêmio Urso de Prata Alfred Bauer por abrir novas perspectivas.

Cena do filme Systemsprenger, de Nora Fingscheidt, que levou o Urso de Prata

Outra seção prestigiada do Festival de Berlim, a mostra Panorama, teve filmes bem mais interessantes e ousados esteticamente do que os da Competição. Os filmes que mais gostei desta mostra falam de masculinidade ou ritos de passagem. O filme Buoyancy, do australiano Rodd Rathjen, é um pungente retrato da situação do trabalho escravo na indústria pesqueira do sudeste asiático, que movimenta bilhões de dólares. Conta a história de um adolescente cambojano que vai trabalhar na Tailândia e vira presa do dono de um barco em pleno alto mar. Já o americano Skin, de Guy Nattiv, conta a história verídica de um jovem neonazista, com o corpo e o rosto cobertos de tatuagens, filho de pais racistas, que são líderes de uma seita que prega a supremacia branca no interior dos Estados Unidos. O jovem se apaixona por uma mulher com três filhos e decide romper com a família e com a seita, sofrendo as consequências. Destaque para a atuação de Vera Farmiga e de Jamie Bell, na pele do neonazista. O filme russo Kislota (que significa ácido), do diretor Alexander Gorchilin de apenas 26 anos, é um retrato da geração dos 20 na Rússia atual, e conta as angústias do jovem Sasha e seus amigos, todos criados sem a figura paterna e que vagueiam sem rumo buscando seu lugar no mundo. O filme sérvio Stitches, de Miroslav Terzić, conta a saga de uma mãe que procura insistentemente pelo filho roubado da maternidade há 18 anos. Ela encontra o rapaz morando com outra família e busca uma aproximação, que virá pela dor e pelo amor. Por fim, o filme guatemalteco Temblores (tremores em português), de Jayro Bustamante, conta uma história tipicamente latino-americana: Pablo, trintão casado com dois filhos, se apaixona por um homem e vai morar com ele, para o desespero da esposa e de sua família burguesa. Ele acaba cedendo à chantagem da família e passa por um ritual de conversão católico, que seria cômico se não fosse trágico. Mas, conseguirá Pablo se converter e virar hetero novamente? 

Brasileiros em Berlim

A julgar pela celeuma causada na mídia brasileira e nas redes sociais pela exibição do filme Marighella em Berlim esta semana, a estreia no Brasil, ainda não definida, deverá ser recheada de muita polêmica. Realmente, Wagner Moura dá a cara pra bater com seu filme, cheio de provocações e convites à reflexão. É uma ótima oportunidade para discutir o passado recente do país, cujas feridas estão longe de ser cicatrizadas. Resta saber em que nível se darão os debates, visto que a direção da Berlinale teve de bloquear em sua página do Facebook as mensagens de ódio endereçadas ao diretor e à equipe do filme pelos “haters” brasileiros de plantão... 

Wagner Moura e elenco de Marighella, em entrevista coletiva

Além de Marighella, que veio a Berlim fora de competição, mas desfrutando de um espaço privilegiado, não posso deixar de mencionar o belo filme Divino Amor, do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, o mesmo de Ventos de Agosto e Boi Neon. O diretor situa a trama no Brasil de 2027, quando o país é governado por um grupo religioso e as religiões (supostamente neopentecostais) estão em toda a parte e profundamente enraizadas no dia a dia das pessoas. O filme fala de questões prementes no Brasil de hoje, como a transformação religiosa e cultural do país, a radicalidade da fé como fonte de prazer extremo e erótico, a entrega do corpo a Deus, além da substituição do Carnaval por “raves” religiosas que atraem milhares de pessoas. Um filme obrigatório, que também contribui para a discussão do país, mas que provavelmente será execrado pelos mais conservadores.

Cartaz do filme Espero Tua (Re) Volta de Eliza Capai, premiado em Berlim

Além disto, o Brasil ganhou o prêmio da Anistia Internacional na Berlinale deste ano pelo documentário Espero Tua (Re)Volta, da diretora Eliza Capai, que infelizmente não consegui assistir. Fala da ocupação das escolas secundárias no Brasil em 2015. 

Os festivais de cinema, em geral, refletem o estado do mundo, das pessoas e das sociedades. Berlim não é exceção. Muitos filmes que vi aqui têm temática forte e provocativa, mas não entregam o que prometem, ou não são ousados o suficiente, ou são caretas e conciliadores demais. Ou talvez muitos diretores e produtores busquem tornar seus filmes mais populares, para que sejam vistos por um número maior de pessoas, daí a opção pelo convencional e pela autocensura. De qualquer forma, uma plataforma como a de Berlim nos dá a oportunidade e o privilégio de conhecer o que está sendo feito no cinema em diferentes partes do mundo.

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